Você sabe quanto sua água produz? - Balde Branco

Saber o volu­me de pro­du­ção, pro­du­ti­vi­da­de, cus­tos e ren­ta­bi­li­da­de da ati­vi­da­de é a lição de casa de qual­quer pro­du­tor rural, mas um novo con­cei­to tam­bém vem se tor­nan­do obri­ga­tó­rio na agri­cul­tu­ra moder­na, a pro­du­ti­vi­da­de da água

Por Cris­ti­a­no Jan­nuz­zi, Geren­te Agronô­mi­co da Netafim

O Bra­sil, mes­mo sen­do uma potên­cia no que se refe­re à dis­po­ni­bi­li­da­de de água em seu ter­ri­tó­rio, vem encon­tran­do pro­ble­mas com a escas­sez hídri­ca nos últi­mos anos, seja pelo incor­re­to mane­jo dos recur­sos, por adver­si­da­des cli­má­ti­cas ou pela uti­li­za­ção de for­ma não raci­o­nal. O fato é que, nes­te con­tex­to a agri­cul­tu­ra irri­ga­da é hoje uma arma pode­ro­sa para o aumen­to da pro­du­ti­vi­da­de ali­a­do a sus­ten­ta­bi­li­da­de — con­di­ção indis­pen­sá­vel para o país se con­so­li­dar como mai­or pro­du­tor mun­di­al de ali­men­tos -, con­for­me pre­co­ni­za a FAO, órgão das Nações Uni­das para Ali­men­ta­ção e Agricultura.

O Bra­sil, com os seus cer­ca de 6 milhões de hec­ta­res irri­ga­dos e uma expan­são anu­al esti­ma­da em 200 mil hec­ta­res segun­do dados da ANA (Agên­cia Naci­o­nal das Águas), ofe­re­ce uma gran­de opor­tu­ni­da­de para que a irri­ga­ção ganhe cada vez mais rele­vân­cia. No entan­to, os pro­ble­mas de escas­sez de água e as difi­cul­da­des cada vez mais emi­nen­tes para con­ces­são de uso, con­ti­nua exi­gin­do da agri­cul­tu­ra irri­ga­da mai­or efi­ci­ên­cia, ou seja, obter melho­res ren­di­men­tos com meno­res volu­mes de água, o que impli­ca em aumen­tar a “pro­du­ti­vi­da­de da água”. Mas, o que é pro­du­ti­vi­da­de da água, afinal?

Até aqui, mui­to se falou sobre a uti­li­za­ção do recur­so na pro­du­ção de ali­men­tos, qual a efi­ci­ên­cia de cada sis­te­ma, quan­to de água é neces­sá­rio para se alcan­çar uma safra cheia, infor­ma­ções ampla­men­te conhe­ci­das, como os dados da Embra­pa que apon­tam que o pivô cen­tral — se mane­ja­do cor­re­ta­men­te — podem atin­gir uma efi­ci­ên­cia de 85%, já a asper­são con­ven­ci­o­nal apre­sen­ta uma efi­ci­ên­cia média de 75%, enquan­to que nos sis­te­mas de gote­ja­men­to a efi­ci­ên­cia pode che­gar a 95%.

Ago­ra o que se quer saber é quan­to de água é gas­to para pro­du­zir uma tone­la­da de qual­quer ali­men­to e como redu­zir esses núme­ros? Isso é a pro­du­ti­vi­da­de da água. Um estu­do rea­li­za­do por téc­ni­cos da Neta­fim, empre­sa isra­e­len­se de irri­ga­ção, em áre­as de diver­sas cul­tu­ras, apon­tou redu­ção de até 50% no con­su­mo da água, ali­a­do a um aumen­to de pro­du­ti­vi­da­de de 100% em alguns casos, quan­do apli­ca­do o sis­te­ma de gotejamento.

A pes­qui­sa, rea­li­za­da na safra 2017/18, acom­pa­nhou o desen­vol­vi­men­to dos cul­ti­vos com­pa­ran­do os resul­ta­dos de pro­du­ti­vi­da­de e con­su­mo no sis­te­ma de irri­ga­ção gota a gota e sis­te­ma de irri­ga­ção por asper­são. As amos­tra­gens evi­den­ci­a­ram uma neces­si­da­de menor de apli­ca­ção de água quan­do leva­da dire­ta­men­te na raiz das plan­tas e, apon­tou ain­da, um incre­men­to na pro­du­ti­vi­da­de, mes­mo com a menos uti­li­za­ção hídrica.

Na Fazen­da Unaí (MG), os 84 hec­ta­res de soja com irri­ga­ção por gote­ja­men­to pro­du­zi­ram 91 sc/ha, con­su­min­do em média 10,8 mm de água para cada saca entre­gue. Na área de tes­te­mu­nha a pro­du­ti­vi­da­de alcan­ça­da foi de 55 sc/ha, com con­su­mo de 18,8 mm por saca, ou seja, mais água e menos pro­du­ti­vi­da­de. Assim, é pos­sí­vel con­cluir que a pro­du­ti­vi­da­de da água do sis­te­ma gota a gota nes­te cená­rio foi de 74% mais efi­ci­en­te, fren­te a tes­te­mu­nha, uma vez que con­su­miu 8 mm a menos por saca e pro­du­ziu 65% a mais.

Outra fazen­da obser­va­da foi a Taba­puã Piri­neus, em Cocal­zi­nho de Goiás (GO), que pro­duz milho em 25 hec­ta­res e obte­ve os seguin­tes resul­ta­dos: pro­du­ti­vi­da­de de 300 sc/ha e uso de 1,66 mm de água para cada saca pro­du­zi­da no gote­ja­men­to. Já na tes­te­mu­nha a pro­du­ção foi de 160 sc/ha com con­su­mo de 3,25 mm para cada 60/kg do cere­al. Como con­clu­são temos que a pro­du­ti­vi­da­de da água no gote­jo foi 96% supe­ri­or ao méto­do tra­di­ci­o­nal, já que o sis­te­ma uti­li­zou 1,59 mm menos para pro­du­zir a mes­ma saca, ao mes­mo tem­po que o incre­men­to da pro­du­ti­vi­da­de foi de 88%.

O estu­do foi rea­li­za­do em diver­sas cul­tu­ras e dife­ren­tes regiões do país com resul­ta­dos que com­pro­vam a efi­ci­ên­cia da irri­ga­ção inte­li­gen­te, tan­to no que­si­to de melho­ra da pro­du­ti­vi­da­de, quan­to de melhor apro­vei­ta­men­to da água. De manei­ra geral, os méto­dos moder­nos de irri­ga­ção, sobre­tu­do os que envol­vem con­tro­le, moni­to­ra­men­to e pre­ci­são, são o futu­ro da agricultura.

Cada vez mais se inves­te em tec­no­lo­gi­as do cam­po, mas de nada vai adi­an­tar ter os pro­du­tos mais efi­ci­en­tes, os maqui­ná­ri­os mais moder­nos, se o mane­jo da água não acom­pa­nhar essa evo­lu­ção. É pre­ci­so pen­sar no uso raci­o­nal da água e é pre­ci­so fazer isso agora.

Rolar para cima