O uso de sabo­res na ração tem sido ampla­men­te acei­to, espe­ci­al­men­te, em rumi­nan­tes. O ali­men­to se tor­nou mais pala­tá­vel, o con­su­mo aumen­tou e o desem­pe­nho melho­rou

Mar­co­ni Sil­va*

 

De acor­do com a ONU – Orga­ni­za­ção Mun­di­al das Nações Uni­das – até 2050, o mun­do terá em tor­no de 10 bilhões de habi­tan­tes no pla­ne­ta. E um dos gran­des desa­fi­os é aten­der com segu­ran­ça, efi­ci­ên­cia e qua­li­da­de a deman­da futu­ra por ali­men­tos. Segun­do a FAO (órgão das Nações Uni­das para Agri­cul­tu­ra e Ali­men­ta­ção), entre 1960 e 2015, a pro­du­ção agrí­co­la mais que tri­pli­cou devi­do a ampli­a­ção de áre­as de cul­ti­vo e de pro­du­ti­vi­da­de pro­pi­ci­a­das pelas boas prá­ti­cas de pro­du­ção, melho­ra­men­to gené­ti­co e tec­no­lo­gi­as avan­ça­das.

Com este novo cená­rio, a bus­ca por pro­teí­na e lei­te tem aumen­ta­do a cada ano. Nas últi­mas cin­co déca­das, os pro­ces­sos mun­di­ais de pro­du­ção lei­tei­ra tem sido inten­si­vos e mais pro­du­ti­vos gra­ças à gené­ti­ca, à nutri­ção e ao mane­jo. Mas para que a vaca lei­tei­ra e as bezer­ras — futu­ras pro­du­to­ras de lei­te — alcan­cem alta pro­du­ti­vi­da­de é neces­sá­rio pro­du­zir uma ração de qua­li­da­de, fres­ca, pala­tá­vel e de alto valor nutri­ci­o­nal. É de conhe­ci­men­to do cri­a­dor que a ali­men­ta­ção da vaca lei­tei­ra é o fator de pro­du­ção de mai­or cus­to do litro de lei­te produzido.Atualmente, uma pro­du­to­ra moder­na che­ga a con­su­mir de 22 a 27 kg de maté­ria seca por dia.

Todo cui­da­do é pou­co. As vacas lei­tei­ras são mui­to sen­sí­veis às mudan­ças em sua die­ta. Os odo­res desa­gra­dá­veis ou os sabo­res amar­gos podem levar a uma bai­xa inges­tão de ração, afe­tan­do con­se­quen­te­men­te sua pro­du­ção e o desem­pe­nho da fazen­da.
Para apri­mo­rar o chei­ro e o sabor dos rações, a mai­o­ria das fabri­can­tes tem uti­li­za­do o aro­ma duran­te a fabri­ca­ção do pro­du­to. Como resul­ta­do, o ali­men­to se tor­nou mais pala­tá­vel, o con­su­mo aumen­tou e o desem­pe­nho melho­rou. O uso de sabo­res na ração tem sido ampla­men­te acei­to, espe­ci­al­men­te, em rumi­nan­tes, por duas razões:

1. Há um gran­de núme­ro de papi­las gus­ta­ti­vas situ­a­das na super­fí­cie dor­sal da lín­gua e na farin­ge e larin­ge che­gan­do a apro­xi­ma­da­men­te 25 mil em com­pa­ra­ção com 9 mil em huma­nos e ape­nas 24 em gali­nhas, per­mi­tin­do que o gado tenha uma melhor res­pos­ta aos sabo­res da ração.
2. A per­ma­nên­cia pro­lon­ga­da da ração na boca do ani­mal rumi­nan­te favo­re­ce a solu­bi­li­da­de dos agen­tes aro­ma­ti­zan­tes e per­cep­ção atra­vés do sis­te­ma retro­na­sal. Pra­ti­ca­men­te 80% do que é per­ce­bi­do como gos­to de um ali­men­to é, na rea­li­da­de, o seu chei­ro.

 


Como fun­ci­o­na o sis­te­mas olfa­ti­vo e pala­dar dos rumi­nan­tes?

O pala­dar envol­ve molé­cu­las res­pon­sá­veis por pro­por­ci­o­nar os cin­co gos­tos bási­cos: doce,salgado,amargo, aze­do e Uma­mi. Já o olfa­to é um sis­te­ma ain­da mais com­ple­xo por abran­ger uma gama de molé­cu­las que pro­pi­cia aro­ma aos ali­men­tos e des­cri­ção dos sabo­res inge­ri­dos, como o do quei­jo, pês­se­go, cama­rão, etc.

O estí­mu­lo aro­má­ti­co pode ser alcan­ça­do pelo epi­té­lio olfa­tó­rio atra­vés de duas vias: nasal — duran­te o ato de chei­rar (olfa­ção orto­na­sal) — e oral, atra­vés do con­su­mo do ali­men­to (olfa­ção retro­na­sal). A olfa­ção orto­na­sal ini­cia a par­tir de um estí­mu­lo exter­no, que per­cor­re pela nari­na ante­ri­or em dire­ção à muco­sa. Já o pro­ces­so retro­na­sa­la­con­te­ce após a deglu­ti­ção, onde molé­cu­las aro­má­ti­cas volá­teis são libe­ra­das da matriz ali­men­tí­cia e che­gam até a cavi­da­de nasal atra­vés da farin­ge, esti­mu­lan­do recep­to­res da fen­da olfa­ti­va.

Depois do con­ta­to de molé­cu­las aro­má­ti­cas com os sis­te­mas olfa­tó­ri­os, recep­to­res espe­cí­fi­cos são expres­sos no epi­té­lio, espe­ci­fi­ca­men­te, nos cíli­os dos neurô­ni­os olfa­tó­ri­os, que pro­mo­vem uma sina­li­za­ção quí­mi­ca etrans­mi­te a per­cep­ção dos aro­mas para o cére­bro. O pala­dar e o olfa­to estão liga­dos intrin­se­ca­men­te ao sabor.

Um dos prin­ci­pais moti­vos para a inser­ção dos aro­ma­ti­zan­tes nas rações está rela­ci­o­na­do à ten­ta­ti­va de mini­mi­zar a rejei­ção que os ani­mais apre­sen­tam às modifi­ca­ções­sú­bi­tas das pro­pri­e­da­des olfa­ti­vas e gus­ta­ti­vas dos ali­men­tos. O pro­du­to mais uti­li­za­do nes­te caso é a vani­li­na que pro­por­ci­o­na mais sabor e, prin­ci­pal­men­te, o aro­ma.

Com o decor­rer dos anos, alguns pro­ce­di­men­tos de mane­jo avan­ça­ram para situ­a­ções extre­mas, como o des­ma­me pre­co­ce de lei­tões e de bezer­ros. A tro­ca da die­ta líqui­da natu­ral pela sóli­da (ração) acon­te­ce de modo estres­san­te ao ani­mal, par­ti­cu­lar­men­te, pelos bovi­nos e suí­nos. Este fator pode ser ame­ni­za­do com o uso de um aro­ma na ração seme­lhan­te ao lei­te mater­no. Se não for uti­li­za­do um aro­ma­ti­zan­te nes­te perío­do, estes ani­mais ten­dem a rejei­tar o ali­men­to cau­san­do, ini­ci­al­men­te, a per­da de peso.

A nutri­ção moder­na de hoje con­se­gue mudar as maté­ri­as-pri­mas sem alte­rar o valor nutri­ci­o­nal. A vani­li­na per­mi­te a pos­si­bi­li­da­de de uma padro­ni­za­ção gus­ta­ti­va e olfa­ti­va do ali­men­to, evi­tan­do osci­la­ções no con­su­mo.

As vacas de lei­te pas­sam por um perío­do de tran­si­ção que ocor­re de três sema­nas antes do par­to até três sema­nas pós par­to, sen­do que, na fêmea suí­na, este perío­do se esten­de até a segun­da sema­na. Após a pari­ção­es­tas fême­as não con­se­guem inge­rir a quan­ti­da­de de nutri­en­tes neces­sá­ri­os­tan­to para pro­du­zir o lei­te como para a man­te­ça. O uso de vanil­li­na esti­mu­la o con­su­mo de ali­men­to des­tes ani­mais, dimi­nuin­do o défi­cit de nutri­en­tes.

A inges­tão de die­ta sóli­da é vital para o bezer­ro para fazer a tran­si­ção de um pré-rumi­nan­te para um rumi­nan­te fun­ci­o­nal. Uma intro­du­ção pre­co­ce à ração ini­ci­al é fun­da­men­tal para alcan­çar o desen­vol­vi­men­to ide­al do rúmen e redu­zir a dura­ção e os cus­tos do des­ma­me. Em todos os casos,é impor­tan­te uti­li­zar ingre­di­en­tes de qua­li­da­de que não con­te­nham mofo, poei­ra e altos níveis de nutri­en­tes para aten­der às neces­si­da­des do bezer­ro em cres­ci­men­to.

Os estu­dos em micro­bi­o­ta de rumi­nan­tes têm tipi­ca­men­te foca­do sua aten­ção na com­pre­en­são do rúmen por ser o local mais influ­en­te da diges­tão. A fer­men­ta­ção micro­bi­a­na do ali­men­to no rúmen for­ne­ce gran­de par­te da ener­gia neces­sá­ria para a vaca.

A saú­de intes­ti­nal e seu mane­jo são áre­as com­ple­xas, coor­de­na­das por vári­os fato­res, incluin­do nutri­ção, micro­bi­o­lo­gia, imu­no­lo­gia e fisi­o­lo­gia. O intes­ti­no é um órgão fun­da­men­tal para o bom fun­ci­o­na­men­to do orga­nis­mo pois, além de seu papel no sis­te­ma diges­tó­rio e absor­ção de nutri­en­tes tam­bém auxi­lia na imu­ni­da­de e pro­te­ge con­tra pató­ge­nos. Man­ter o equi­lí­brio da micro­bi­o­ta é essen­ci­al para a saú­de. Qual­quer alte­ra­ção e dese­qui­lí­brio, como a dis­bi­o­se intes­ti­nal, pode gerar con­sequên­ci­as desa­gra­dá­veis para o orga­nis­mo e resul­tar no mai­or ris­co de pato­lo­gi­as.

Quan­do a saú­de gas­troin­tes­ti­nal é com­pro­me­ti­da, a diges­tão e a absor­ção de nutri­en­tes são afe­ta­das, há uma pio­ra na con­ver­são ali­men­tar e a sus­ce­ti­bi­li­da­de à doen­ça é aumen­ta­da, geran­do em um impac­to econô­mi­co nega­ti­vo. A inges­tão de ingre­di­en­tes dete­ri­o­ra­dos, ração con­ta­mi­na­da com pató­ge­nos ou o uso exces­si­vo de anti­bió­ti­cos pode levar a dis­bi­o­se intes­ti­nal, dese­qui­lí­brio entre as bac­té­ri­as bené­fi­cas e pato­gê­ni­cas do intes­ti­no, que cau­sa diver­sas alte­ra­ções infla­ma­tó­ri­as.

A oxi­da­ção dos óle­os e gor­du­ras ou oxi­da­ção lipí­di­ca dos ali­men­tos, além de com­pro­me­ter as carac­te­rís­ti­cas sen­so­ri­ais como o aro­ma, sabor, cor, e tex­tu­ra, pro­du­zem subs­tân­ci­as de com­pro­va­do efei­to tóxi­co. A inges­tão de pro­du­tos pri­má­ri­os da dete­ri­o­ra­ção oxi­da­ti­va de áci­dos gra­xos pro­mo­ve irri­ta­ção da muco­sa intes­ti­nal, diar­reia, dege­ne­ra­ção hepá­ti­ca e até a mor­te das célu­las. A oxi­da­ção lipí­di­ca traz pre­juí­zos nutri­ci­o­nais devi­do à per­da par­ci­al de vita­mi­nas lipos­so­lú­veis como as vita­mi­nas A,D,E, K.

Os anti­o­xi­dan­tes desem­pe­nham um papel impor­tan­te no tra­ta­men­to e con­ser­va­ção da ração. Seu uso cor­re­to depen­de, fun­da­men­tal­men­te, tan­to do conhe­ci­men­to dos meca­nis­mos de auto-oxi­da­ção quan­to dos fato­res que os con­di­ci­o­nam, como a natu­re­za dos pro­ces­sos dos dife­ren­tes pro­ce­di­men­tos de anti­o­xi­da­ção. Por­tan­to, a melhor manei­ra de limi­tar a dete­ri­o­ra­ção oxi­da­ti­va é evi­tar as con­di­ções que a pro­mo­vem e apro­vei­tar a com­bi­na­ção de dife­ren­tes tipos de anti­o­xi­dan­tes que podem ser usa­dos em cada caso e a qual­quer momen­to. “Anti­o­xi­dan­te é a subs­tân­cia que, quan­do pre­sen­te em ali­men­tos em uma con­cen­tra­ção menor que a do limi­ar oxi­dá­vel, é sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te capaz de inter­rom­per ou evi­tar a oxi­da­ção”. (Hal­liwell e Gut­te­rid­ge, 1999).

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*Mar­co­ne Sil­va é geren­te da CFS de Nutri­ção Ani­mal para Amé­ri­ca do Sul

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