Tuberculose Bovina e seu Impacto na Pecuária Mundial - Balde Branco

Embo­ra não exis­tam dados no Bra­sil sobre o impac­to dire­to da tuber­cu­lo­se na pro­du­ção de lei­te, um estu­do rea­li­za­do em 1988 na Argen­ti­na demos­trou que as per­das podem che­gar a 18% na pro­du­ção dos ani­mais infec­ta­dos, afe­tan­do tam­bém a dura­ção da lac­ta­ção des­tes indivíduos

Tuberculose Bovina e seu Impacto na Pecuária Mundial 

A tuber­cu­lo­se bovi­na é uma zoo­no­se infec­to­con­ta­gi­o­sa de evo­lu­ção len­ta e impor­tân­cia mun­di­al, que ocor­re prin­ci­pal­men­te nos paí­ses em desen­vol­vi­men­to. Cau­sa­da pela bac­té­ria Myco­bac­te­rium bovis, a doen­ça é carac­te­ri­za­da pela for­ma­ção de lesões nodu­la­res deno­mi­na­das tubér­cu­los, que podem ocor­rer em qual­quer órgão ou teci­do, aco­me­ten­do prin­ci­pal­men­te bovi­nos e buba­li­nos, mas tam­bém pode infec­tar humanos.

Sua prin­ci­pal for­ma de dis­se­mi­na­ção é aeró­ge­na, e a via de infec­ção mais rele­van­te é a res­pi­ra­tó­ria. Uma vez ina­la­da, a bac­té­ria alcan­ça os pul­mões onde é ata­ca­da por macró­fa­gos alve­o­la­res que são célu­las de defe­sas pre­sen­tes no local e ten­ta­rão boque­ar a infec­ção. Caso os macró­fa­gos alve­o­la­res não sejam capa­zes de deter a infec­ção, ini­cia-se uma rea­ção de hiper­sen­si­bi­li­da­de tar­dia que pode, em con­sequên­cia, deter­mi­nar necro­se teci­du­al de casei­fi­ca­ção com encap­su­la­men­to carac­te­rís­ti­co. For­mam-se os nódu­los carac­te­rís­ti­cos (tubér­cu­los) da tuber­cu­lo­se. Além da dis­se­mi­na­ção por via res­pi­ra­tó­ria, o baci­lo pode ser eli­mi­na­do pelas fezes, uri­na, lei­te, secre­ção nasal, secre­ção vagi­nal e pelo sêmen.

A mani­fes­ta­ção da doen­ça é influ­en­ci­a­da pela res­pos­ta imu­ne do ani­mal, que pode per­ma­ne­cer assin­to­má­ti­co por um lon­go perío­do, sen­do este o prin­ci­pal foco de trans­mis­são em reba­nhos. Quan­do os ani­mais apre­sen­tam que­da na imu­ni­da­de é pos­sí­vel obser­var sin­to­mas carac­te­rís­ti­cos prin­ci­pal­men­te no está­gio avan­ça­do da doen­ça, como acen­tu­a­da per­da de peso, difi­cul­da­de res­pi­ra­tó­ria e tos­se seca.

Embo­ra não exis­tam dados no Bra­sil sobre o impac­to dire­to da tuber­cu­lo­se na pro­du­ção de lei­te, um estu­do rea­li­za­do em 1988 na Argen­ti­na demos­trou que as per­das podem che­gar a 18% na pro­du­ção dos ani­mais infec­ta­dos, afe­tan­do tam­bém a dura­ção da lac­ta­ção des­tes indi­ví­du­os. A que­da na pro­du­ção diá­ria e a pre­sen­ça de lesões no úbe­re da vaca podem ser indi­ca­ti­vos da doença.

“A tuber­cu­lo­se, por mui­tas vezes, pas­sa des­per­ce­bi­da e é des­co­ber­ta com acha­dos espe­cí­fi­cos no aba­te­dou­ro, oca­si­o­nan­do a con­de­na­ção total ou par­ci­al das car­ca­ças e com­pro­me­ten­do a comer­ci­a­li­za­ção de pro­du­tos de ori­gem ani­mal da pro­pri­e­da­de de ori­gem dos ani­mais” expli­ca Mar­cos Malac­co, geren­te téc­ni­co da uni­da­de de pecuá­ria da Ceva Saú­de Ani­mal. Esti­ma-se que as per­das refe­ren­tes á tuber­cu­lo­se bovi­na no mun­do sejam cer­ca de U$3 bilhões anu­ais, incluin­do o des­car­te pre­co­ce de ani­mais e a eli­mi­na­ção de ani­mais com alto valor zootécnico.

A doen­ça é de noti­fi­ca­ção obri­ga­tó­ria e   não pos­sui vaci­na ou tra­ta­men­to, sen­do a pre­ven­ção a cha­ve para o seu con­tro­le. No Bra­sil, o bali­za­dor é o Pro­gra­ma Naci­o­nal de Con­tro­le e Erra­di­ca­ção de Bru­ce­lo­se e Tuber­cu­lo­se (PNCEBT), que reco­men­da a rea­li­za­ção do tes­te de tuber­cu­li­na para diag­nós­ti­co da doença.

“O tes­te tuber­cu­lí­ni­co con­sis­te na ava­li­a­ção de uma rea­ção de hiper­sen­si­bi­li­da­de tar­dia, que ocor­re ape­nas nos ani­mais que já foram expos­tos à Myco­bac­te­rium bovis. Ani­mais que apre­sen­tam um pri­mei­ro resul­ta­do posi­ti­vo ou incon­clu­si­vo são sub­me­ti­dos a novo tes­te em um inter­va­le entre 60 e 90 dias. Ani­mais com um segun­do tes­te posi­ti­vo ou incon­clu­si­vo são iso­la­dos do reba­nho, afas­ta­dos da pro­du­ção lei­tei­ra e des­ti­na­dos ao aba­te sani­tá­rio em local deter­mi­na­do pelo ser­vi­ço de defe­sa sani­tá­ria ani­mal regi­o­nal, ou a euta­ná­sia no local de cri­a­ção, rea­li­za­da pelo Médi­co Vete­ri­ná­rio Ofi­ci­al do Ser­vi­ço de Defe­sa Sani­tá­ria Ani­mal da região”, con­ta João Otá­vio Rodri­gues, geren­te de linha lei­te da uni­da­de de pecuá­ria da Ceva Saú­de Animal.

Na esfe­ra aca­dê­mi­ca, a uti­li­za­ção de méto­dos mole­cu­la­res de diag­nós­ti­co vem sen­do estu­da­dos como méto­do auxi­li­ar ao exa­me de tuber­cu­li­na, o que pode per­mi­tir uma impor­tan­te redu­ção no tem­po neces­sá­rio para a con­fir­ma­ção do diag­nós­ti­co à cam­po, mas ain­da não fazem par­te do pro­gra­ma nacional.

“O PNCEBT atra­vés das secre­ta­ri­as esta­du­ais de defe­sa agro­pe­cuá­ria tam­bém incen­ti­va a cer­ti­fi­ca­ção dos reba­nhos livres da doen­ça, o que esti­mu­la a tes­ta­gem nas pro­pri­e­da­des e traz uma mai­or segu­ran­ça para o pecu­a­ris­ta no momen­to em que ele pre­ci­sa inse­rir novos ani­mais no seu plan­tel ou até mes­mo comer­ci­a­li­zar novi­lhas. É um valor agre­ga­do da pro­pri­e­da­de”, comen­ta. “Alguns esta­dos bra­si­lei­ros, como São Pau­lo, por exem­plo, vêm se mobi­li­zan­do para que todas as pro­pri­e­da­des de gado de lei­te que comer­ci­a­li­zem seus pro­du­tos para o con­su­mo huma­no sejam moni­to­ra­das e cer­ti­fi­ca­das como livres da doença”.

O Pro­gra­ma Naci­o­nal de Con­tro­le e Erra­di­ca­ção de Bru­ce­lo­se e Tuber­cu­lo­se está em vigor des­de janei­ro de 2001 e foi revi­sa­do em mar­ço de 2017. Ele visa, atra­vés do con­tro­le da Tuber­cu­lo­se e da Bru­ce­lo­se, pro­mo­ver uma pecuá­ria naci­o­nal mais com­pe­ti­ti­va e livre de ris­cos para o consumidor.

Refe­rên­ci­as:
BRA­SIL. Pro­ga­ra­ma Naci­o­nal de Con­tro­le e Erradicação da Bru­ce­lo­se e Tuber­cu­lo­se Ani­mal. Minis­té­rio da Agri­cul­tu­ra, Pecuá­ria e Desen­vol­vi­men­to, 2001.

COR­REIA, M.; COR­REIA, N.M. Tuber­cu­lo­se Bovi­na. Enfer­mi­da­des Infec­ci­o­sas dos Mamí­fe­ros Domés­ti­cos. Edi­to­ra: MED­SI, 1992, p.317–337.

KAN­TOR, I.N.; RITAC­CO, V. Bovi­ne tuber­cu­lo­sis in Latin Ame­ri­ca and Carib­be­an: cur­rent sta­tus, con­trol and era­di­ca­ti­on pro­grams. Vete­ri­nary Micro­bi­o­logy, v.40, n.1/2, p.5–14, 1994.

ROXO, E. Tuber­cu­lo­se bovi­na: revi­são. Arqui­vos do Ins­ti­tu­to Bio­ló­gi­co, São Pau­lo, v.63, n.2, p.91–97, 1996.

RUG­GI­E­RO, A.P., IKU­NO, A.A., FER­REI­RA, V.C.A, ROXO, E.. Tuber­cu­lo­se Bovi­na: Alter­na­ti­vas para o diag­nós­ti­co. Arti­go de Revi­são.  Arq. Inst. Biol. 74 (1).  Jan-Mar 2007