Terapia de vaca seca seletiva: futuro ou realidade? - Balde Branco

Estu­do con­du­zi­do por pes­qui­sa­do­res do QMPS (Qua­lity Milk Pro­duc­ti­on Ser­vi­ce da Uni­ver­si­da­de de Cor­nell) bus­cou ava­li­ar a via­bi­li­da­de do uso de tera­pia sele­ti­va, ou seja, não fazer o uso de anti­bió­ti­cos na seca­gem para ani­mais que apre­sen­tem bai­xo ris­co de esta­rem infectados

 
 
 

Terapia de vaca seca seletiva: futuro ou realidade? 

Por Valé­ria Fer­nan­des, médi­ca-vete­ri­ná­ria e espe­ci­a­lis­ta téc­ni­ca OnFarm

A tera­pia de vaca seca (uso de anti­bió­ti­co intra­ma­má­rio espe­cí­fi­co no momen­to da seca­gem do ani­mal) é uma prá­ti­ca impor­tan­te e tem como obje­ti­vos prin­ci­pais1) Cura de infec­ção exis­ten­te no momen­to da seca­gem e 2) Pre­ven­ção de novas infec­ções duran­te o perío­do seco.

Estu­do con­du­zi­do por pes­qui­sa­do­res do QMPS (Qua­lity Milk Pro­duc­ti­on Ser­vi­ce da Uni­ver­si­da­de de Cor­nell) bus­cou ava­li­ar a via­bi­li­da­de do uso de tera­pia sele­ti­va, ou seja, não fazer o uso de anti­bió­ti­cos na seca­gem para ani­mais que apre­sen­tem bai­xo ris­co de esta­rem infec­ta­dos. Essa é uma ten­dên­cia na pro­du­ção ani­mal, ou seja, bus­car o uso raci­o­nal de anti­bió­ti­cos. No estu­do, ani­mais que aten­de­ram todas as con­di­ções abai­xo foram con­si­de­ra­dos  como gru­po de bai­xo ris­co:

  • CCS abai­xo de 200 mil na últi­ma aná­li­se antes da data da seca­gem;
  • CCS média das três últi­mas aná­li­ses infe­ri­or a 200 mil;
  • Não apre­sen­tar sinais de mas­ti­te clí­ni­ca no momen­to da secagem;
  • Ter apre­sen­ta­do no máxi­mo um caso de mas­ti­te clí­ni­ca duran­te a lactação.

O estu­do ava­li­ou 953 vacas que foram secas entre Junho/16 e Janeiro/17. Des­sas, 342 foram con­si­de­ra­das vacas de alto ris­co e segui­ram com o tra­ta­men­to com anti­bió­ti­co na seca­gem.  As outras 611 vacas foram con­si­de­ra­das de bai­xo ris­co e rece­be­ram os seguin­tes tra­ta­men­tos de for­ma aleatória:

  1. 304 vacas tra­ta­das com anti­bió­ti­co mais selan­te (ATBS)
  2. 307 vacas tra­ta­das ape­nas com selan­te (S)

Tam­bém foi fei­ta aná­li­se micro­bi­o­ló­gi­ca (cul­tu­ra) na seca­gem e no pós par­to para ava­li­ar a taxa de cura e a taxa de novas infec­ções.

Per­gun­tas e res­pos­tas obser­va­das no estudo:

  • Qual a taxa de cura entre os gru­pos ATBS e S?
    1. Não hou­ve dife­ren­ça sig­ni­fi­ca­ti­va na taxa de cura entre os gru­pos (ATBS = 93% e S = 88%)
  • Qual a taxa de novas infec­ções entre os gru­pos ATBS e S?
    1. Não hou­ve dife­ren­ça sig­ni­fi­ca­ti­va na taxa de novas infec­ções (ATBS = 5,5% e S = 7,7%)
  • Qual efei­to sobre a CCS no pós-par­to e pro­du­ção de lei­te até 30 dias?
    1. Não hou­ve dife­ren­ça sig­ni­fi­ca­ti­va no esco­re line­ar de CCS (ATBS=2,5 e S=2,7)
    2. Não hou­ve dife­ren­ça sig­ni­fi­ca­ti­va de mas­ti­te clí­ni­ca no pós-par­to (ATBS=9 e TS=5)
    3. Não hou­ve dife­ren­ça sig­ni­fi­ca­ti­va na pro­du­ção de lei­te aos 30 dias (ATBS=40,5 kg e S=41,2 kg)

Com base nos resul­ta­dos obser­va­dos, os pes­qui­sa­do­res con­clu­em que foi pos­sí­vel a redu­ção de até 60% no uso de anti­bió­ti­cos com ado­ção dos cri­té­ri­os de ava­li­a­ção de ris­co para defi­ni­ção do pro­to­co­lo de tra­ta­men­to. Esses resul­ta­dos tam­bém já foram rela­ta­dos em estu­dos rela­ci­o­na­dos a tera­pia sele­ti­va na seca­gem, desen­vol­vi­dos espe­ci­al­men­te em paí­ses na Euro­pa, em que o tra­ta­men­to sele­ti­vo é obri­ga­tó­rio, ou seja, tra­ta-se com anti­bió­ti­co somen­te ani­mais que real­men­te apre­sen­tam infec­ção intra­ma­má­ria (a par­tir da aná­li­se de cul­tu­ra micro­bi­o­ló­gi­ca e outros critérios).

Mas qual o apren­di­za­do para nós aqui no Bra­sil? A tera­pia sele­ti­va é futu­ro ou rea­li­da­de? Depen­de. Somos um país de extre­mos. De um lado temos uma gran­de mai­o­ria de fazen­das que não faz uso des­sa impor­tan­te fer­ra­men­ta de con­tro­le de mas­ti­te. Se assu­mir­mos que a nos­sa média de CCS é ao redor de 550 mil, isso sig­ni­fi­ca que pra­ti­ca­men­te 45% das vacas che­gam na seca­gem infec­ta­das (mas­ti­te sub­clí­ni­ca), e por­tan­to, o uso do anti­bió­ti­cos seria uma prá­ti­ca indis­pen­sá­vel den­tro de um pro­gra­ma de con­tro­le de mas­ti­te. De outro lado, temos fazen­das com alto grau de con­tro­le e ges­tão, que já ado­tam fer­ra­men­tas como a con­ta­gem de célu­las somá­ti­cas indi­vi­du­al (CCS) e cul­tu­ra na fazen­da. Além dis­so, ofe­re­cem aos ani­mais um ambi­en­te de alto con­for­to e bai­xo desa­fio duran­te o perío­do seco.

Rea­li­da­de para alguns, futu­ro para muitos.

Fon­te:
Vas­quez, 2018. Use of a cul­tu­re-inde­pen­dent on-farm algo­rithm to gui­de the use of selec­ti­ve dry-cow anti­bi­o­tic the­rapy. Jour­nal of Dairy Sci­en­ce 101:5345–5361

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