Qualidade da água é sinônimo de qualidade do leite - Balde Branco
A ocor­rên­cia de pro­ble­mas com a lim­pe­za de equi­pa­men­tos de orde­nha e tan­ques de expan­são é um dos fato­res que con­tri­bu­em para aumen­to da bac­te­ri­a­na CBT do leite
 

Qualidade da água é sinônimo de qualidade do leite 

Por MAR­COS VEI­GA | Pro­fes­sor Titu­lar — Facul­da­de de Medi­ci­na Vete­ri­ná­ria e Zoo­tec­nia Uni­ver­si­da­de de São Pau­lo |Qua­li­lei­te — Labo­ra­tó­rio de Pes­qui­sa em Qua­li­da­de do Leite

A água tem impor­tân­cia essen­ci­al para a pro­du­ção de lei­te sob dois prin­ci­pais aspec­tos: como nutri­en­te essen­ci­al para a vaca lei­tei­ra e para uso na lim­pe­za de equi­pa­men­tos de orde­nha, uten­sí­li­os, ins­ta­la­ções, higi­e­ne pes­so­al dos orde­nha­do­res e res­fri­a­men­to das vacas. Esti­ma-se o con­su­mo de até 150 L/dia por vacas lei­tei­ras de alta pro­du­ção. Para uso na lim­pe­za de equi­pa­men­tos e da sala de orde­nha esti­ma-se o gas­to de 30 L/vaca/dia para sis­te­ma de 3 ordenhas/dia.

A ocor­rên­cia de pro­ble­mas com a lim­pe­za de equi­pa­men­tos de orde­nha e tan­ques de expan­são é um dos fato­res que con­tri­bu­em para aumen­to da bac­te­ri­a­na CBT do lei­te. A água é o prin­ci­pal com­po­nen­te empre­ga­do na lim­pe­za e desin­fec­ção e a qua­li­da­de tem impac­to dire­to na efi­ci­ên­cia da lim­pe­za. Des­ta for­ma, a qua­li­da­de da água uti­li­za­da na lim­pe­za da orde­nha­dei­ra é essen­ci­al para a pro­du­ção de lei­te de alta qualidade.

Os prin­ci­pais cri­té­ri­os de qua­li­da­de da água são:

  • pro­pri­e­da­des físi­co-quí­mi­cas (dure­za da água, pH, salinidade);
  • sen­so­ri­ais (pre­sen­ça de sabor ou odor que difi­cul­tam a inges­tão de água);
  • con­cen­tra­ção de com­pos­tos tóxi­cos ou que pre­ju­di­quem o desem­pe­nho ani­mal (nitra­tos, sul­fa­tos, metais pesa­dos) e;
  • micro­bi­o­ló­gi­cos (con­ta­gem de coli­for­mes, pre­sen­ça de pató­ge­nos cau­sa­do­res de doenças)

Algu­mas carac­te­rís­ti­cas físi­co-quí­mi­cas da água podem afe­tar a efi­ci­ên­cia da lim­pe­za como a dure­za da água, o pH, e a alca­li­ni­da­de. As águas duras apre­sen­tam altas con­cen­tra­ções de sais de car­bo­na­to de cál­cio e mag­né­sio. De acor­do com a dure­za da água as con­cen­tra­ções dos deter­gen­tes podem ser insu­fi­ci­en­tes, o que resul­ta na lim­pe­za incom­ple­ta e ine­fi­ci­en­te. Por exem­plo, os car­bo­na­tos de cál­cio e mag­né­sio sofrem pre­ci­pi­ta­ção quan­do em con­ta­to com o deter­gen­te alca­li­no. Esses pre­ci­pi­ta­dos são de difí­cil remo­ção das super­fí­ci­es do equi­pa­men­to e redu­zem a efi­ci­ên­cia da limpeza.

A for­ma­ção de fil­mes den­tro de super­fí­ci­es inter­nas do equi­pa­men­to favo­re­ce a ade­são e cres­ci­men­to de bac­té­ri­as, além de favo­re­cer a ocor­rên­cia de pro­ble­mas de manu­ten­ção em aque­ce­do­res de água. A uti­li­za­ção de água dura não afe­ta o desem­pe­nho ani­mal, mas inter­fe­re dire­ta­men­te nos pro­ces­sos de limpeza.

Para ava­li­ar a dure­za da água, é neces­sá­rio quan­ti­fi­car esta carac­te­rís­ti­ca (Tabe­la 1) pelo uso de kits comer­ci­ais. Caso seja iden­ti­fi­ca­do ele­va­da dure­za da água, pode-se fazer o ajus­te da con­cen­tra­ção ade­qua­da de deter­gen­te a ser uti­li­za­do, con­for­me a reco­men­da­ção de cada fabri­can­te de pro­du­tos de lim­pe­za. O pH da água é outra carac­te­rís­ti­ca que afe­ta a lim­pe­za, uma vez que tan­to pH bai­xo (áci­do) ou ele­va­do (alca­li­no) pode afe­tar o pH final das solu­ções de lim­pe­za a base de deter­gen­tes alca­li­no e ácido.

Tabe­la 1. Dife­ren­tes medi­das de dure­za da água.

Toda água uti­li­za­da na lim­pe­za de equi­pa­men­tos, uten­sí­li­os, úbe­re e mãos dos orde­nha­do­res, assim como demais locais que entram em con­ta­to dire­to com o lei­te, deve ser potá­vel. A Orga­ni­za­ção Mun­di­al da Saú­de (Gui­de­li­nes for drin­king-water qua­lity, WHO) e o Minis­té­rio da Saú­de (Por­ta­ria 518/04) reco­men­dam que para ser con­si­de­ra­da potá­vel (pró­pria do con­su­mo huma­no), a água deve ser isen­ta de coli­for­mes fecais (Esche­ri­chia coli) em uma amos­tra de 100 ml. A pre­sen­ça de coli­for­mes é indi­ca­dor de con­ta­mi­na­ção fecal, uma vez que estes micror­ga­nis­mos são ori­gi­ná­ri­os do tra­to gastrointestinal.

É reco­men­dá­vel evi­tar a cap­ta­ção de água em fon­tes com ris­cos de con­ta­mi­na­ção (pró­xi­mos a locais com acú­mu­lo de maté­ria orgâ­ni­ca) e a fal­ta de tra­ta­men­tos pre­li­mi­na­res como a fil­tra­ção e a clo­ra­ção. A clo­ra­ção é uma das eta­pas do tra­ta­men­to da água, sen­do a últi­ma a ser rea­li­za­da, após a fil­tra­ção. O clo­ro pode ser uti­li­za­do na for­ma líqui­da (hipo­clo­ri­to de sódio a 10% e água sani­tá­ria) e sóli­da (hipo­clo­ri­to de cál­cio, HTH em pas­ti­lhas ou gra­nu­la­do, cal clo­ra­da). Reco­men­da-se que o nível de clo­ro livre deve estar entre 0,2 e 0,4 mg/L.


Tabe­la 2.
 Reco­men­da­ções de clo­ra­ção para água (1000 litros).

Deve-se lem­bra que além da con­ta­mi­na­ção do lei­te pela água con­ta­mi­na­da, outras fon­tes podem cau­sar con­ta­mi­na­ção por coli­for­mes, entre as quais as super­fí­ci­es dos tetos e úbe­re. Des­ta for­ma, para a obten­ção de lei­te de alta qua­li­da­de, além da neces­si­da­de de usar água potá­vel, são indis­pen­sá­veis um bom mane­jo de orde­nha e lim­pe­za efi­ci­en­te dos equi­pa­men­tos de ordenha.