Programa ajuda a economizar mais de 56 milhões de litros de água na produção leiteira - Balde Branco

Esse foi o volu­me que as mais de 1,4 mil pro­pri­e­da­des lei­tei­ras que par­ti­ci­pam da ini­ci­a­ti­va, Boas Prá­ti­cas Hídri­cas, dei­xa­ram de con­su­mir em 2021, com­pa­ran­do-se ao ano de 2020

Programa ajuda a economizar mais de 56 milhões de litros de água na produção leiteira em 2021 

Por Gise­le Ros­so — Jor­na­lis­ta da Embra­pa Pecuá­ria Sudeste

O pro­gra­ma Boas Prá­ti­cas Hídri­cas, desen­vol­vi­do em par­ce­ria entre a Nes­tlé e a Embra­pa, moti­vou a eco­no­mia de 56.841 milhões de litros de água na pro­du­ção de lei­te. Esse foi o volu­me que as mais de 1,4 mil pro­pri­e­da­des lei­tei­ras que par­ti­ci­pam da ini­ci­a­ti­va dei­xa­ram de con­su­mir em 2021, com­pa­ran­do-se ao ano de 2020. A esti­ma­ti­va foi cal­cu­la­da por meio de indi­ca­do­res de efi­ci­ên­cia hídri­ca medi­dos em uma amos­tra das uni­da­des participantes.

As fazen­das ava­li­a­das estão loca­li­za­das no Para­ná, Goiás, São Pau­lo e Minas Gerais. O moni­to­ra­men­to foi rea­li­za­do men­sal­men­te por meio de hidrô­me­tros ins­ta­la­dos em vári­os pon­tos de con­su­mo. Com aju­da dos téc­ni­cos, os dados cole­ta­dos nos hidrô­me­tros foram lan­ça­dos em pla­ni­lhas ou dire­ta­men­te no apli­ca­ti­vo Lei­te­ria, desen­vol­vi­do pela Nes­tlé para auxi­li­ar na ges­tão das pro­pri­e­da­des leiteiras.

O moni­to­ra­men­to tam­bém demons­trou que hou­ve redu­ção na quan­ti­da­de de água uti­li­za­da na pro­du­ção por litro de lei­te, um indi­ca­dor de efi­ci­ên­cia mui­to impor­tan­te. Em 2021, nas fazen­das moni­to­ra­das na amos­tra, foram orde­nha­das 2.742.384 vacas, sen­do pro­du­zi­dos pou­co mais de 53 milhões de litros de lei­te. Em rela­ção a 2020, hou­ve um aumen­to de 5% no núme­ro de ani­mais e, ain­da assim, dimi­nui­ção de dois litros de água por vaca em lac­ta­ção, e de um litro de água por litro de leite. 

“Essas ini­ci­a­ti­vas de apoio à redu­ção de uso de água na pro­du­ção lei­tei­ra são essen­ci­ais para evo­luir­mos em nos­sa jor­na­da de sus­ten­ta­bi­li­da­de no cam­po,” decla­ra Bar­ba­ra Sol­le­ro, geren­te de Milk Sour­cing da Nes­tlé Bra­sil. “O Pro­gra­ma traz uma visão inte­gral em temas como ges­tão de água e resí­du­os, qua­li­da­de, bem-estar ani­mal e cui­da­do com o meio ambi­en­te, olhan­do para todos os dife­ren­tes aspec­tos que con­tri­bu­em para a jor­na­da do desen­vol­vi­men­to rural”, informa.

“Quan­do fala­mos em efi­ci­ên­cia hídri­ca na pro­du­ção lei­tei­ra, alme­ja­mos pro­du­zir o mes­mo litro de lei­te com menos litros de água. Con­se­gui­mos fazer isso de for­ma sig­ni­fi­ca­ti­va no perío­do ava­li­a­do, pas­san­do de 5,5 litros de água por litro de lei­te em 2020 para 4,5 litros em 2021, redu­ção de 18%”, expli­ca o pes­qui­sa­dor da Embra­pa Julio Palha­res.

Evolução das Boas Práticas Hídricas

Des­de 2018, a Nes­tlé man­tém o pro­gra­ma Boas Prá­ti­cas Hídri­cas, com apoio às fazen­das lei­tei­ras e ins­ta­la­ção de hidrô­me­tros para aju­dar a men­su­rar o uso de água na pro­du­ção. Em 2019, 20 fazen­das eram moni­to­ra­das com o equi­pa­men­to; esse núme­ro pas­sou para 60 em 2020 e para mais de 1.400 em 2021. Para o pes­qui­sa­dor, quan­ti­fi­car o uso de água é a pri­mei­ra eta­pa para enten­der onde e como esse recur­so é uti­li­za­do na pro­pri­e­da­de. “Não tem como mane­jar o que não conhe­ce­mos. Para rea­li­zar o mane­jo hídri­co da pro­pri­e­da­de, saber o quan­to con­su­mi­mos de água é fun­da­men­tal”, des­ta­ca Palhares.

O resul­ta­do da ava­li­a­ção do pro­gra­ma demons­trou que ape­nas o moni­to­ra­men­to do con­su­mo já foi sufi­ci­en­te para pro­por­ci­o­nar ganhos de efi­ci­ên­cia hídri­ca nes­sas pro­pri­e­da­des. No entan­to, a ideia do pro­gra­ma é ir além e fazer com que os pro­du­to­res inter­na­li­zem as boas prá­ti­cas hídri­cas no dia a dia. Por isso, em 2022, 20 fazen­das foram sele­ci­o­na­das para a implan­ta­ção das ações e moni­to­ra­men­to dos impac­tos nes­se pri­mei­ro momen­to.  Para cada uma des­sas fazen­das, a Embra­pa desen­vol­veu um pla­no de mane­jo ambi­en­tal – ações para redu­ção do con­su­mo de água e mane­jo de resí­du­os — adap­ta­do de acor­do com a rea­li­da­de de cada uma, por pri­o­ri­da­des, e com deter­mi­na­ção de tem­po para cum­pri­men­to das metas.

As fazen­das vão ser­vir de vitri­ne de mane­jo da água e resí­du­os com ganhos ambi­en­tais, econô­mi­cos e sociais.

Fazendas são exemplos em práticas de redução

Em uma pro­pri­e­da­de, em Sil­vâ­nia (GO), entre 2020 e 2021, ocor­reu uma redu­ção de 10% no con­su­mo de água, mes­mo com aumen­to sig­ni­fi­ca­ti­vo da pro­du­ção de lei­te (cres­ci­men­to de 19%) e da média diá­ria de vacas em lac­ta­ção (aumen­to de 15%). Segun­do Palha­res, há uma rela­ção dire­ta entre o núme­ro de vacas em lac­ta­ção, a pro­du­ção de lei­te e o con­su­mo de água. Con­for­me esses índi­ces vari­am, o con­su­mo de água tam­bém deve alterar.

Nes­sa pro­pri­e­da­de veri­fi­cou-se o que seria a con­di­ção ide­al: aumen­to da quan­ti­da­de de lei­te e redu­ção do con­su­mo do recur­so natu­ral.  Hou­ve uma redu­ção de 21% no con­su­mo de água por vacas em lac­ta­ção: de 326 litros de água por ani­mal ao dia em 2020 para 255 litros em 2021. Tam­bém hou­ve que­da no con­su­mo do uso de água por litro de lei­te: de 14 litros de água por litro de lei­te ao dia em 2020 para 12 litros em 2021.

Para o pes­qui­sa­dor, esse caso demons­tra que é pos­sí­vel mane­jar a água de for­ma mais efi­ci­en­te sem com­pro­me­ter os índi­ces pro­du­ti­vos da ati­vi­da­de. Isso repre­sen­ta van­ta­gens econô­mi­cas e ambi­en­tais para o produtor.

Em outra pro­pri­e­da­de, em Ara­xá (MG), onde o pro­du­tor rea­li­za três orde­nhas ao dia e eram neces­sá­ri­as três lava­gens do piso da sala de espe­ra e da orde­nha, o pla­no propôs a redu­ção para ape­nas duas lava­gens. Após a orde­nha da noi­te, a reco­men­da­ção foi fazer somen­te a ras­pa­gem do piso, o que já foi imple­men­ta­do. A prá­ti­ca de ape­nas ras­par pode ser rea­li­za­da sem afe­tar a bios­se­gu­ri­da­de do reba­nho e a segu­ran­ça físi­ca dos ani­mais. A redu­ção do núme­ro de lava­gens, além de pro­por­ci­o­nar a eco­no­mia de água, tam­bém pro­mo­ve eco­no­mia de ener­gia e oti­mi­za a mão de obra.

Outras ações pre­vis­tas para a fazen­da de Ara­xá são a ins­ta­la­ção de hidrô­me­tros indi­vi­du­a­li­za­dos para medir con­su­mos dos bebe­dou­ros e da lava­gem dos pisos e as alte­ra­ções na roti­na de apli­ca­ção dos deje­tos na lavou­ra de milho como fer­ti­li­zan­te, para dar mai­or segu­ran­ça ambi­en­tal à propriedade.

Até a ali­men­ta­ção dos ani­mais tem influên­cia no con­su­mo de água. Assim, o pla­no pre­vê que o pro­du­tor ajus­te as die­tas de acor­do com as carac­te­rís­ti­cas pro­du­ti­vas dos bovi­nos. Die­tas mal for­mu­la­das, por exem­plo, com exces­so de pro­teí­na ou de mine­rais, podem sig­ni­fi­car mai­or con­su­mo de água. Os bebe­dou­ros tam­bém devem ser sem­pre che­ca­dos para iden­ti­fi­car e cor­ri­gir os vaza­men­tos como os oca­si­o­na­dos por que­bra de boi­as. Na hora da lim­pe­za, quan­do pos­sí­vel, reu­ti­li­zar a água para outros usos, como a lava­gem dos pisos.

A pro­pri­e­da­de de Ara­xá não pos­sui sis­te­ma de cap­ta­ção e arma­ze­na­men­to da água da chu­va. O uso da cis­ter­na sig­ni­fi­ca menor con­su­mo da água do poço e, con­se­quen­te­men­te, menor con­su­mo de ener­gia elé­tri­ca para movi­men­tar a água. A cis­ter­na, de acor­do com Palha­res, não sig­ni­fi­ca eco­no­mia de água, mas subs­ti­tui­ção da fon­te sub­ter­râ­nea pela da chu­va, o que é ambi­en­tal­men­te reco­men­dá­vel. O pla­no ain­da con­ta com ações para redu­zir o con­su­mo na resi­dên­cia do produtor. 

O resul­ta­do do impac­to des­sas ações será ava­li­a­do em 2023. De acor­do com o pes­qui­sa­dor, espe­ra-se redu­zir o con­su­mo total de água das pro­pri­e­da­des, dar mai­or efi­ci­ên­cia hídri­ca e oti­mi­zar os aspec­tos agronô­mi­cos, ambi­en­tais e econô­mi­cos do uso de resí­du­os como fertilizante.