Produção e consumo de lácteos em queda

Em 2016, a produção de leite deverá recuar 3%, o que significará preços mais altos. No entanto, a mesma tendência provavelmente afetará o consumo, principalmente de queijo e iogurte

No Brasil, a correlação entre aumento da renda e crescimento do consumo de lácteos tem sido alta, principalmente para os produtos de maior valor agregado.

A retração no consumo de leite e derivados é reflexo da recessão instalada no País, que gera desemprego, inflação e reduz a renda do brasileiro, levando a uma menor produção devido ao aumento dos custos da atividade.

Este cenário preocupante altera o perfil do consumidor, que busca alternativas que causem menor impacto no orçamento. A estimativa de consumo de lácteos em equivalentes litros de leite foi de 170 litros/habitante/ano, como se observa na figura 1, considerando que em 2015 ocorreu a importação de 137,6 mil t e a exportação de 76,8 mil t em produtos lácteos, principalmente, leite em pó e queijo.

A expectativa do Rabobank é de que o consumo se recupere gradualmente a partir de 2017, mas a disponibilidade de 174 litros, alcançada em 2013, deverá demorar a retornar. Sobre o segmento de lácteos do Mercosul, o banco holandês admite que será difícil recuperar esses níveis rapidamente, já que uma retomada depende da situação do emprego e da renda real dos consumidores e/ou de um grande e bem-sucedido esforço de exportação, o que não tem exemplo em passado recente do setor.

Em curto prazo, porém, os consumidores seguem comprando menos e de forma mais seletiva. As empresas relatam que consumidores têm reduzido o número de itens que compram de um produto específico e têm procurado as promoções.

As vendas de iogurte caíram no ano passado pela primeira vez desde que começaram a ser acompanhadas em 2005, pela Nielsen, tendo havido retração, em 2015, de 2,6% em relação ao ano anterior. O iogurte foi um símbolo do Plano Real e da ascensão da classe média brasileira, a classe C, refletindo a situação difícil da nossa economia.

O iogurte apresentou crescimento médio de 6% ao ano no período de 2005 até 2010, e nos anos mais recentes, de 2011 a 2014, de 4% ao ano. Este comportamento mostra como a economia vem impactando as compras do brasileiro, que procura levar para casa principalmente os produtos de primeira necessidade.

Produção e consumo de lácteos em queda

Queda no consumo per capita de leite
Já os queijos e iogurtes têm perdido espaço nos lares e, neste ano de 2016, a demanda por este tipo de produto deverá recuar 4%, segundo o mesmo estudo do Rabobank. O consumo aparente de leite no Brasil, representado pela disponibilidade per capita, deverá cair para 168 litros por habitante, o mesmo nível de 2011. A produção de leite no País, em 2014, foi de 35,1 bilhões de litros de leite, e a estimativa é de redução da quantidade produzida em 2015. Este fato decorre das informações divulgadas pela pesquisa trimestral do leite do IBGE, em que foi estimada uma redução de 697 milhões de litros na quantidade de leite adquirida por indústrias com inspeção.

A redução da captação de leite também é confirmada pelo ranking das quinze maiores empresas de laticínios que atuam no Brasil, cujo volume captado, por sete delas, reduziu 610 milhões de litros em 2015. Além de deixar de comprar o leite de alguns produtores, em seis empresas ocorreu diminuição da média por produtor do volume entregue diariamente.

A relação entre a produção total de leite e a quantidade adquirida pelas indústrias, nos últimos anos, pode ser vista na figura 2, na qual se observa que não existe uma proporcionalidade das taxas de crescimento da quantidade produzida e o que é processado pelos laticínios.

Em 2012 a produção nacional teve um pequeno crescimento, de 0,6%, ou 208 milhões de litros, e o leite captado cresceu 4,9%, ou 1,072 bilhão de litros. Em 2013 o volume adquirido cresceu 3,0%, 685 milhões de litros, enquanto o nacional aumentou 6,0%, e somou 1,950 bilhão de litros. Em 2014 a produção total cresceu 2,7%, 919 milhões de litros, e o leite processado 5,1%, 1,194 bilhão. Para o ano que passou ainda não temos a estimava da produção total, mas o leite que chegou até as indústrias reduziu 2,8%, que equivalem a 697 milhões, em relação ao ano anterior.

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Produção deve recuar neste ano
A quantidade de leite captada pela indústria foi de 24,05 bilhões de litros, e a maior redução ocorreu no centro-oeste, onde o volume foi 323 milhões menor do que em 2014. Em 2016, a produção deverá recuar mais 3%, segundo o Rabobank, o que significa preços mais altos.

Observa-se que os produtores brasileiros continuam com margens apertadas em decorrência da elevação dos custos de produção. Além disso, houve redução dos investimentos na produção nos últimos anos e um “número expressivo” de pequenos pecuaristas diminuiu o rebanho ou saiu da atividade.

O aumento do custo de produção de leite e o menor preço recebido pelo produtor também colabora para a redução da produção de leite. Em abril de 2015 eram necessários 28 litros de leite para se comprar um saco de 60 kg de ração para vacas leiteiras, e em abril de 2016, eram necessários 40 litros de leite para comprar a mesma ração, segundo os indicadores econômicos divulgados pela Intelactus/Embrapa.

Além dos problemas na economia brasileira, outro fator que tem prejudicado o segmento de produção é o clima. Em algumas regiões ocorreu estiagem prolongada, e em outras, excesso de chuvas, prejudicando as pastagens e aumentando o custo de produção. No mês de maio, na maior parte do País, começou o período de seca, prejudicando ainda mais a situação dos produtores de leite.

Este deve ser um ano difícil para o produtor, com custo de produção maior, com fenômenos climáticos marcantes e um mercado consumidor retraído. Se confirmada a estimativa de menor produção de leite em 2015, será a primeira vez que o setor leiteiro apresentará esse fato, mesmo o País tendo passado por situações adversas na economia em períodos anteriores.

Após vários anos de números positivos, esse momento de retração pode ser transformado em mudança para que o setor se torne eficiente e competitivo com investimentos de longo prazo.

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