A tec­no­lo­gia ain­da pou­co uti­li­za­da no Bra­sil, pode con­tri­buir de for­ma sig­ni­fi­ca­ti­va para ele­var os índi­ces zoo­téc­ni­cos, tan­to de for­ma dire­ta como indireta

Produção de feno ajuda o produtor na seca

Por Dio­go Rodri­gues da Sil­va — Zoo­tec­nis­ta na Semen­tes Oes­te Pau­lis­ta — Soesp 

 

Em 2020 temos obser­va­do uma valo­ri­za­ção da moe­da ame­ri­ca­na e da arro­ba do boi, o mer­ca­do e o cená­rio da expor­ta­ção estão ani­ma­do­res. Mas tem mui­to pro­du­tor pre­o­cu­pa­do em como aten­der esta deman­da, pri­mei­ro pelo alto valor dos insu­mos, para ali­men­ta­ção do gado e segun­do pela for­te esti­a­gem prin­ci­pal­men­te no Cen­tro-Oes­te e Sudes­te do País, refle­xos do efei­to do fenô­me­no La Niña.

Uma saí­da inte­res­san­te nas regiões atin­gi­das pela seca é a pro­du­ção de feno para com­ple­men­tar a die­ta do reba­nho. A tec­no­lo­gia ain­da pou­co uti­li­za­da no Bra­sil, pode con­tri­buir de for­ma sig­ni­fi­ca­ti­va para ele­var os índi­ces zoo­téc­ni­cos, tan­to de for­ma dire­ta como indireta.

Mas, afi­nal o que é a fena­ção? Este pro­ces­so con­sis­te em pro­pi­ci­ar a rápi­da desi­dra­ta­ção da plan­ta for­ra­gei­ra para man­ter o pro­du­to com bom valor nutri­ti­vo e bai­xo nível de per­da, com pos­si­bi­li­da­de de arma­ze­na­men­to por lon­go perío­do. Mas, para man­ter esse feno por tem­po pro­lon­ga­do pre­ser­van­do as carac­te­rís­ti­cas nutri­ci­o­nais é pre­ci­so alguns cui­da­dos espe­ci­ais. Um deles é que a for­ra­gei­ra este­ja devi­da­men­te desi­dra­ta­da. Além dis­so, é pre­ci­so pen­sar no local de arma­ze­na­men­to. É neces­sá­ria bai­xa inci­dên­cia de luz e que não tenha umi­da­de, sen­do bem ventilado.

O feno supre a deman­da de nutri­en­tes, o que pro­pi­cia uma die­ta para a manu­ten­ção ou para o ganho de peso dos ani­mais na entres­sa­fra. Assim, man­tém a pro­du­ção de diver­sas cate­go­ri­as com meno­res osci­la­ções na pro­du­ti­vi­da­de ani­mal duran­te o ano.

Olhan­do pelo aspec­to econô­mi­co, a pro­du­ção de feno pos­si­bi­li­ta que o pro­du­tor atin­ja o pon­to de aba­te de seus ani­mais em épo­cas de melhor pre­ço, por meio do con­fi­na­men­to, melho­ran­do assim o ren­di­men­to da fazen­da. Tam­bém a téc­ni­ca aju­da a eco­no­mi­zar na uti­li­za­ção de con­cen­tra­dos, insu­mo ampla­men­te uti­li­za­do na pecuá­ria lei­tei­ra. Isso por­que o feno com bom valor nutri­ti­vo aten­de à deman­da nutri­ci­o­nal do reba­nho, total ou par­ci­al­men­te. Sen­do assim, ocor­re redu­ção ou mes­mo eli­mi­na­ção de suple­men­ta­ção pro­tei­ca aos ani­mais, prin­ci­pal­men­te se for feno de legu­mi­no­sas, o que refle­te posi­ti­va­men­te nos cus­tos de produção.

Outro pon­to posi­ti­vo é a fácil comer­ci­a­li­za­ção e o bom valor comer­ci­al: a deman­da de mer­ca­do em deter­mi­na­das regiões é gran­de e toda a pro­du­ção tem comer­ci­a­li­za­ção garan­ti­da. Sen­do assim, essa ati­vi­da­de pode ser uma alter­na­ti­va a mais para a empre­sa pecuá­ria. Tam­bém é impor­tan­te res­sal­tar que quan­do o cor­te da for­ra­gei­ra é rea­li­za­do no momen­to cer­to (épo­ca de chu­vas), ocor­re­rá a rebro­ta das plan­tas e isso pos­si­bi­li­ta mai­or pro­du­ção de for­ra­gem por uni­da­de de área.

A pro­du­ção de feno tem ain­da o dife­ren­ci­al de poder ser rea­li­za­da em peque­na ou gran­de esca­la sem a neces­si­da­de de equi­pa­men­tos caros, uti­li­zan­do somen­te as fer­ra­men­tas e a mão de obra dis­po­ní­vel da pro­pri­e­da­de. Assim está aces­sí­vel a todas as cate­go­ri­as de pro­du­to­res, des­de gran­des empre­en­di­men­tos até a pro­du­ção fami­li­ar. Já a pro­du­ção de feno em lar­ga esca­la é um pou­co mais com­ple­xa e envol­ve o uso de equi­pa­men­tos ade­qua­dos como sega­do­ra, anci­nho, enfar­da­do­ra e tra­tor con­ven­ci­o­nal de peque­na ou média potência.

Plan­tas para uma boa fenação

É pos­sí­vel pro­du­zir feno das mais diver­sas espé­ci­es de plan­tas for­ra­gei­ras, sen­do neces­sá­rio ape­nas o empre­go de tec­no­lo­gia e equi­pa­men­tos coe­ren­tes com o pro­ces­sa­men­to da plan­ta. No entan­to, são indi­ca­das as espé­ci­es que atin­gem rapi­da­men­te o pon­to de feno, man­ten­do o máxi­mo pos­sí­vel do valor nutri­ci­o­nal da for­ra­gei­ra ori­gi­nal e com meno­res ris­cos de per­das. Den­tre as carac­te­rís­ti­cas de uma boa for­ra­gei­ra para fena­ção podem-se citar:

  1. a) valor nutri­ti­vo coe­ren­te com a deman­da do rebanho;
  2. b) ele­va­da pro­du­ção de for­ra­gem por uni­da­de de área;
  3. c) alta rela­ção folha:caule e cau­les finos;
  4. d) boa capa­ci­da­de de rebro­ta após a colheita;
  5. e) hábi­to de cres­ci­men­to que faci­li­te a colhei­ta, ou seja, que pro­pi­cie bom desem­pe­nho do implemento/ferramenta de corte.

Exis­tem vári­as espé­ci­es for­ra­gei­ras com carac­te­rís­ti­cas ade­qua­das para ser con­ser­va­das na for­ma de feno, poden­do-se uti­li­zar o exce­den­te de pro­du­ção das pas­ta­gens, bem como aque­las espé­ci­es cul­ti­va­das exclu­si­va­men­te para essa fina­li­da­de. Entre as mais adap­ta­das, citam-se as gra­mí­ne­as do gêne­ro Cyno­don (Coast­cross, Tif­ton, Flo­ra­kirk, entre outras) e gêne­ro Pani­cum (Mas­sai, Tama­ni, Aru­a­na). Essas gra­mí­ne­as, além do ele­va­do poten­ci­al de pro­du­ção de for­ra­gem com bom valor nutri­ti­vo, têm cau­les finos, alta pro­por­ção de folhas e apre­sen­tam tole­rân­cia a cor­tes frequentes.

Dicas vali­o­sas

A con­fec­ção de feno de legu­mi­no­sas, ape­sar de sen­si­vel­men­te supe­ri­o­res aos de gra­mí­ne­as em pro­teí­na bru­ta (PB) e cál­cio, é mais difí­cil que a de gra­mí­ne­as, devi­do a dife­ren­ça de velo­ci­da­de na desi­dra­ta­ção entre cau­les e as folhas, ou seja, quan­do os talos esti­ve­rem secos, as folhas, que são a par­te mais nutri­ti­va, já esta­rão que­bra­di­ças, cau­san­do gran­de quan­ti­da­de de per­das se não dada a devi­da aten­ção duran­te o pro­ces­so de desi­dra­ta­ção. Outra difi­cul­da­de é que as legu­mi­no­sas não supor­tam mui­tos cor­tes ao ano, o rebro­te é mais len­to e geral­men­te são de difí­cil mecanização.

A gra­mí­nea deve­rá ser adap­ta­da à sua região, deve pos­si­bi­li­tar cor­tes mecâ­ni­cos, alto teor de maté­ria seca, pos­suir boa pro­du­ção de maté­ria seca por área, supor­tar cor­tes fre­quen­tes duran­te o ano e ter boa palatabilidade.

Entre todas as opções dis­po­ní­veis pro­pa­ga­das por semen­tes, para a uti­li­za­ção na fena­ção, a Soesp dá algu­mas dicas impor­tan­tes aos pro­du­to­res. Para áre­as de solo fér­til, por exem­plo o mais reco­men­da­do é a vari­e­da­de BRS Tama­ni que é uma exce­len­te alter­na­ti­va para feno com alta pro­du­ção e qua­li­da­de. Outras opções são o Aru­a­na ou Mas­sai que por serem for­ra­gei­ras de médio por­te, tra­zem um pou­co mais de faci­li­da­de no mane­jo sem per­der em qua­li­da­de. Solos mais fra­cos podem ser posi­ci­o­na­das as bra­quiá­ri­as Decum­bens, Maran­du ou BRS Piatã.

Como e quan­do fazer?

A mai­or difi­cul­da­de em se pro­du­zir feno é que o melhor está­gio vege­ta­ti­vo para o cor­te da for­ra­gei­ra coin­ci­de com as chu­vas: outu­bro a março.

O cli­ma é o prin­ci­pal fator limi­tan­te na pro­du­ção de feno e exer­ce papel fun­da­men­tal no pro­ces­so. A tem­pe­ra­tu­ra, a umi­da­de rela­ti­va (UR) do ar, a velo­ci­da­de do ven­to e a radi­a­ção solar influ­en­ci­am bas­tan­te na velo­ci­da­de de desi­dra­ta­ção da for­ra­gem, inter­fe­rin­do, assim, no valor nutri­ci­o­nal do feno. É impor­tan­te sali­en­tar que, mes­mo sem a ocor­rên­cia de chu­vas, a velo­ci­da­de do ven­to, a tem­pe­ra­tu­ra e a umi­da­de rela­ti­va do ar podem tor­nar o dia ina­pro­pri­a­do à pro­du­ção de feno.

No perío­do das águas nor­mal­men­te a for­ra­gei­ra tem em tor­no de 60–80% de umi­da­de, após o cor­te da for­ra­gei­ra e fina­li­za­do o pro­ces­so de fena­ção, bus­ca-se redu­zir essa umi­da­de em pelo menos 3–4 vezes, assim será pos­sí­vel con­ser­var a qua­li­da­de da for­ra­gei­ra por lon­gos períodos.

Embo­ra neces­si­te de boas con­di­ções cli­má­ti­cas, há pos­si­bi­li­da­de de pro­du­zir feno de boa qua­li­da­de na épo­ca pro­pí­cia ao cres­ci­men­to das plan­tas for­ra­gei­ras (chu­vas), porém é neces­sá­rio man­ter-se aten­to às con­di­ções cli­má­ti­cas diá­ri­as, bem como aos refe­ren­tes aos pró­xi­mos dias. É impor­tan­te um geren­ci­a­men­to cri­te­ri­o­so das ati­vi­da­des para que o cli­ma este­ja favo­rá­vel à desi­dra­ta­ção da for­ra­gem, e que ela este­ja no pon­to de colheita.

Após o cor­te é neces­sá­rio espa­lhar bem o mate­ri­al na área e revol­ver a cada duas horas para que a desi­dra­ta­ção ocor­ra de manei­ra homo­gê­nea e rápi­da, nor­mal­men­te nes­te pro­ces­so se usa uma fer­ra­men­ta cha­ma­da de anci­nho. O ide­al é que se con­si­ga desi­dra­tar todo o mate­ri­al em um úni­co dia, para não expor o mate­ri­al ao orva­lho da noi­te, porém caso neces­sá­rio, é reco­men­da­do jun­tar o máxi­mo pos­sí­vel para dimi­nuir a super­fí­cie de con­ta­to com o orva­lho da noite.

O pon­to de cor­te da for­ra­gei­ra irá depen­der do gêne­ro e cul­ti­var esco­lhi­do e será rea­li­za­do com base no pon­to de melhor valor nutri­ti­vo da for­ra­gei­ra e mai­or rela­ção folha/talo, para isso pode ser ado­ta­da a altu­ra de cor­te pró­xi­ma à altu­ra de entra­da de cada forrageira.

O pro­ces­so de enfar­da­men­to pode ser rea­li­za­do manu­al­men­te ou meca­ni­za­do, porém lem­bre-se de garan­tir que o local de arma­ze­na­men­to este­ja sem­pre seco e are­ja­do para man­ter a boa con­ser­va­ção do feno. 

Con­clu­são

A pro­du­ção de feno é uma téc­ni­ca rela­ti­va­men­te sim­ples e bas­tan­te lucra­ti­va, porém cada eta­pa exi­ge cui­da­dos que devem ser segui­dos, prin­ci­pal­men­te o pon­to de cor­te e o pro­ces­so de secagem.

Após deci­dir pro­du­zir feno em sua pro­pri­e­da­de, seja ela gran­de ou peque­na, é neces­sá­rio que o pro­du­tor pla­ne­je bem a estra­té­gia, e se jul­gar neces­sá­rio, pode­rá come­çar com tes­tes em uma área peque­na, e quan­do sen­tir-se segu­ro com a téc­ni­ca, pode­rá expan­dir a sua pro­du­ção para áre­as mai­o­res, ali­vi­an­do a pre­o­cu­pa­ção em como aten­der a deman­da do gado por ali­men­tos na seca e cor­ren­do meno­res ris­cos de per­der bons perío­dos de negócios.

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