Pecuária de leite vive incertezas quanto ao preço de insumos - Balde Branco

A mis­tu­ra con­cen­tra­da (milho mais fare­lo de soja na rela­ção de 70% e 30%) che­gou a US$ 0,34 por kg em maio, uma ele­va­ção de 51,4% em rela­ção a média de 2018–2020

 
 

Pecuária de leite vive incertezas quanto ao preço de insumos 

Por Rubens Nei­va — Jor­na­lis­ta do Depar­ta­men­to de Comu­ni­ca­ção Orga­ni­za­ci­o­nal da Embra­pa Gado de Leite

O cus­to do ali­men­to con­cen­tra­do para reba­nhos lei­tei­ros tem apre­sen­ta­do for­te ele­va­ção inter­na­ci­o­nal. A mis­tu­ra con­cen­tra­da (milho mais fare­lo de soja na rela­ção de 70% e 30%) che­gou a US$ 0,34 por kg em maio, uma ele­va­ção de 51,4% em rela­ção a média de 2018–2020. Con­si­de­ran­do que milho e soja são com­mo­di­ti­es, cota­dos em dólar, a cota­ção atu­al da moe­da ame­ri­ca­na no Bra­sil não ali­via o pro­ble­ma. O dólar che­gou a ficar abai­xo dos R$ 5,00 em junho, abrin­do uma jane­la inte­res­san­te para com­pra, mas retor­nou ao pata­mar ante­ri­or, enca­re­cen­do nova­men­te os insu­mos. Dados do ICPLei­te (Índi­ce de Cus­to de Pro­du­ção de Lei­te da Embra­pa) apon­tam que, em junho, a com­pra e pro­du­ção de volu­mo­sos apre­sen­tou uma vari­a­ção de 7% e a ali­men­ta­ção con­cen­tra­da, 3,85%. Ali­men­tar o reba­nho está mais caro nes­ta entressafra.

Duran­te a reu­nião men­sal de con­jun­tu­ra do Cen­tro de Inte­li­gên­cia do Lei­te, da Embra­pa, pes­qui­sa­do­res e ana­lis­tas da ins­ti­tui­ção se viram dian­te da per­gun­ta: “Quan­do os pre­ços que inte­gram os cus­tos de pro­du­ção irão come­çar a cair?” A con­jun­ção de com­mo­di­ti­es agrí­co­las em alta com des­va­lo­ri­za­ção do Real não tor­nam fácil esta res­pos­ta. O ICPLei­te con­ta­bi­li­zou uma alta de 39% nos últi­mos 12 meses fina­li­za­dos em junho. O con­cen­tra­do subiu 68%. “Para agra­var a situ­a­ção, a fal­ta de chu­va  no Cen­tro-Sul do país com­pro­me­teu a pro­du­ção do milho safri­nha”, diz o pes­qui­sa­dor da Embra­pa, Glau­co Car­va­lho. Ele demons­tra pre­o­cu­pa­ção com a alta sig­ni­fi­ca­ti­va e diz não ver pers­pec­ti­vas de os cus­tos de pro­du­ção come­ça­rem a cair. “Além do atra­so no plan­tio da safra de grãos e das pou­cas chu­vas, mais recen­te­men­te, gea­das em impor­tan­tes regiões pro­du­to­ras de milho safri­nha afe­ta­ram a oferta”.

A alta nos cus­tos, além de pres­si­o­nar as mar­gens de lucro do pro­du­tor, pre­ju­di­can­do a pro­du­ção de lei­te, enca­re­ce os pre­ços dos pro­du­tos lác­te­os, que natu­ral­men­te na entres­sa­fra apre­sen­tam cota­ções mais ele­va­das. No mer­ca­do ata­ca­dis­ta, o lei­te UHT (de cai­xi­nha) esta­va sen­do ven­di­do na pri­mei­ra quin­ze­na de junho a R$ 3,55. O quei­jo muça­re­la che­gou a ser cota­do a R$ 27,81. “Após os pre­ços regis­tra­rem alta no ata­ca­do, o mer­ca­do per­deu for­ça nos últi­mos dias, mas ain­da há uma sus­ten­ta­ção em fun­ção da entres­sa­fra, que ter­mi­na em agosto/setembro”, diz o pes­qui­sa­dor. De todo modo o cená­rio é de cau­te­la, devi­do às incer­te­zas sobre a deman­da e o aper­to nas mar­gens do pro­du­tor e indústria.

Quan­to ao pro­du­tor, o ana­lis­ta Denis Rocha diz que as mar­gens lucro con­ti­nu­am aper­ta­das, mas hou­ve uma melho­ria no últi­mo mês. Em junho, o pro­du­tor rece­beu R$ 2,20 pelo litro de lei­te, com regis­tro de altas con­se­cu­ti­vas des­de abril. “Essa ten­dên­cia de alta é expli­ca­da pela menor dis­po­ni­bi­li­da­de do pro­du­to no mer­ca­do ata­ca­dis­ta, devi­do à entres­sa­fra, o alto cus­to de pro­du­ção e a menor entra­da de lei­te via impor­ta­ções”, expli­ca Rocha. Em rela­ção a 2020, o ana­lis­ta lem­bra, no entan­to, que nes­se perío­do do ano pas­sa­do, o gover­no paga­va um valor mai­or de auxí­lio emer­gen­ci­al, devi­do à pan­de­mia, o que aca­bou ele­van­do o con­su­mo e aumen­tan­do o pre­ço dos pro­du­tos, garan­tin­do uma melhor mar­gem de lucro para o setor pro­du­ti­vo naque­le momen­to. O momen­to atu­al, segun­do Rocha, é mais com­ple­xo devi­do às altas taxas de desem­pre­go, embo­ra o mer­ca­do de tra­ba­lho siga em recu­pe­ra­ção devi­do ao arre­fe­ci­men­to da pandemia.

Car­va­lho vê com oti­mis­mo o cená­rio macro­e­conô­mi­co do pais: “Os inves­ti­men­tos no PIB do pri­mei­ro tri­mes­tre vie­ram bons e o con­su­mo das famí­li­as está em recu­pe­ra­ção”.  O pes­qui­sa­dor ain­da afir­ma que ape­sar do fra­co desem­pe­nho no mer­ca­do de tra­ba­lho, os indi­ca­do­res de ren­di­men­to ten­dem a ser melho­res nes­te segun­do semes­tre, cau­san­do um impac­to posi­ti­vo no setor. A pes­qui­sa­do­ra Kennya Siquei­ra cons­ta­ta que o comer­cio, de modo geral, apre­sen­tou uma melho­ra, com o con­su­mo domi­ci­li­ar vol­tan­do aos níveis pré-pan­de­mia. “Ain­da há um con­su­mo repri­mi­do mui­to gran­de, que o comér­cio vem absor­ven­do aos pou­cos. Ela ain­da acre­di­ta que a vol­ta do movi­men­to nos res­tau­ran­tes pode­rá con­tri­buir para a ele­va­ção do con­su­mo de lácteos.

Entre­vis­ta – Glau­co Carvalho

Após um ano e meio de pan­de­mia, o pes­qui­sa­dor Glau­co Car­va­lho con­ce­deu uma entre­vis­ta ao Anuá­rio Lei­te, da Embra­pa Gado de Lei­te, na qual fala sobre o com­por­ta­men­to do setor nes­te período:

Como o sr. ava­lia o com­por­ta­men­to do setor lác­teo nes­se tem­po de pandemia?

O setor como um todo fez um exce­len­te tra­ba­lho duran­te a pan­de­mia, sobre­tu­do em seu iní­cio, quan­do tudo era mui­to novo e des­co­nhe­ci­do. Não hou­ve rup­tu­ra na pro­du­ção e nem na dis­tri­bui­ção. E o setor foi ágil em rea­lo­car lei­te de lati­cí­ni­os com mai­or difi­cul­da­de em ven­das para outros com meno­res pro­ble­mas de logís­ti­ca e dis­tri­bui­ção. Des­sa for­ma, a cadeia pro­du­ti­va con­se­guiu man­ter a ofer­ta de lei­te e deri­va­dos em todo o país, aten­den­do às neces­si­da­des de con­su­mo dos brasileiros.

Hou­ve mais impac­to no seg­men­to de pro­du­ção de lei­te ou no de consumo?

Hou­ve um cres­ci­men­to do setor como um todo. Cres­ce­mos na pro­du­ção de lei­te e cres­ce­mos no con­su­mo. Mas como a nos­sa balan­ça comer­ci­al foi nega­ti­va, ou seja, impor­ta­mos mais do que expor­ta­mos, eu diria que o impac­to no con­su­mo foi mai­or. Mas nes­te caso foi um impac­to posi­ti­vo. Se olhar­mos a pro­du­ção de lei­te for­mal, ou seja, com ins­pe­ção, hou­ve um aumen­to de 2,1% no ano pas­sa­do. Já a dis­po­ni­bi­li­da­de, que é o volu­me absor­vi­do inter­na­men­te no con­su­mo dire­to ou indi­re­to, regis­trou um cres­ci­men­to de 2,8%. Por isso, digo que o impac­to sobre o con­su­mo foi mai­or e mui­to impul­si­o­na­do pelo efei­to ren­da que ocor­reu na popu­la­ção via Auxí­lio Emer­gen­ci­al. Mas tam­bém tive­mos novos hábi­tos de con­su­mo que aju­dou nas vendas.

No pri­mei­ro ano da pan­de­mia, hou­ve cres­ci­men­to do setor, devi­do ao auxí­lio emer­gen­ci­al. Este ano, o auxí­lio é menor. O ano de 2021 pode fechar com uma cri­se esta­be­le­ci­da na cadeia pro­du­ti­va, que se esten­de­rá para 2022?

A cadeia do lei­te é mui­to resi­li­en­te a cri­ses e, em geral, se ajus­ta rápi­do. Mas o cená­rio de cur­to pra­zo não é dos melho­res, por uma série de fato­res. Do lado macro­e­conô­mi­co esta­mos com ele­va­da taxa de desem­pre­go, que­da na ren­da e uma infla­ção e juros subin­do. Além dis­so, o cres­ci­men­to econô­mi­co pre­vis­to é bai­xo, fican­do bem aquém da expan­são mun­di­al. Espe­ci­fi­ca­men­te em rela­ção ao setor, esta­mos com uma enor­me pres­são de cus­tos e com difi­cul­da­de para repas­sar pre­ços ao con­su­mi­dor final pela pró­pria fra­gi­li­da­de macro­e­conô­mi­ca. É uma con­jun­tu­ra bas­tan­te desa­fi­a­do­ra e, pode sim, se arras­tar para além de 2021, sobre­tu­do no âmbi­to dos cus­tos. Por­tan­to, é um ano que suge­re deci­sões mais con­ser­va­do­ras. Mas não pode­mos esque­cer que a eco­no­mia está em recu­pe­ra­ção, com refle­xos posi­ti­vos sobre ren­da e con­su­mo ao lon­go dos pró­xi­mos meses.

Como o senhor expli­ca a alta nos cus­tos de pro­du­ção de lei­te, que se arras­ta des­de o prin­cí­pio da pandemia?

Essa alta está rela­ci­o­na­da a um con­jun­to de fato­res, inter­nos e exter­nos. Exter­na­men­te, pode­mos des­ta­car: a des­va­lo­ri­za­ção do dólar fren­te a outras moe­das, o que ele­vou os pre­ços das com­mo­di­ti­es em dólar; o for­te cres­ci­men­to do con­su­mo glo­bal; as impor­ta­ções chi­ne­sas de milho que geral­men­te fica­vam entre 3 e 5 milhões de toneladas/ano e ago­ra devem supe­rar 25 milhões de tone­la­das; o recuo nos esto­ques glo­bais de milho e soja, com for­te que­da nos esto­ques dos Esta­dos Uni­dos. Um outro fator, não mui­to fala­do, foi a migra­ção de fun­dos de hed­ge para os mer­ca­dos de com­mo­di­ti­es. Os fun­dos estão com uma posi­ção com­pra­da his­to­ri­ca­men­te alta, o que aca­ba colo­can­do mais pres­são nas cota­ções. Mas tive­mos fato­res inter­nos tam­bém. Além de pro­ble­mas cli­má­ti­cos que afe­ta­ram plan­tio e colhei­ta, hou­ve uma des­va­lo­ri­za­ção do real que tem for­te impac­to nos cus­tos de pro­du­ção de lei­te. Enfim, o fato é que temos uma deman­da fir­me por milho e soja e com pro­du­to­res bas­tan­te capi­ta­li­za­dos, caden­ci­an­do a venda.

Além do pre­ço das com­mo­di­ti­es, o que mais tem ele­va­do os cus­tos de pro­du­ção de leite?

As prin­ci­pais altas foram no cus­to de con­cen­tra­do como já fala­mos. Mas tam­bém esta­mos obser­van­do ele­va­ção no cus­to do ali­men­to volu­mo­so, com enca­re­ci­men­to de com­bus­tí­veis, fer­ti­li­zan­tes e defen­si­vos. São insu­mos afe­ta­dos pela taxa de câm­bio, pelo pre­ço do petró­leo, pelo fre­te marí­ti­mo inter­na­ci­o­nal, e todos estes fato­res suge­rem elevação.

A ele­va­ção do câm­bio tor­na o lei­te bra­si­lei­ro mais bara­to com­pa­ra­do aos pre­ços inter­na­ci­o­nais. No entan­to as impor­ta­ções estão em alta. Qual o papel do câm­bio na atu­al crise?

No agro­ne­gó­cio geral­men­te a des­va­lo­ri­za­ção cam­bi­al é posi­ti­va. Mas isso quan­do pen­sa­mos nas cadei­as agro­ex­por­ta­do­ras como soja, café, laran­ja, etc. No caso do lei­te, ape­sar do câm­bio segu­rar a impor­ta­ção, há um efei­to dire­to em cus­tos. No segun­do semes­tre de 2020 o câm­bio não foi sufi­ci­en­te para segu­rar a impor­ta­ção. A alta dos pre­ços domés­ti­cos e a com­pe­ti­ti­vi­da­de dos pro­du­tos lác­te­os oriun­dos da Argen­ti­na e do Uru­guai ele­vou mui­to nos­sas impor­ta­ções. E isso ocor­reu tam­bém no iní­cio de 2021, mas com volu­mes decres­cen­tes. Nes­te iní­cio de ano, esta­mos ven­do uma impor­ta­ção per­den­do for­ça e uma expor­ta­ção cres­cen­do. A alta dos lác­te­os no mer­ca­do inter­na­ci­o­nal con­tri­buiu para esse movimento.

Com rela­ção à indús­tria, o que tem pre­o­cu­pa­do os laticínios?

A gran­de pre­o­cu­pa­ção é a difi­cul­da­de em aumen­tar as mar­gens e a agre­ga­ção de valor. Por ter­mos uma indús­tria mui­to frag­men­ta­da e sem poder de nego­ci­a­ção jun­to aos vare­jis­tas, o setor aca­ba fican­do pres­si­o­na­do em deter­mi­na­dos momen­tos. A exis­tên­cia de bai­xas bar­rei­ras à entra­da no setor aca­ba geran­do esse resul­ta­do de pou­co poder de mer­ca­do. Quan­do a eco­no­mia cres­ce de for­ma mais acen­tu­a­da esse efei­to é miti­ga­do, pois há uma expan­são da ren­da e do con­su­mo. Mas quan­do cres­ci­men­to econô­mi­co é bai­xo, os pro­ble­mas se agra­vam. O con­su­mo de lei­te tem uma for­te rela­ção com a ren­da e o Bra­sil parou de cres­cer em 2014. Com isso, esta­mos pra­ti­ca­men­te estag­na­dos no lei­te tam­bém. E quan­do você tem cri­ses sequen­ci­ais o resul­ta­do é mui­to peri­go­so. O Bra­sil enco­lheu em 2015 e 2016, depois tive­mos cres­ci­men­to mui­to bai­xo no perío­do 2017–2019. Em 2020 veio a pan­de­mia e mais cri­se econô­mi­ca. Isso vai minan­do a capa­ci­da­de de inves­ti­men­to das empre­sas nos diver­sos seto­res, afe­ta empre­go, ren­da, con­su­mo e assim por dian­te. No pri­mei­ro ano da pan­de­mia tive­mos uma for­te con­tri­bui­ção fis­cal, o que gerou um con­su­mo impor­tan­te de lác­te­os. Mas é algo que não se sus­ten­ta por si e aca­ba aumen­tan­do o endi­vi­da­men­to públi­co, que tem outras con­sequên­ci­as econô­mi­cas nega­ti­vas, como aumen­to de juros, por exemplo.

Hou­ve um aumen­to do con­su­mo de lei­te no pri­mei­ro ano da pan­de­mia, como o con­su­mi­dor está se com­por­tan­do nes­te momento?

A situ­a­ção nes­te iní­cio de 2021 está mais com­pli­ca­da. Ano pas­sa­do tive­mos um gran­de con­su­mo das clas­ses D/E com a libe­ra­ção do Auxí­lio Emer­gen­ci­al. Mas per­de­mos boa par­te des­sa par­ce­la da popu­la­ção por fal­ta de ren­da. Come­ça­mos 2021 com um cres­ci­men­to tími­do de con­su­mo e que está limi­tan­do aumen­tos mais robus­tos de pre­ços e pres­si­o­nan­do nega­ti­va­men­te as mar­gens de ren­ta­bi­li­da­de no setor.

O sr. con­si­de­ra­ria que o setor lei­tei­ro foi o que menos sofreu com a pan­de­mia den­tro do agro?

Não vejo isso. No pri­mei­ro ano, o setor foi bene­fi­ci­a­do com o aumen­to do con­su­mo e melho­ria das mar­gens. Mas isso não se sus­ten­tou e já no final de 2020 o cená­rio pio­rou. O fato é que o mun­do está cres­cen­do rápi­do e as cadei­as agro­ex­por­ta­do­ras estão apro­vei­tan­do o momen­to, com mai­or remes­sa de pro­du­tos e a pre­ços mais ele­va­dos. Ou seja, uma com­bi­na­ção per­fei­ta. Não é o caso do lei­te, que depen­de qua­se que exclu­si­va­men­te da ren­da inter­na para cres­cer. Deve­re­mos ter um ajus­te de ofer­ta para melho­rar a con­di­ção atu­al de preços.

Quais lições que o setor lác­teo, den­tro e fora da fazen­da, pode tirar des­se perío­do tão atí­pi­co e qual a ten­dên­cia daqui para frente?

Vejo que exis­tem vári­as lições, como a pró­pria adap­ta­ção exi­gi­da pela pan­de­mia, de como lidar com as incer­te­zas e de como lidar com a expec­ta­ti­va de má notí­cia, está últi­ma mui­to pre­sen­te no coti­di­a­no da pan­de­mia. Nes­se sen­ti­do, os mai­o­res apren­di­za­dos estão rela­ci­o­na­dos a ação e coo­pe­ra­ção. Ficar recla­man­do não aju­da em nada, mas agir sim. E vejo que o setor seguiu essa linha no pri­mei­ro ano da pan­de­mia. Todos enfren­ta­mos inú­me­ros desa­fi­os e o impor­tan­te é bus­car solu­ções para seguir adi­an­te e com suces­so. No caso da coo­pe­ra­ção, bus­car boas par­ce­ri­as no negó­cio é fun­da­men­tal para lidar com a com­ple­xi­da­de do mun­do atu­al. E a pan­de­mia mos­trou que a coo­pe­ra­ção entre indi­ví­du­os, empre­sas e nações foi a arma mais pode­ro­sa para a bus­ca de solu­ções, como a vaci­na da Covid-19. Para o futu­ro, essa coo­pe­ra­ção será fun­da­men­tal nos negó­ci­os para pro­du­zir com mais efi­ci­en­te, para rea­li­zar melho­res com­pras de insu­mos, para melho­rar a comer­ci­a­li­za­ção e para agre­gar valor. Exis­tem tam­bém ten­dên­ci­as rela­ci­o­na­das à segu­ran­ça dos ali­men­tos, sau­da­bi­li­da­de, meio ambi­en­te, res­pon­sa­bi­li­da­de soci­al, todos temas que pre­ci­sam estar na agen­da do setor.

Com menos pes­so­as fre­quen­tan­do bares e res­tau­ran­tes, sua opi­nião, a pan­de­mia foi capaz de modi­fi­car hábi­tos de con­su­mo de lácteos?

Cer­ta­men­te que sim. Hou­ve a subs­ti­tui­ção de ali­men­ta­ção fora do lar pela ali­men­ta­ção domi­ci­li­ar, o que impul­si­o­nou a deman­da por lác­te­os uti­li­za­dos na culi­ná­ria. Mas as mudan­ças de hábi­tos não ocor­re­ram ape­nas pela menor pre­sen­ça em bares e res­tau­ran­tes, e sim por uma série de mudan­ças que viven­ci­a­mos. Com a pan­de­mia, as famí­li­as pri­vi­le­gi­a­ram os gas­tos com ali­men­tos. Além dis­so, ao pas­so que uma par­ce­la da popu­la­ção teve ganhos de ren­da e pas­sou a gas­tar mais com ali­men­tos, outras tive­ram cres­ci­men­to de pou­pan­ça devi­do a eco­no­mi­as de outros gas­tos, como via­gens e mes­mo bares e res­tau­ran­tes. Essas famí­li­as aca­ba­ram pri­vi­le­gi­an­do uma ali­men­ta­ção mais ela­bo­ra­da e mais pra­ze­ro­sa. Enfim, tem sido um perío­do com dife­ren­tes expe­ri­ên­ci­as de con­su­mo. E vejo tam­bém que a pan­de­mia ace­le­rou algu­mas ten­dên­ci­as como as com­pras onli­ne. É uma for­ma de comer­ci­a­li­za­ção que o setor lác­teo pre­ci­sa explo­rar mais. Exis­tem outros temas rela­ci­o­na­dos a segu­ran­ça do ali­men­to e ori­gem que ten­dem a ganhar for­ça nos pró­xi­mos anos.

O sr. tem cita­do que é bem pro­vá­vel que uma nova ordem se esta­be­le­ça no agro bra­si­lei­ro e mun­di­al quan­do a nos­sa vida vol­tar ao nor­mal. O que deve­mos esperar?

É cres­cen­te a cobran­ça por prá­ti­cas de ESG (Ambi­en­tal, Soci­al, Gover­nan­ça) no cam­po. A soci­e­da­de e os inves­ti­do­res bus­cam um mode­lo de desen­vol­vi­men­to sus­ten­tá­vel que con­si­de­re essas ques­tões, ou seja, a pro­te­ção ambi­en­tal, a res­pon­sa­bi­li­da­de soci­al e mai­or trans­pa­rên­cia. São ques­tões que ganham peso na aná­li­se do inves­ti­dor, no comér­cio glo­bal, e o Bra­sil tem um poten­ci­al enor­me nes­sa dire­ção, com agri­cul­tu­ra de bai­xo car­bo­no e pro­du­ção de ali­men­tos para abas­te­cer gran­de par­te da popu­la­ção mun­di­al, sem sub­sí­dio. Essa é a sina­li­za­ção que esta­mos ven­do para o futu­ro. As cadei­as agro­a­li­men­ta­res se movem no sen­ti­do de ganhos de pro­du­ti­vi­da­de para seg­men­ta­ção de mer­ca­do e cus­to­mi­za­ção do con­su­mo e aí esta­mos falan­do de agre­ga­ção de valor aos pro­du­tos. No caso do lei­te, a for­ma como ele é pro­du­zi­do, e por quem, ganha­rá cada vez mais impor­tân­cia. Com isso, sur­gem as deman­das por ras­tre­a­bi­li­da­de, bem-estar ani­mal, pega­da de car­bo­no, resí­duo e reci­cla­gem, sus­ten­ta­bi­li­da­de, pro­du­tos locais, pro­du­tos natu­rais, entre outras ten­dên­ci­as. O con­su­mi­dor bus­ca essas infor­ma­ções e o setor pode uti­li­zá-las como uma impor­tan­te fon­te de valor.

 

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