Pre­ci­sa­mos garan­tir que aqui­lo que foi for­mu­la­do, efe­ti­va­men­te che­gue às vacas e seja con­su­mi­do por elas. Para isso, é neces­sá­rio acom­pa­nhar as alte­ra­ções na com­po­si­ção nutri­ci­o­nal de cada item, prin­ci­pal­men­te a maté­ria seca das for­ra­gens, peri­o­di­ca­men­te, ou a cada tro­ca de ingrediente

Nutrição para aumentar a gordura e proteína do leite das vacas

Por Dr. João Pedro Perei­ra Winckler

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Car­gill Nutri­ção Animal

A com­po­si­ção do lei­te está dire­ta­men­te rela­ci­o­na­da à die­ta for­ne­ci­da para as vacas, tan­to que os com­po­nen­tes do lei­te são uti­li­za­dos como indi­ca­do­res de balan­ce­a­men­to. Fra­ções como gor­du­ra, pro­teí­na e o nitro­gê­nio uréi­co mos­tram como está o ambi­en­te rumi­nal, se exis­te fal­ta ou exces­so de nutri­en­tes e a efi­ci­ên­cia na uti­li­za­ção dos mesmos. 

Antes de tudo, é impor­tan­te lem­brar que exis­tem gar­ga­los, além da for­mu­la­ção da die­ta, que impac­tam na com­po­si­ção do lei­te. Pre­ci­sa­mos garan­tir que aqui­lo que foi for­mu­la­do, efe­ti­va­men­te che­gue às vacas e seja con­su­mi­do por elas. Para isso, é neces­sá­rio acom­pa­nhar as alte­ra­ções na com­po­si­ção nutri­ci­o­nal de cada item, prin­ci­pal­men­te a maté­ria seca das for­ra­gens, peri­o­di­ca­men­te, ou a cada tro­ca de ingre­di­en­te. Outro pon­to impor­tan­te é garan­tir a boa mis­tu­ra dos ali­men­tos, dimen­si­o­nan­do a quan­ti­da­de de comi­da den­tro da capa­ci­da­de míni­ma e máxi­ma do vagão, adi­ci­o­nan­do os ingre­di­en­tes na ordem cor­re­ta, mis­tu­ran­do por tem­po sufi­ci­en­te, ajus­tan­do o tama­nho das par­tí­cu­las e a maté­ria seca da die­ta total. 

A die­ta está no cocho e ago­ra o que pode dar erra­do? As vacas, assim como nós, têm pre­fe­rên­cia por deter­mi­na­dos ingre­di­en­tes, nor­mal­men­te aque­les com mai­or den­si­da­de ener­gé­ti­ca, entre­tan­to, as vacas têm difi­cul­da­de em sele­ci­o­nar, devi­do às limi­ta­ções físi­cas e ao modo com que elas cap­tu­ram o ali­men­to. Se a die­ta esti­ver bem mis­tu­ra­da, com tama­nho de par­tí­cu­las e maté­ria seca ade­qua­da, difi­cil­men­te a vaca fará sele­ção e o que foi for­mu­la­do efe­ti­va­men­te será con­su­mi­do. Além dos fato­res já cita­dos, o con­su­mo das vacas é afe­ta­do pela qua­li­da­de dos ali­men­tos, ambi­ên­cia, con­for­to, pro­ble­mas de cas­co e o tem­po dis­po­ní­vel para o consumo. 

Focan­do no balan­ce­a­men­to de die­tas e nos efei­tos na com­po­si­ção do lei­te, divi­di­mos o tema entre os dois prin­ci­pais com­po­nen­tes, que afe­tam o bol­so do pro­du­tor e podem ser uti­li­za­dos como indi­ca­do­res de des­ba­lan­ço, que são a gor­du­ra e a proteína. 

 

Gor­du­ra do leite

 

A gor­du­ra é o com­po­nen­te do lei­te que pode sofrer mai­or alte­ra­ção em fun­ção de uma die­ta mal balan­ce­a­da. A redu­ção da gor­du­ra do lei­te nor­mal­men­te está asso­ci­a­da a pro­ble­mas no ambi­en­te rumi­nal, exces­so ou defi­ci­ên­cia em nutrientes. 

As bac­té­ri­as que degra­dam a fibra e pro­du­zem a mai­or par­te do áci­do acé­ti­co (pre­cur­sor da gor­du­ra do lei­te) são sen­sí­veis à redu­ção do pH rumi­nal. Des­sa for­ma, o pon­to cha­ve para garan­tir o equi­lí­brio do ambi­en­te rumi­nal e aumen­tar a gor­du­ra do lei­te, é garan­tir que as vari­a­ções do pH duran­te o dia sejam as meno­res pos­sí­veis. Cada ingre­di­en­te pos­sui dife­ren­tes tem­pos de fer­men­ta­ção e pro­duz deter­mi­na­dos pro­du­tos (áci­dos orgâ­ni­cos). Esses áci­dos são o com­bus­tí­vel da vaca, mas tam­bém são res­pon­sá­veis pela redu­ção do pH ruminal. 

 

Rela­ção entre o pH rumi­nal e a gor­du­ra do leite.

Adap­ta­do de Allen, 1997.

 

 A inten­si­da­de da redu­ção será sig­ni­fi­ca­ti­va, ou não, depen­den­do do áci­do que é pro­du­zi­do, sua con­cen­tra­ção e o tem­po de absor­ção pela pare­de rumi­nal, ou seja, ingre­di­en­tes que são rapi­da­men­te fer­men­ta­dos e pro­du­zem áci­dos mais for­tes, aumen­tam a chan­ce de acidose. 

Nes­se con­tex­to, die­tas com ele­va­das con­cen­tra­ções de ami­do, prin­ci­pal­men­te de ami­do fer­men­tá­vel, têm o poten­ci­al de redu­zir a gor­du­ra do lei­te. Porém, exis­tem estra­té­gi­as para mini­mi­zar a redu­ção do pH rumi­nal. As prin­ci­pais são: esti­mu­lar a rumi­na­ção das vacas por meio do for­ne­ci­men­to de for­ra­gens com fibra fisi­ca­men­te efe­ti­va, adi­ci­o­nar tam­po­nan­tes à die­ta (como o bicar­bo­na­to de sódio e óxi­do de mag­né­sio) e subs­ti­tuir par­te do apor­te de ener­gia do ami­do por ingre­di­en­tes com menor poten­ci­al de redu­zir o pH (como gor­du­ra pro­te­gi­da, pol­pa cítri­ca, cas­qui­nha de soja, açú­car, entre outros). 

A redu­ção na gor­du­ra do lei­te não é cau­sa­da somen­te pela aci­do­se, fon­tes de gor­du­ra insa­tu­ra­da degra­dá­veis no rúmen nas die­tas e pre­sen­ça de mico­to­xi­nas nos ingre­di­en­tes, tam­bém podem gerar esse pro­ble­ma. Quan­do os ani­mais não apre­sen­ta­rem sin­to­mas e o esco­re das fezes esti­ver ok, pos­si­vel­men­te um, ou esses dois fato­res podem estar afe­tan­do a gor­du­ra do leite. 

A frequên­cia com que as vacas se ali­men­tam tam­bém afe­tam esse com­po­nen­te do lei­te, deve­mos esti­mu­lar que o con­su­mo seja o mais fre­quen­te pos­sí­vel, aumen­tar o núme­ro de tra­tos e empur­rar mais vezes, são exce­len­tes estra­té­gi­as para aumen­tar o con­su­mo e redu­zir o quan­to é con­su­mi­do em uma ida ao cocho. 

 

Rela­ção entre frequên­cia de refei­ções no dia e a gor­du­ra no leite

Adap­ta­do de DeVri­es and Che­vaux, 2014.

 

Outro pon­to que tem gran­de impac­to na con­cen­tra­ção de gor­du­ra do lei­te é a rela­ção entre a ener­gia e o nitro­gê­nio dis­po­ní­vel no rúmen para a pro­du­ção de pro­teí­na micro­bi­a­na. Quan­do a rela­ção é posi­ti­va, ou seja, está sobran­do ener­gia no rúmen, mai­or a chan­ce de ocor­rer aci­do­se e redu­ção da gor­du­ra no lei­te. Para resol­ver esse pro­ble­ma, deve-se adi­ci­o­nar à die­ta fon­tes de Pro­teí­na Degra­dá­vel no Rúmen (PDR), ou redu­zir o apor­te de ener­gia no rúmen. 

 

Pro­teí­na do leite

 

Dife­ren­te­men­te da gor­du­ra, a pro­teí­na do lei­te sofre menor vari­a­ção em fun­ção da die­ta, mas tam­bém é pos­sí­vel ajus­tar as die­tas com foco no seu incre­men­to. Nor­mal­men­te, a con­cen­tra­ção de pro­teí­na do lei­te está asso­ci­a­da ao aten­di­men­to, ou não, das exi­gên­ci­as de pro­teí­na da vaca e dos micror­ga­nis­mos ruminais. 

A pro­teí­na do lei­te se ori­gi­na a par­tir de três fon­tes: pro­teí­na micro­bi­a­na, pro­teí­na for­ne­ci­da via die­ta que pas­sa o rúmen e, em menor pro­por­ção, pro­teí­nas endó­ge­nas. De 60% a 75% (depen­den­do da die­ta e do nível de pro­du­ção) da pro­teí­na meta­bo­li­za­da pela vaca é de ori­gem micro­bi­a­na. Sen­do assim, aten­der as exi­gên­ci­as de PDR e ener­gia no rúmen são pon­tos cha­ve para aumen­tar a pro­teí­na do leite. 

Alguns pro­du­to­res têm receio de uti­li­zar ureia nas die­tas, por medo de into­xi­car suas vacas, entre­tan­to, quan­do uti­li­za­mos essa estra­té­gia de manei­ra cor­re­ta (ou seja, não exce­de­mos 1% da maté­ria seca con­su­mi­da e adap­ta­mos as vacas), essa é uma alter­na­ti­va mui­to inte­res­san­te, que pode bara­te­ar die­tas e suprir par­te das exi­gên­ci­as de pro­teí­na solú­vel e PDR. 

Quan­do o apor­te de PDR é mui­to alto, exce­den­do a capa­ci­da­de de pro­du­ção de pro­teí­na micro­bi­a­na, mui­tas vezes devi­do à fal­ta de ener­gia, a amô­nia pro­du­zi­da pas­sa pela pare­de rumi­nal, vai para o fíga­do, onde é trans­for­ma­da em ureia e vol­ta para a cor­ren­te san­guí­nea, par­te é rea­pro­vei­ta­da no rúmen, e o res­tan­te é excre­ta­do na uri­na e no lei­te, ele­van­do o nitro­gê­nio uréi­co do leite. 

O nitro­gê­nio uréi­co do lei­te é um exce­len­te indi­ca­dor de como está o balan­ce­a­men­to da die­ta, de modo geral, a reco­men­da­ção é que este­ja entre 10 a 14 mg/dL. Valo­res supe­ri­o­res podem indi­car que exis­te exces­so de PDR ou fal­ta de ener­gia no rúmen, valo­res infe­ri­o­res, que está fal­tan­do PDR ou exces­so de ener­gia. A ele­va­da con­cen­tra­ção de ureia sen­do excre­ta­da indi­ca que a con­cen­tra­ção no san­gue é alta, fator que afe­ta a repro­du­ção das vacas, além do ele­va­do cus­to ener­gé­ti­co para eliminá-la. 

As exi­gên­ci­as nutri­ci­o­nais do rúmen (micror­ga­nis­mos rumi­nais) já foram aten­di­das, ago­ra pre­ci­sa­mos pen­sar na pro­teí­na para a vaca, ou melhor, nos ami­noá­ci­dos, que são as fra­ções da pro­teí­na que a vaca uti­li­za para a pro­du­ção da pro­teí­na do lei­te. No rúmen, a pro­teí­na vira amô­nia, mas se ela pas­sar o rúmen pode for­ne­cer os ami­noá­ci­dos neces­sá­ri­os para o incre­men­to da pro­teí­na do lei­te. Nós cha­ma­mos essa fra­ção de Pro­teí­na Não Degra­dá­vel no Rúmen (PNDR). 

Pra­ti­ca­men­te todos os ingre­di­en­tes pro­tei­cos pos­su­em fra­ções degra­dá­veis e não degra­dá­veis no rúmen, no entan­to, na mai­o­ria deles a pro­por­ção do que fica no rúmen é mui­to supe­ri­or a aque­la que pas­sa. Por exem­plo, o fare­lo de soja, ingre­di­en­te mais uti­li­za­do como fon­te pro­tei­ca, apro­xi­ma­da­men­te 70% da pro­teí­na dis­po­ní­vel é degra­da­da no rúmen, enquan­to ape­nas 30% não é. Sen­do assim, aten­der às exi­gên­ci­as de PNDR para vacas de alta pro­du­ção e aumen­tar a pro­teí­na do lei­te é um desa­fio. Ingre­di­en­tes como o Soy­pass®, per­mi­tem que mais pro­teí­na pas­se o rúmen (apro­xi­ma­da­men­te 70%) e aumen­tem o apor­te de ami­noá­ci­dos para a vaca, sus­ten­tan­do mai­or pro­du­ção com acrés­ci­mo na pro­teí­na no leite. 

Mes­mo que o aumen­to da gor­du­ra e da pro­teí­na do lei­te não sejam atra­ti­vos do pon­to de vis­ta finan­cei­ro (caso a fazen­da não rece­ba pela com­po­si­ção do lei­te), níveis ade­qua­dos des­sas fra­ções indi­cam o balan­ce­a­men­to das die­tas, efi­ci­ên­cia ali­men­tar e saú­de das vacas, fato­res deci­si­vos para a lon­ge­vi­da­de dos ani­mais no reba­nho e o suces­so na atividade. 

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