Milho: a vaca precisa aproveitá-lo ao máximo - Balde Branco

No Bra­sil, o milho dige­re menos que nos EUA. No entan­to, o apro­vei­ta­men­to do ami­do na die­ta das vacas deve ser máxi­mo, pró­xi­mo de 5% se sua pre­sen­ça for con­fe­ri­da nas fezes do ani­mal. É a medi­da ame­ri­ca­na, mas que tam­bém já vem sen­do obti­da por aqui

Pro­fes­sor de Ciên­cia Ani­mal da Uni­ver­si­da­de de Pur­due, no esta­do de Indi­a­na-EUA, Shawn S. Don­kin é um dos pes­qui­sa­do­res mais des­ta­ca­dos em nutri­ção bovi­na, atu­an­do dire­ta­men­te em estu­dos envol­ven­do aumen­to de efi­ci­ên­cia ali­men­tar, meta­bo­lis­mo lipí­di­co e hepá­ti­co, resis­tên­cia à insu­li­na e supri­men­to de pro­teí­na pós-rúmen.

No ano pas­sa­do este­ve no Bra­sil, fazen­do pales­tras no ciclo For­mu­lei­te, orga­ni­za­do pelo labo­ra­tó­rio de aná­li­se de for­ra­gens 3rlab. Foi quan­do falou sobre res­pos­ta meta­bó­li­ca de vacas lei­tei­ras a pro­du­tos da diges­tão rumi­nal do ami­do, tema que tam­bém nor­teia esta entre­vis­ta exclu­si­va con­ce­di­da à Bal­de Bran­co. Por vári­as vezes, com­pa­ra o apro­vei­ta­men­to dos grãos do milho uti­li­za­do nos Esta­dos Uni­dos com o do nos­so país.

Mes­tre pela Uni­ver­si­da­de da Pen­sil­vâ­nia e PhD pela Uni­ver­si­da­de de Wis­con­sin, Don­kin fala tam­bém de sua expe­ri­ên­cia como nutri­ci­o­nis­ta em fazen­das nor­te-ame­ri­ca­nas e resu­me um pou­co do mui­to que sabe sobre ali­men­ta­ção de vacas lei­tei­ras. Em sua visi­ta ao nos­so país, con­fe­riu as prá­ti­cas de algu­mas fazen­das, as quais lhe dei­xa­ram mui­to bem impres­si­o­na­do na uti­li­za­ção de tec­no­lo­gia no mane­jo e nos pro­gra­mas de melho­ria genética.

Bal­de Bran­co — Por que pre­ci­sa­mos tra­ba­lhar com milho na die­ta de vacas leiteiras?
Shawn S. Don­kin - Esta per­gun­ta é mui­to inte­res­san­te, pois pra­ti­ca­men­te to¬das as die­tas em que me envol­vi, inclu­si­ve as que tive opor­tu­ni­da­de de ver aqui no Bra­sil, têm como refe­rên­cia o ami­do do milho. Bom, pre­ci­sa­mos tra­ba­lhar com ami­do por alguns moti­vos. Pri­mei­ro, por¬que está pro­va­do que ao reti­rar­mos o ami­do da for­mu­la­ção da die­ta a pro­du­ção de lei¬te da vaca cai. Outro fato: a bai­xa den­si­da­de ener­gé­ti­ca da for­ra­gem, que limi­ta o con­su­mo de maté­ria seca, pode ser cor­ri­gi­da com a uti­li­za­ção de ami­do, com o obje­ti­vo pro­por­ci­o­nar que o ani­mal con­su­ma mais e con­si­ga atin­gir a pro­du­ção deter­mi­na­da por sua gené­ti­ca. Sem con­tar que o ami­do é pala­tá­vel e somen­te por este moti­vo aju­da a aumen­tar o con­su­mo de maté­ria seca. Em adi­ção à fer­men­ta­ção no rúmen, a par­ti­ci­pa­ção do ami­do se mos­tra mais efi­ci­en­te ao pro­du­zir menos meta­no. Tenho vis­to algu­mas die­tas que uti­li­zam como fon­te de for­ra­gem a cana-de-açú­car, no entan­to, essas die­tas pre­ci­sam de ami­do para oti­mi­zar o fun­ci­o­na­men­to do rúmen e como con­sequên­cia aumen­tar a pro­du­ção de leite.

BB — Qual tem sido o foco das pes­qui­sas sobre uti­li­za­ção de ami­do para ruminantes?
SSD - Mui­tos expe­ri­men­tos têm foca­do no que acon­te­ce com o ami­do no rúmen e esque­cem que em uma vaca de alta pro­du­ção, 40% da diges­tão do ami­do acon­te­ce no intes­ti­no del­ga­do e gros­so, ou seja, qua­se meta­de da diges­ti­bi­li­da­de do ami­do acon­te­ce no tra­to gas­troin­tes­ti­nal. Como se sabe que o ami­do bra­si­lei­ro fer­men­ta menos no rúmen devi­do ao seu mai­or teor de pro­la­mi­na, a diges­ti­bi­li­da­de no intes­ti­no pas­sa a ser ain­da mais impor­tan­te para a pecuá­ria de lei­te no Brasil.

BB - O sr. pode­ria dis­cor­rer um pou­co mais sobre a menor fer­men­ta­bi­li­da­de do ami­do bra­si­lei­ro e o impac­to que isto teria na diges­ti­bi­li­da­de do intestino?
SSD - Acre­di­to que o pro­fes­sor Mar­cos Neves Perei­ra, da Uni­ver­si­da­de Fede­ral de Lavras, tem demons­tra­do que o ami­do bra­si­lei­ro con­tém mais pro­la­mi­na, uma pro­teí­na inso­lú­vel, que fun­ci­o­na como uma penei­ra ao redor dos grãos de ami­do do milho. Sabe¬mos que para ocor­rer diges­tão no rúmen pre­ci­sa­mos que o mate­ri­al este­ja solú­vel. Por­tan­to, esta pro­teí­na pre­ci­sa ser solu­bi­li­za­da e degra­da­da pelos micro­or­ga­nis­mos para que os mes­mos pos­sam fer­men­tar o ami­do. O pro­ble­ma é que os ali­men­tos não ficam mui­to tem­po no rúmen, sen­do assim, não se con­se­gue degra­dar mui­ta pro­la­mi­na no rúmen, pas­san­do para o intes­ti­no e levan­do con­si­go o ami­do intacto.

Leia a ínte­gra des­ta entre­vis­ta na edi­ção Bal­de Bran­co 621, de julho 2016

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