Mercado de lácteos segue aquecido mesmo com a pandemia

Mar­gens da indús­tria e pre­ços pagos ao pro­du­tor melho­ram com a ele­va­ção do con­su­mo de lác­te­os pela população

Mercado de lácteos segue aquecido mesmo com a pandemia

Por Rubens Nei­va — Núcleo de Comu­ni­ca­ção Orga­ni­za­ci­o­nal Embra­pa Gado de Leite

A indús­tria de lati­cí­ni­os pare­ce não ter sen­ti­do o gol­pe do novo coro­na­ví­rus. Ape­sar de alguns pro­du­tos mais ela­bo­ra­dos apre­sen­ta­rem menor deman­da des­de que a cri­se teve iní­cio, o que pode ser expli­ca­do pelo fecha­men­to dos food­ser­vi­ces (refei­ções fora do lar), o setor con­ti­nua aque­ci­do. O pre­ço no mer­ca­do de lei­te spot (lei­te nego­ci­a­do entre lati­cí­ni­os), por exem­plo, teve um aumen­to de 46% em junho, com­pa­ra­do ao mês ante­ri­or. O lei­te UHT, que che­gou a fal­tar nas gôn­do­las dos super­mer­ca­dos no iní­cio da pan­de­mia, teve o pre­ço ele­va­do em 18% e o quei­jo muça­re­la, 23% no mer­ca­do ata­ca­dis­ta. Já para os con­su­mi­do­res esses aumen­tos foram ame­ni­za­dos, com o indi­ca­dor ofi­ci­al de infla­ção (IPCA) regis­tran­do alta de 2,33% para o lei­te UHT e de 2,48% para o quei­jo. Essa infla­ção seg­men­ta­da mos­tra que a cadeia pro­du­ti­va está se movi­men­tan­do e que a deman­da con­ti­nua firme.

Além da essen­ci­a­li­da­de do setor ali­men­tí­cio (a agroin­dús­tria não pode parar com a pan­de­mia), pes­qui­sa­do­res e ana­lis­tas do Cen­tro de Inte­li­gên­cia do Lei­te da Embra­pa Gado de Lei­te, afir­mam que o auxí­lio emer­gen­ci­al do Gover­no, que irá vigo­rar por mais dois meses, foi fun­da­men­tal para garan­tir o poder de com­pra dos bra­si­lei­ros mais afe­ta­dos pela cri­se. “Com a con­ti­nui­da­de dos auxí­li­os de ren­da, esse aque­ci­men­to do mer­ca­do deve se man­ter, pelo menos por mais um perío­do, per­mi­tin­do que os lati­cí­ni­os alcan­cem mar­gens de lucro melho­res do que no ano pas­sa­do”, diz Denis Rocha, ana­lis­ta da Embrapa.

“Com o con­su­mo se man­ten­do em alta, os pre­ços dos pro­du­tos lác­te­os devem con­ti­nu­ar valo­ri­za­dos pelo menos até o mês de agos­to, quan­do a pro­du­ção lei­tei­ra reto­ma seu cres­ci­men­to com o avan­ço da safra no Sul e, pos­te­ri­or­men­te, no Sudes­te e Cen­tro-Oes­te”, diz o pes­qui­sa­dor da Embra­pa João César Resen­de. Mas a expec­ta­ti­va geral é que não haja desa­bas­te­ci­men­to. O Bra­sil está bem pró­xi­mo de atin­gir a autos­su­fi­ci­ên­cia na pro­du­ção de lei­te, o que dá mais tran­qui­li­da­de ao país. Segun­do o ana­lis­ta Loril­do Stock, a impor­ta­ção bra­si­lei­ra de lei­te esse ano está em tor­no de 2% da pro­du­ção naci­o­nal, bem abai­xo de anos ante­ri­o­res. Um fato que pode gerar algum âni­mo nos ansei­os expor­ta­do­res do setor é que, com a des­va­lo­ri­za­ção do dólar, o lei­te bra­si­lei­ro se tor­nou mais com­pe­ti­ti­vo inter­na­ci­o­nal­men­te. “O pre­ço do litro de lei­te ao pro­du­tor aqui den­tro está a menos de 29 cen­ta­vos de dólar, abai­xo dos pre­ços inter­na­ci­o­nais, que se posi­ci­o­nam aci­ma dos 30 cen­ta­vos de dólar”.

O lei­te na pan­de­mia – O Bra­sil come­çou o ano com pers­pec­ti­va de cres­ci­men­to do PIB aci­ma dos 2,0%, que seria o mai­or cres­ci­men­to dos últi­mos seis anos. Mes­mo que len­ta­men­te, a eco­no­mia apre­sen­ta­va sinais de recu­pe­ra­ção e suge­ria uma melho­ria na situ­a­ção de con­su­mo e inves­ti­men­tos. Com esse cená­rio, a expec­ta­ti­va era de cres­ci­men­to mais con­sis­ten­te no con­su­mo de lác­te­os, que vinha pati­nan­do nos últi­mos anos. Essas eram as expec­ta­ti­vas antes da Covid-19.

Quan­do a Orga­ni­za­ção Mun­di­al de Saú­de anun­ci­ou a pan­de­mia, hou­ve um sus­to gene­ra­li­za­do, que tam­bém atin­giu a cadeia pro­du­ti­va do lei­te.  A pro­du­ção naci­o­nal ini­ci­a­va a entres­sa­fra, que foi ain­da poten­ci­a­li­za­da pela seca na Região Sul, com alta nos cus­tos de pro­du­ção e a que­da nas impor­ta­ções. “Esses fato­res redu­zi­ram bas­tan­te a dis­po­ni­bi­li­da­de inter­na de lei­te”, diz Rocha. Mas, segun­do ele, mes­mo com a redu­ção na ofer­ta, o setor con­se­guiu se orga­ni­zar rapi­da­men­te de for­ma a não fal­tar pro­du­tos para o con­su­mi­dor. “Nes­te momen­to, a pro­du­ção já come­ça a ace­le­rar no Sul e, a par­tir de outu­bro, tere­mos a safra no Sudes­te e no Cen­tro-Oes­te, que devem ser esti­mu­la­das pela valo­ri­za­ção recen­te nos pre­ços rece­bi­dos pelos pro­du­to­res”, dian­te dis­so, Rocha afir­ma que não have­rá pro­ble­mas de desa­bas­te­ci­men­to de pro­du­tos lác­te­os e que é pos­sí­vel ver inclu­si­ve um cres­ci­men­to no horizonte.

Mas a pan­de­mia tam­bém trou­xe sobres­sal­tos, como expli­ca Rocha: “Com o iní­cio do iso­la­men­to soci­al, no final de mar­ço, o con­su­mo de lác­te­os viveu três ondas dis­tin­tas, que afe­ta­ram de for­ma dife­ren­ci­a­da seus prin­ci­pais pro­du­tos”. Segun­do ele, a pri­mei­ra onda de con­su­mo durou um cur­to perío­do no final de mar­ço, ele­van­do os pre­ços do lei­te UHT e do lei­te em pó devi­do à cor­ri­da dos con­su­mi­do­res aos super­mer­ca­dos. A segun­da onda, que per­du­rou por todo o mês de abril até mea­dos de maio, foi carac­te­ri­za­da pela regu­la­ri­za­ção do con­su­mo e reor­ga­ni­za­ção da cap­ta­ção e do mix de pro­du­tos pelos lati­cí­ni­os, pri­vi­le­gi­an­do o lei­te UHT e o lei­te em pó. Nes­se perío­do, a muça­re­la, for­te­men­te afe­ta­da pelo fecha­men­to dos canais de ali­men­ta­ção fora do lar apro­fun­dou a que­da de pre­ços ini­ci­a­da na pri­mei­ra onda e puxou tam­bém o mer­ca­do Spot para bai­xo. Essa dinâ­mi­ca de pre­ços refle­tiu no pre­ço do lei­te rece­bi­do pelo pro­du­tor, que caiu em maio refe­ren­te ao lei­te entre­gue em abril.

Vive­mos ago­ra, segun­do Rocha, a ter­cei­ra onda, ini­ci­a­da na segun­da quin­ze­na de maio, com uma for­te valo­ri­za­ção de pre­ços. “A deman­da foi for­ta­le­ci­da pela entra­da dos recur­sos do auxí­lio emer­gen­ci­al do Gover­no, que já bene­fi­ci­ou mais de 60 milhões de bra­si­lei­ros, que têm uti­li­za­do os recur­sos basi­ca­men­te para ali­men­ta­ção refle­tin­do posi­ti­va­men­te no pre­ço do lei­te pago ao pro­du­tor”. Para Rocha, o soma­tó­rio des­ses movi­men­tos tem sido bas­tan­te posi­ti­vo para o con­su­mo de lác­te­os que, segun­do dados de algu­mas con­sul­to­ri­as de mer­ca­do, aumen­tou de for­ma con­sis­ten­te no pri­mei­ro semes­tre para quei­jos, man­tei­ga, requei­jão e lei­te UHT. “Isso refor­ça uma mudan­ça de com­por­ta­men­to dos con­su­mi­do­res que pas­sa­ram a deman­dar mais pro­du­tos de con­su­mo domés­ti­co e para pre­pa­ro de refei­ções no lar vis­to que as pes­so­as estão pas­san­do mais tem­po em casa como mos­tra­do em nos­sa pes­qui­sa de con­su­mo rea­li­za­da ain­da em maio*. Ao mes­mo tem­po, os auxí­li­os de ren­da do gover­no tam­bém refor­ça­ram o con­su­mo de pro­du­tos lác­te­os mais bási­cos como lei­te UHT e lei­te em pó”, con­clui o analista.

*Pes­qui­sa no site: ://www.cileite.com.br/especial_coronavirus_pesquisa_consumo

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