Mastite clínica e subclínica: entenda o que as diferenciam e suas principais características - Balde Branco

Due­lo de titãs: na luta entre pro­du­tor e mas­ti­te, ven­ce o mais bem informado

 
 

Mastite clínica e subclínica: entenda o que as diferenciam e suas principais características 

Por: Raquel Maria Cury Rodri­gues, Zoo­tec­nis­ta pela Unesp de Botucatu.

Brun­na Gran­ja, Médi­ca Vete­ri­ná­ria, Mes­tre em Ciên­ci­as Vete­ri­ná­ri­as em qua­li­da­de do lei­te, diag­nós­ti­co e con­tro­le de mas­ti­te bovi­na pela FMVZ/USP e Ana­lis­ta de Suces­so do Cli­en­te na OnFarm.

Que a mas­ti­te é uma pedra no sapa­to dos pro­du­to­res de lei­te todo mun­do já sabe. O nome da doen­ça agre­ga diver­sos micror­ga­nis­mos que são os agen­tes cau­sa­do­res da pato­lo­gia e vári­as impli­ca­ções  – visí­veis ou não – nas vacas. 

E por que “tro­car figu­ri­nha” sobre a mas­ti­te ain­da é tão impor­tan­te? Por­que dia a dia as tec­no­lo­gi­as avan­çam e con­tri­bu­em ain­da mais para a sua eli­mi­na­ção. Deci­frar as entra­ves que a levam para den­tro da fazen­da auxi­lia para que os pató­ge­nos esbar­rem em for­tes bar­rei­ras e não asso­lem o reba­nho e – quan­to mais estu­da­mos sobre o assun­to – mais segu­ros nos tor­na­mos para enfren­tar os desa­fi­os que apa­re­cem no coti­di­a­no. A infor­ma­ção sem­pre vence!

A ana­lo­gia do sub­tí­tu­lo “due­lo de titãs” é ape­nas uma joco­si­da­de para expor a luta das lei­te­ri­as con­tra os dois tipos da enfer­mi­da­de (clí­ni­ca e sub­clí­ni­ca) que, cada uma com suas carac­te­rís­ti­cas espe­cí­fi­cas, geram danos para toda a cadeia pro­du­ti­va. A ideia é que seja­mos mai­o­res e mais estra­té­gi­cos que a mas­ti­te que tan­to acar­re­ta pre­juí­zos, ser mais pro­du­ti­vos e com­pe­ti­ti­vos, pre­zar pela qua­li­da­de e redu­zir os cus­tos de pro­du­ção. Para que isso acon­te­ça, o pri­mei­ro pas­so é moni­to­rar a saú­de do reba­nho. Assim, des­trin­cha­mos abai­xo as prin­ci­pais dife­ren­ças e carac­te­rís­ti­cas da mas­ti­te clí­ni­ca e sub­clí­ni­ca a fim de aju­dar os envol­vi­dos na fazen­da a rea­li­zar um diag­nós­ti­co pre­ci­so e precoce.

Mas­ti­te clínica

Nor­mal­men­te a mas­ti­te clí­ni­ca é carac­te­ri­za­da por modi­fi­ca­ções vis­tas a olho nu no lei­te e tal­vez (já que não ocor­rem em todos os casos) mudan­ças nos úbe­res. Gru­mos, lei­te agua­do e pre­sen­ça de san­gue são algu­mas alte­ra­ções rela­ta­das no lei­te. Já incha­ço, ede­ma, endu­re­ci­men­to, ver­me­lhi­dão e dor, per­ten­cem ao gru­po de sin­to­mas que aco­me­tem os quar­tos mamá­ri­os. Tam­bém, o ani­mal pode apre­sen­tar outros sinais sis­tê­mi­cos da infec­ção usu­al­men­te em situ­a­ções mais gra­ves como febre (afe­ri­da pelo aumen­to da tem­pe­ra­tu­ra retal), desi­dra­ta­ção e redu­ção no con­su­mo de ali­men­tos, itens que resul­tam  con­se­quen­te­men­te em uma menor pro­du­ção leiteira. 

Para dire­ci­o­nar e tra­çar um pla­no, a mas­ti­te clí­ni­ca é clas­si­fi­ca­da em graus que podem ser leves, mode­ra­dos ou gra­ves. No leve (grau 1), há somen­te pre­sen­ça de alte­ra­ções visu­ais no lei­te como as expos­tas no pará­gra­fo aci­ma; no mode­ra­do (grau 2), além do lei­te, o úbe­re apre­sen­ta sinais de que algo não está legal e por últi­mo, no grau 3, que é con­si­de­ra­do gra­ve, a vaca tam­bém se tor­na febril e reduz o apetite. 

Mas­ti­te subclínica

Mais pre­va­len­te que a mas­ti­te clí­ni­ca, as infec­ções por mas­ti­te sub­clí­ni­ca – que tota­li­zam de 90 a 95% dos casos – afe­tam os resul­ta­dos finan­cei­ros do pro­du­tor já que redu­zem a pro­du­ção de lei­te, dimi­nu­em a qua­li­da­de do mes­mo e supri­mem o desem­pe­nho reprodutivo. 

Mes­mo ocul­ta, o quar­to mamá­rio afe­ta­do pela doen­ça pode apre­sen­tar dimi­nui­ção na pro­du­ção e mudan­ças na com­po­si­ção do lei­te, fato que inter­fe­re nega­ti­va­men­te na fabri­ca­ção dos lati­cí­ni­os quan­do pen­sa­mos pelo lado da indús­tria. Essa situ­a­ção tam­bém reduz as boni­fi­ca­ções ofe­re­ci­das aos pro­du­to­res, fazen­do com que per­cam uma opor­tu­ni­da­de de melho­ra­rem a renda. 

As fazen­das podem moni­to­rar a mas­ti­te sub­clí­ni­ca por meio de tes­tes indi­vi­du­ais como o CMT (Cali­for­nia Mas­ti­tis Test) e a CCS (Con­ta­gem de Célu­las Somá­ti­cas). Mun­di­al­men­te, o padrão de diag­nós­ti­co é o valor de 200 mil célu­las por mili­li­tro, ou seja, aci­ma des­se valor, é um indi­ca­ti­vo que a vaca está rea­gin­do ao pató­ge­no e neces­si­ta de aten­ção. Abai­xo des­se valor, a vaca é con­si­de­ra­da sadia. 

Quan­do a vaca é iden­ti­fi­ca­da com mas­ti­te sub­clí­ni­ca, outras ques­tões tam­bém valem ser res­pon­di­das, por isso, a impor­tân­cia de uma boa base de dados: esse ani­mal tem mas­ti­te sub­clí­ni­ca crô­ni­ca e se sim, é can­di­da­to ao des­car­te já que não res­pon­de bem às tera­pi­as já pro­pos­tas? É uma nova infec­ção? A vaca tem his­tó­ri­co de res­pon­der bem ao tra­ta­men­to? Ela está pre­nha? Entre outras inda­ga­ções, essas são algu­mas rele­van­tes para o desen­vol­vi­men­to de um planejamento. 

Outros tes­tes tam­bém podem ser auxi­li­a­res como o WMT (Wis­con­sin Mas­ti­tis Test) e o de con­du­ti­vi­da­de elé­tri­ca. Conhe­cer as bac­té­ri­as cau­sa­do­ras de mas­ti­te do reba­nho por meio da cul­tu­ra micro­bi­o­ló­gi­ca tam­bém é cru­ci­al para enten­der com quem esta­mos lidan­do.  Há vári­os tipos de micror­ga­nis­mos e se sou­ber­mos exa­ta­men­te qual é a bac­té­ria, a equi­pe pode tomar a melhor deci­são com rela­ção a qual tra­ta­men­to ado­tar ou quais medi­das pre­ven­ti­vas devem ser pri­o­ri­za­das no momen­to. Essa fer­ra­men­ta é útil tan­to para casos clí­ni­cos como subclínicos.

De manei­ra resu­mi­da, tra­tar as vacas às cegas resul­ta em uma menor chan­ce de cura e as per­das econô­mi­cas serão mai­o­res e em algu­mas vezes, até desas­tro­sas. Então, o prin­ci­pal reca­do é: use e abu­se do conhe­ci­men­to dis­pos­to e dos recur­sos que hoje estão extre­ma­men­te acessíveis. 

Fon­tes consultadas: 

Kirk­pa­trick MA, Olson JD. Soma­tic Cell Counts at First Test: More than a Num­ber, in Pro­ce­e­dings. NMC Annu Meet 2015;53–56.

Make a Plan to Root out Cos­tly Sub­cli­ni­cal Mas­ti­tis. Dairy Herd by Farm Jour­nal Con­tent Ser­vi­ces, 09 de Novem­bro de 2020. Dis­po­ní­vel em: <https://www.dairyherd.com/news/­bu­si­nes­s/­ma­ke-plan-root-out-cos­tly-sub­cli­ni­cal-mas­ti­tis>. Aces­so em 25/10/2021. 

SAN­TOS, M. V; FON­SE­CA, L. F. L. Con­tro­le da Mas­ti­te e Qua­li­da­de do Lei­te: Desa­fi­os e Solu­ções. Piras­su­nun­ga: Edi­ção dos Auto­res, 2019. 301 p.