Leite perante os acordos comerciais

O mer­ca­do inter­na­ci­o­nal de lác­te­os dian­te do recen­te acor­do Trans­pa­cí­fi­co ganha uma nova ordem, seja na ofer­ta ou na deman­da de pro­du­tos. Com isso, res­ta ao Bra­sil ajus­tar sua estra­té­gia comer­ci­al para se man­ter com­pe­ti­ti­vo

Os acor­dos comer­ci­ais repre­sen­tam a união de dois ou mais paí­ses que se asso­ci­am com dife­ren­tes fina­li­da­des, entre elas, a isen­ção de tari­fas alfan­de­gá­ri­as, incen­ti­vo e des­bu­ro­cra­ti­za­ção das tro­cas de comér­cio e ampli­a­ção e aces­so ao mer­ca­do para pro­du­tos com capa­ci­da­de real ou poten­ci­al de expor­ta­ção.

Exis­tem vári­os acor­dos comer­ci­ais no mun­do, e um dos prin­ci­pais é a União Euro­peia, que hoje con­gre­ga 27 paí­ses; o Naf­ta, entre Esta­dos Uni­dos, Cana­dá e Méxi­co; o Mer­co­sul, que une comer­ci­al­men­te Bra­sil, Argen­ti­na, Uru­guai, Para­guai e Vene­zu­e­la. Na figu­ra 1 estão des­ta­ca­dos 17 acor­dos comer­ci­ais em dife­ren­tes regiões do mun­do, e se obser­va que a gran­de mai­o­ria dos paí­ses faz par­te de algum tipo de acor­do.

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Em outu­bro de 2015 foi fir­ma­do mais um acor­do comer­ci­al, o Trans­pa­cí­fi­co, que con­gre­ga doze paí­ses banha­dos pelo Oce­a­no Pací­fi­co. Da Ásia, fazem par­te: Japão, Bru­nei, Malá­sia, Cin­ga­pu­ra e Viet­nã; da Amé­ri­ca do Nor­te: Cana­dá, Esta­dos Uni­dos e Méxi­co; da Amé­ri­ca do Sul: Peru e Chi­le; da Oce­a­nia: Aus­trá­lia e Nova Zelân­dia.

Esse gru­po reú­ne três gran­des potên­ci­as mun­di­ais: Esta­dos Uni­dos, Cana­dá e Japão, e paí­ses com eco­no­mi­as aber­tas e mui­to inse­ri­das no comér­cio mun­di­al, como Malá­sia e Cin­ga­pu­ra. Nes­se gru­po tam­bém estão pre­sen­tes paí­ses emer­gen­tes, como Chi­le e Méxi­co.

Esse novo acor­do pode mudar o comér­cio mun­di­al por ter outras fina­li­da­des, além do pró­prio comér­cio entre eles.

Pre­vê a inte­gra­ção econô­mi­ca dos paí­ses-mem­bros com a eli­mi­na­ção ou redu­ção das tari­fas e outras bar­rei­ras comer­ci­ais; a cri­a­ção de regras comuns de pro­pri­e­da­de inte­lec­tu­al de pro­du­tos e tec­no­lo­gi­as; a padro­ni­za­ção das leis tra­ba­lhis­tas, garan­tin­do os padrões de tra­ba­lho nos paí­ses asiá­ti­cos para evi­tar a migra­ção; o desen­vol­vi­men­to de ações ambi­en­tais comuns com foco na sus­ten­ta­bi­li­da­de e inves­ti­men­tos nos paí­ses-mem­bros para aumen­tar a inte­gra­ção econô­mi­ca.

Trans­pa­cí­fi­co: Dez anos de nego­ci­a­ções
Os paí­ses asso­ci­a­dos ao Trans­pa­cí­fi­co somam apro­xi­ma­da­men­te 40% de toda a eco­no­mia mun­di­al, um ter­ço de todas as expor­ta­ções, um mer­ca­do con­su­mi­dor de 800 milhões de pes­so­as, e pre­ten­dem movi­men­tar, até 2025, cer­ca de US$ 223 bilhões por ano.

Como esse acor­do atin­ge vári­os seto­res da eco­no­mia dos paí­ses envol­vi­dos, foram neces­sá­ri­os qua­se 10 anos de nego­ci­a­ções secre­tas entre os paí­ses-mem­bros do blo­co para que se che­gas­se ao docu­men­to que o legi­ti­mou, assi­na­do no dia 4 de feve­rei­ro des­te ano.

O acor­do ain­da é mui­to recen­te e é pre­ma­tu­ro pre­ver quais serão as con­sequên­ci­as dele para o comér­cio mun­di­al, mas as pers­pec­ti­vas econô­mi­cas para os paí­ses-mem­bros são bas­tan­te oti­mis­tas. Estu­di­o­sos acre­di­tam que a cri­a­ção do blo­co foi uma rea­ção ao cres­ci­men­to econô­mi­co chi­nês, para limi­tar a influên­cia da Chi­na no con­ti­nen­te asiá­ti­co e dimi­nuir a pre­sen­ça dos pro­du­tos chi­ne­ses no mer­ca­do glo­bal.

Já os paí­ses euro­peus, que depen­dem de uma mai­or inte­ra­ção econô­mi­ca com os Esta­dos Uni­dos e com paí­ses do sudes­te asiá­ti­co para supe­rar a cri­se, estão mui­to aten­tos às con­sequên­ci­as des­se novo blo­co.

Os paí­ses uni­dos nes­se blo­co econô­mi­co dão um exem­plo nas rela­ções comer­ci­ais, enquan­to o Bra­sil está para­li­sa­do nas nego­ci­a­ções inter­na­ci­o­nais em rela­ção às dis­cus­sões sobre a Alca, que reu­ni­ria os Paí­ses da Amé­ri­ca do Sul, Cen­tral e do Nor­te, mas as ini­ci­a­ti­vas não foram con­cre­ti­za­das; isso é gra­ve e terá refle­xos a ausên­cia do Bra­sil.

Chan­ces do lei­te no mun­do glo­ba­li­za­do
No mer­ca­do de lác­te­os, a par­ti­ci­pa­ção do blo­co do Trans­pa­cí­fi­co é sig­ni­fi­ca­ti­va, seja na ofer­ta ou na deman­da de pro­du­tos. Os paí­ses-mem­bros pro­du­zem 20% do volu­me mun­di­al de lei­te, sen­do os Esta­dos Uni­dos res­pon­sá­veis por 60% des­se total, e a Nova Zelân­dia, que é a mai­or par­ti­ci­pan­te no mer­ca­do inter­na­ci­o­nal, tem volu­me apro­xi­ma­do de 19 bilhões de litros.

Fazem par­te des­se blo­co paí­ses com alta deman­da de lác­te­os, com pro­du­ção mui­to bai­xa em rela­ção à popu­la­ção, como é o caso do Japão, Méxi­co, Cin­ga­pu­ra, Viet­nã e Peru, que se carac­te­ri­zam como impor­ta­do­res. O mer­ca­do con­su­mi­dor, supe­ri­or a 800 milhões de pes­so­as, pro­duz, em média, 188 litros/ano por habi­tan­te, como se obser­va na tabe­la 1.

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Os gran­des pro­du­to­res e expor­ta­do­res de lác­te­os, como Nova Zelân­dia, Esta­dos Uni­dos, Cana­dá e Aus­trá­lia, terão van­ta­gens sobre os pro­du­tos bra­si­lei­ros para mer­ca­dos fecha­dos como Japão, Viet­nã e Malá­sia, que são inte­gran­tes do blo­co.

O acor­do comer­ci­al bra­si­lei­ro se res­trin­ge ao Mer­co­sul, onde Argen­ti­na e Uru­guai são expor­ta­do­res, e Bra­sil, Para­guai e Vene­zu­e­la são impor­ta­do­res de lác­te­os. Con­si­de­ran­do que a mai­or par­te do comér­cio mun­di­al ocor­re via acor­dos bila­te­rais, é pre­men­te um gran­de esfor­ço bra­si­lei­ro para aces­sar novos mer­ca­dos, e a cri­a­ção de acor­dos comer­ci­ais para aumen­tar a com­pe­ti­ti­vi­da­de do Bra­sil e se tor­nar um país impor­tan­te no mer­ca­do mun­di­al.

Esta­mos viven­do num mun­do glo­ba­li­za­do, onde a bus­ca por par­ce­ria e união é o cami­nho para a sobre­vi­vên­cia. Nes­se sen­ti­do, res­ta­be­le­cer a eco­no­mia e for­ta­le­cer os acor­dos econô­mi­cos pode repre­sen­tar o suces­so do setor lei­tei­ro bra­si­lei­ro.

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