O pre­ço rece­bi­do pelos pro­du­to­res sobe pelo segun­do mês con­se­cu­ti­vo, seguin­do o rit­mo de que­da na pro­du­ção de lei­te no cam­po. Porém, a deman­da enfra­que­ci­da por gran­de par­te dos deri­va­dos lác­te­os tem repri­mi­do o aumen­to dos pre­ços da maté­ria-pri­ma.

Segun­do pes­qui­sas do Cepea-Cen­tro de Estu­dos Avan­ça­dos em Eco­no­mia Apli­ca­da, da Esalq/USP, o pre­ço médio rece­bi­do pelo pro­du­tor na “média Bra­sil” (sem fre­te e impos­tos) foi de R$ 1,2326/litro, cres­ci­men­to de 1,4% (ou de 1,7 cen­ta­vos) em rela­ção a feve­rei­ro. No mês ante­ri­or, a valo­ri­za­ção foi de 1,9% (ou de 2,3 cen­ta­vos). Quan­do com­pa­ra­da com o mes­mo perío­do do ano pas­sa­do o aumen­to real é de 13,4% (valo­res defla­ci­o­na­dos pelo IPCA de fevereiro/17).

O pre­ço bru­to médio do lei­te (que inclui fre­te e impos­tos) tam­bém subiu 1,4% de um mês para outro, pas­san­do para R$ 1,3405/litro. As médi­as cal­cu­la­das pelo Cepea são pon­de­ra­das pelo volu­me cap­ta­do em feve­rei­ro nos esta­dos de GO, MG, PR, RS, SC, SP e BA.

Segun­do os cola­bo­ra­do­res, a melho­ra na deman­da que deve­ria ocor­rer com o fim das féri­as esco­la­res está abai­xo do espe­ra­do. E com a maté­ria-pri­ma valo­ri­za­da no cam­po, o repas­se des­se aumen­to para o con­su­mi­dor tem difi­cul­ta­do bas­tan­te as ven­das. Resul­ta­do dis­so é a for­ma­ção de esto­ques de alguns deri­va­dos (prin­ci­pal­men­te os quei­jos mus­sa­re­la e pra­to) e uma mai­or pres­são nos pre­ços por par­te do con­su­mi­dor.

A cap­ta­ção de lei­te con­ti­nu­ou em que­da, pelo ter­cei­ro mês segui­do, em todos dos esta­dos ana­li­sa­dos, refle­tin­do o adi­an­ta­men­to do perío­do da entres­sa­fra. De feve­rei­ro para mar­ço, o Índi­ce de Cap­ta­ção de Lei­te do Cepea dimi­nuiu 3,1%, com des­ta­que para Minas Gerais e San­ta Cata­ri­na, com sig­ni­fi­ca­ti­vas que­das de 5,05% e 3,98%, res­pec­ti­va­men­te. Para os agen­tes de mer­ca­do, o aumen­to dos pre­ços só não foi menor devi­do à com­pe­ti­ção por alguns pro­du­to­res que con­ti­nua acir­ra­da em algu­mas regiões pro­du­to­ras.

Para abril, repre­sen­tan­tes de laticínios/cooperativas con­sul­ta­dos pelo Cepea apon­tam novo aumen­to nos pre­ços do lei­te, porém as pos­si­bi­li­da­des de esta­bi­li­da­de no cur­to-médio pra­zo ganham for­ça por con­ta da cita­da deman­da enfra­que­ci­da.  No mer­ca­do de deri­va­dos, uma ligei­ra melho­ra na deman­da na segun­da quin­ze­na do mês de mar­ço per­mi­tiu o avan­ço dos pre­ços na média men­sal.

Os esto­ques de quei­jo mus­sa­re­la ain­da pre­o­cu­pam os agen­tes de mer­ca­do, porém o leve aumen­to nas ven­das con­tri­bui posi­ti­va­men­te para as expec­ta­ti­vas do pró­xi­mo mês. Os pre­ços médi­os do lei­te UHT e do quei­jo mus­sa­re­la nego­ci­a­dos no ata­ca­do de São Pau­lo em foram de R$ 2,59/litro e R$ 15,16/kg, res­pec­ti­va­men­te, aumen­tos de 4,8% e 1,9% em rela­ção às médi­as de feve­rei­ro.

Sinais de recu­pe­ra­ção nos pre­ços
“Com a pro­du­ção em que­da nas prin­ci­pais regiões pro­du­to­ras, aumen­ta a con­cor­rên­cia entre os lati­cí­ni­os pela cap­ta­ção de lei­te cru”, con­ta o ana­lis­ta de mer­ca­do da Scot Con­sul­to­ria, Rafa­el Ribei­ro. “Os pre­ços dos lác­te­os estão fir­mes e em alta no ata­ca­do”, cita ele. O movi­men­to de alta no pre­ço do lei­te ao pro­du­tor e demais elos (ata­ca­do e vare­jo) deve­rá ganhar for­ça com a entres­sa­fra no Bra­sil Cen­tral e região Sudes­te.

Refor­çan­do tal ten­dên­cia, dados do Milk­Point Radar refor­çam os sinais de aumen­to nos pre­ços líqui­dos rece­bi­dos pelos pro­du­to­res. Ao ana­li­sar os núme­ros do gru­po de par­ti­ci­pan­tes do apli­ca­ti­vo refe­ren­tes ao paga­men­to de mar­ço (com for­ne­ci­men­to de lei­te em feve­rei­ro) apon­ta­va um pre­ço líqui­do médio de R$ 1,3628/litro, cer­ca de 2 cen­ta­vos mais alto do que o de feve­rei­ro, para os mes­mos pro­du­to­res.

No mer­ca­do spot, os pre­ços tam­bém subi­ram na pri­mei­ra quin­ze­na de mar­ço. Ribei­ro reve­la que os negó­ci­os ocor­re­ram, em média, a R$ 1,502 por litro, pos­to na pla­ta­for­ma, mas que os mai­o­res valo­res che­ga­ram a R$ 1,650. “Hou­ve alta de 7% na com­pa­ra­ção com a segun­da quin­ze­na de feve­rei­ro des­te ano. O pre­ço vigen­te está 14% aci­ma da média do mes­mo perío­do de 2016”, cita ele.

Em Minas Gerais e em Goiás, os pre­ços médi­os fica­ram em R$ 1,492 e R$ 1,368 por litro, res­pec­ti­va­men­te. A pro­du­ção naci­o­nal está em que­da des­de o final de 2016 nas prin­ci­pais baci­as lei­te­ri­as do país, o que aumen­ta a con­cor­rên­cia por maté­ria-pri­ma pelos lati­cí­ni­os. Daí a valo­ri­za­ção do lei­te comer­ci­a­li­za­do entre indús­tri­as. Em cur­to e médio pra­zos, a expec­ta­ti­va é de alta do lei­te no mer­ca­do spot, assim como para o pro­du­tor.

Bai­xa no mer­ca­do e nos cus­tos
Juli­a­na Pila, ana­lis­ta de mer­ca­do da Scot Con­sul­to­ria, reve­la expec­ta­ti­va de pre­ços pra­ti­ca­men­te está­veis para o lei­te em pó até agos­to no mer­ca­do inter­na­ci­o­nal. Como refe­rên­cia, ela uti­li­za a cota­ção obti­da no lei­lão do últi­mo dia 21 de mar­ço na pla­ta­for­ma Glo­bal Dairy Tra­de, refe­rên­cia no mer­ca­do inter­na­ci­o­nal. Em média, os pro­du­tos lác­te­os fica­ram cota­dos em US$ 3.101 por t. O lei­te em pó inte­gral foi nego­ci­a­do, em média, por US$ 2.855 por t, fren­te ao US$ 2.782 na quin­ze­na ante­ri­or.

O volu­me de ven­das de pro­du­tos lác­te­os tota­li­zou 22.498 t no cita­do lei­lão, 10,3% a mais que o volu­me comer­ci­a­li­za­do em igual perío­do do ano pas­sa­do. “Até agos­to, as cota­ções deve­rão vari­ar entre US$ 2.841 e US$ 2.857 por t”, diz ela. Na con­tra­mão des­sa ten­dên­cia ficou o caso do lei­te em pó des­na­ta­do, cujo pre­ço médio obti­do foi de US$ 1.948 por t, uma expres­si­va que­da de 10,1%, fren­te ao lei­lão ante­ri­or, o que puxou o valor médio dos lác­te­os para bai­xo.

Já sobre os cus­tos de pro­du­ção do lei­te por aqui, as aná­li­ses do Cepea e da Embra­pa indi­cam que ini­ci­a­ram 2017 em que­da, dan­do con­ti­nui­da­de ao movi­men­to obser­va­do des­de setembro/16. O cus­to ope­ra­ci­o­nal efe­ti­vo, que con­si­de­ra os gas­tos cor­ren­tes da pro­pri­e­da­de, caiu 0,68%, enquan­to o cus­to ope­ra­ci­o­nal total, que englo­ba pró-labo­re e depre­ci­a­ções, 0,48% em janei­ro, em rela­ção ao mês ante­ri­or.

A pres­são veio prin­ci­pal­men­te dos con­cen­tra­dos, que se des­va­lo­ri­za­ram 2,3% em igual com­pa­ra­ti­vo. O prin­ci­pal moti­vo para esta retra­ção nos cus­tos se deu pela que­da de pre­ços na ração para vaca e nos fare­los de soja, milho, tri­go e algo­dão. Isto fez com que o gru­po de con­cen­tra­dos tives­se que­da de ‑3,05% no mês. O gru­po pro­du­ção e com­pra de volu­mo­sos, tam­bém apre­sen­tou que­da de ‑1,18%, dada a redu­ção do cus­to de sila­gem.

Por outro lado, o rea­jus­te médio de 6,47% no salá­rio míni­mo naci­o­nal limi­tou as que­das nos cus­tos. Ape­sar da que­da nos desem­bol­sos meno­res, a deman­da por insu­mos segue enfra­que­ci­da, refle­tin­do a redu­ção na pro­du­ção de lei­te, decor­ren­te do cli­ma adver­so – seca em dezembro/16 e chu­vas em exces­so em janeiro/17.

Por fim, o IBGE-Ins­ti­tu­to Bra­si­lei­ro de Geo­gra­fia e Esta­tís­ti­ca divul­gou no dia 15 de mar­ço os dados da Pes­qui­sa Tri­mes­tral do Lei­te, refe­ren­te ao volu­me de lei­te adqui­ri­do pelos lati­cí­ni­os com ins­pe­ção. Entre outu­bro e dezem­bro do ano pas­sa­do foram cap­ta­dos 6,24 bilhões de litros de lei­te no país, 0,8% menos na com­pa­ra­ção com igual perío­do de 2015. No acu­mu­la­do de 2016, o volu­me tota­li­zou 23,17 bilhões de litros de lei­te. Hou­ve que­da de 3,7% em rela­ção a cap­ta­ção de 2015.

“Foi o segun­do ano con­se­cu­ti­vo de que­da na pro­du­ção naci­o­nal. Lem­bran­do que em 2015 o volu­me cap­ta­do havia caí­do 2,8% fren­te a 2014. A ofer­ta de lei­te mais res­tri­ta é um fator de sus­ten­ta­ção dos pre­ços no mer­ca­do bra­si­lei­ro”, con­clui Ribei­ro.

Tabe­la 1
Pre­ços pagos pelos lati­cí­ni­os (bru­tos) e rece­bi­dos pelos pro­du­to­res (líqui­do) em MARÇO/17 refe­ren­tes ao lei­te entre­gue em FEVEREIRO/17

tabela1Fon­te: Cepea-Esalq/USP

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