Nos pri­mei­ros seis meses do ano o Bra­sil impor­tou US$ 319,5 milhões em lác­te­os. E des­de o mês pas­sa­do, os argen­ti­nos pas­sa­ram a ter as mes­mas con­di­ções de comér­cio que os uru­guai­os, ou seja, de pou­cas res­tri­ções

No dia 15 de agos­to ocor­reu uma audi­ên­cia públi­ca na Câma­ra dos Depu­ta­dos, orga­ni­za­da pela Co­missão de Agri­cul­tu­ra, Pecuá­ria, Abas­te­ci­men­to e Desen­vol­vi­men­to Rural para deba­ter os pro­ble­mas que afe­tam a cadeia pro­du­ti­va do lei­te, em espe­ci­al, a impor­ta­ção de lei­te e deri­va­dos, os cri­té­ri­os econô­mi­cos ado­ta­dos para a auto­ri­za­ção da impor­ta­ção de lei­te, os impac­tos des­sas polí­ti­cas na cadeia pro­du­ti­va e a per­da de com­pe­ti­ti­vi­da­de do pro­du­to naci­o­nal.

As impor­ta­ções bra­si­lei­ras são prove­nientes majo­ri­ta­ri­a­men­te do Uru­guai e da Argen­ti­na. Nos pri­mei­ros seis meses de 2017 o défi­cit foi de 781 milhões de equi­valentes litros de lei­te, com gas­tos de US$ 319,5 milhões, indi­can­do ten­dên­cia de um ano com com­pras no mer­ca­do internacio­nal mai­o­res que as de 2015, que foram de 653 milhões de litros. As impor­ta­ções de lác­te­os em 2016 foram de 1,644 milhões de equi­va­len­tes litros de lei­te.

No pri­mei­ro semes­tre de 2017, a mai­or impor­ta­ção ocor­reu no mês de janei­ro, com 152 milhões de litros de lei­te, como se obser­va na figu­ra 1, que mos­tra a ba­lança comer­ci­al de lác­te­os no perío­do de janei­ro de 2015 a julho de 2017. O ímpe­to de impor­tar no segun­do semes­tre deve ser arre­fe­ci­do em decor­rên­cia dos pre­ços das prin­ci­pais com­mo­di­ti­es lác­te­as que vêm apre­sen­tan­do ten­dên­cia de alta.


Até julho des­te ano, com­pa­ran­do com as com­pras do pri­mei­ro semes­tre de 2016, decres­ce­ram as com­pras de lei­te em pó em 17% e aumen­ta­ram as com­pras de soro em 13%; man­tei­ga, em 95%; quei­jos, em 5%, e doce de lei­te, em 47%. Na figu­ra 2, se obser­va a quan­ti­da­de de lác­te­os impor­ta­dos no perío­do de 2015 a 2017.


O Uru­guai foi o mai­or for­ne­ce­dor de lei­te em pó, iogur­te e man­tei­ga. Da Ar­gentina, com­prou-se o soro de lei­te em pó e o doce de lei­te. Os quei­jos impor­ta­dos vie­ram da Argen­ti­na (6,2 mil t) e do Uru­guai (5,6 mil t). O lei­te modi­fi­ca­do para ali­men­ta­ção infan­til veio da Ale­ma­nha.

É inte­res­san­te des­ta­car que a interna­lização dos lác­te­os impor­ta­dos, em 2016, cor­res­pon­deu à pro­du­ção de 4,5 milhões de litros de leite/dia e, que equi­va­lem a subs­ti­tuir 4.500 pro­du­to­res com pro­du­ção média diá­ria de 1.000 litros. Este nível de impor­ta­ção, se for man­ti­do por um lon­go perío­do, pode­rá ser mais um fator de es­tímulo de saí­da da ati­vi­da­de, e em cur­to pra­zo, difi­cul­ta as nego­ci­a­ções de pre­ços entre pro­du­tor e indús­tria.

Novo acor­do com argen­ti­nos — No Bra­sil, foram cri­a­das inú­me­ras ins­ti­tui­ções que repre­sen­tam os elos da cadeia pro­du­ti­va do lei­te, além de três minis­té­ri­os que, de algu­ma for­ma, estão pre­o­cu­pa­dos com a com­pe­ti­ti­vi­da­de do setor, que gera em­prego, ren­da, e pro­mo­ve a dis­tri­bui­ção de ren­da. Ape­sar das vári­as ins­ti­tui­ções repre­sen­ta­ti­vas, em alguns momen­tos, agem de for­ma inde­pen­den­te. Na mes­ma sema­na em que na Câma­ra dos Depu­ta­dos se dis­cu­tia a pro­te­ção do setor, prin­ci­pal­men­te da pro­du­ção, o setor indus­tri­al par­ti­ci­pa­va da pro­mo­ção de acor­dos de comer­ci­a­li­za­ção entre Bra­sil e Argen­ti­na.

No dia 17 de agos­to foi divul­ga­do no site da Asso­ci­a­ção de Peque­nas e Médi­as Empre­sas Lác­te­as da Argen­ti­na uma maté­ria sobre um acor­do assi­na­do, no qual os argen­ti­nos podem expor­tar para o Bra­sil com as mes­mas con­di­ções do comér­cio com o Uru­guai, ou seja, pou­cas res­tri­ções. Este acor­do já vinha sen­do nego­ci­a­do há mui­to tem­po e foi uma meta do novo gover­no argen­ti­no.

No acor­do com os argen­ti­nos, ficou defi­ni­do que o pra­zo fina­li­za­rá em 31 de maio de 2018, sem reno­va­ção. A par­tir de agos­to, a cota de expor­ta­ção pode ser de até 5.000 t/mês; se ocor­rer uma necessida­de de aumen­tar o volu­me expor­ta­do, pode ser nego­ci­a­do, como pre­vis­to no acor­do. O Mapa se com­pro­me­teu a atu­ar na simpli­ficação dos trâ­mi­tes jun­to ao Minis­té­rio de Desen­vol­vi­men­to, Indús­tria e Comér­cio, e as cláu­su­las têm o obje­ti­vo de equi­pa­rar as mes­mas con­di­ções cedi­das ao Uru­guai e por par­te dos dois paí­ses, Bra­sil e Argenti­na, have­rá a par­ti­ci­pa­ção do setor pri­va­do nas nego­ci­a­ções.

Os pro­du­to­res bra­si­lei­ros têm con­dições de evo­luir e se tor­na­rem compe­titivos, pois há dis­po­ni­bi­li­da­de de ter­ra para a ali­men­ta­ção do reba­nho e água, além de um mer­ca­do inter­no retraí­do. Na tabe­la 1 se obser­va a deman­da de lei­te com o aumen­to da popu­la­ção, manten­do o mes­mo nível de dis­po­ni­bi­li­da­de e com incre­men­to para 180 e 210 litros/ habitante/ano.


Em 2016 a popu­la­ção foi esti­ma­da em 206,1 milhões de bra­si­lei­ros, e a pro­du­ção de lei­te, em 35,0 bilhões de litros, resul­tan­do em uma dis­po­ni­bi­li­da­de apro­xi­ma­da de 170 litros/habitante/ano. Em 2016, se o con­su­mo fos­se de 180 litros/ano a pro­du­ção deve­ria ter cres­ci­do 5,9% e para um con­su­mo mai­or, de 210 litros/ano, o volu­me deve­ria ter sido de 43,3 bilhões de litros, ou seja, 16,7% de aumen­to na pro­du­ção.

Estes fato­res apon­tam para um ano de 2017 de con­su­mo estag­na­do ou bai­xo e de balan­ça comer­ci­al de lác­te­os defi­citária; isto estres­sa a situ­a­ção deli­ca­da e desa­fi­an­te pela qual pas­sa o setor, nota­da­men­te, os pro­du­to­res, que são o elo mais vul­ne­rá­vel da cadeia.

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