LEITE EM NÚMEROS

João Cesar de Resende

pesquisador da Embrapa Gado de Leite

Evolução do poder de compra do leite de 2019 a 2021

Os núme­ros mos­tram os momen­tos em que os pro­du­to­res de lei­te tive­ram redu­ção ou aumen­to de ren­da líqui­da no período

*Últi­ma colu­na publi­ca­da na edi­ção de junho pelo pes­qui­sa­dor, fale­ci­do na segun­da-fei­ra, 28. Fica nos­sa home­na­gem e sin­ce­ros pêsa­mes aos fami­li­a­res, ami­gos e cole­gas de trabalho 

Nes­ses últi­mos meses, em que o pla­ne­ta está con­vi­ven­do com os impac­tos da pan­de­mia de covid-19, trans­for­ma­ções sig­ni­fi­ca­ti­vas acon­te­ce­ram na eco­no­mia mun­di­al e, em par­ti­cu­lar, na do Bra­sil. Todos os seto­res econô­mi­cos foram afe­ta­dos e, de for­ma mui­to inten­sa, tam­bém o agro­ne­gó­cio. Alguns seto­res saí­ram ven­ce­do­res, enquan­to outros per­de­ram dina­mis­mo. As vari­a­ções dos pre­ços dos pro­du­tos agro­pe­cuá­ri­os refle­ti­ram a inten­si­da­de des­ses efei­tos sobre o setor. Este arti­go ana­li­sa o poder de com­pra da pecuá­ria de lei­te naci­o­nal, toman­do como refe­rên­cia os pre­ços do lei­te pagos ao pro­du­tor e sua rela­ção com os valo­res de insu­mos e ser­vi­ços impor­tan­tes para a ati­vi­da­de e, con­se­quen­te­men­te, para a ren­ta­bi­li­da­de das fazendas.

Os insu­mos sele­ci­o­na­dos foram o milho e o fare­lo de soja, os dois prin­ci­pais ingre­di­en­tes uti­li­za­dos na ali­men­ta­ção con­cen­tra­da do reba­nho. O valor do salá­rio míni­mo foi esco­lhi­do como um refe­ren­ci­al para as des­pe­sas com mão de obra nas fazen­das. Pela meto­do­lo­gia uti­li­za­da pelo ICPLei­te (Índi­ce de Cus­to de Pro­du­ção do Lei­te) cal­cu­la­do e acom­pa­nha­do pela Embra­pa, esses dois com­po­nen­tes, soma­dos, repre­sen­tam 59,6% do cus­to total enfren­ta­do pelas fazen­das, sen­do a par­ti­ci­pa­ção da ali­men­ta­ção con­cen­tra­da de 39,7% e a da mão de obra de 19,9%.

O poder de com­pra do lei­te (ou rela­ção de tro­ca ao pro­du­tor) equi­va­le à quan­ti­da­de de lei­te (em litros) neces­sá­ria para com­prar 60 kg de milho, de fare­lo de soja ou de uma mis­tu­ra com­pos­ta de 70% de milho e 30% de fare­lo de soja. No caso do indi­ca­dor de gas­tos com mão de obra, o poder de com­pra do lei­te equi­va­le à quan­ti­da­de da maté­ria-pri­ma neces­sá­ria para pagar o valor de um salá­rio míni­mo. O perío­do con­si­de­ra­do refe­re-se às médi­as do pri­mei­ro e do segun­do semes­tres de 2019, segui­do dos valo­res men­sais de janei­ro de 2020 a abril de 2021.

Os núme­ros mos­tram os momen­tos em que os pro­du­to­res de lei­te tive­ram redu­ção ou aumen­to de ren­da líqui­da no perío­do. Valo­res mai­o­res (cres­ci­men­to do pre­ço do lei­te menor do que o cres­ci­men­to dos cus­tos) indi­cam momen­tos de redu­ção de ren­da líqui­da e meno­res (cres­ci­men­to do pre­ço do lei­te mai­or do que o cres­ci­men­to dos cus­tos) res­sal­tam os momen­tos de aumen­to de ren­da líqui­da para os pro­du­to­res. Con­si­de­ran­do a rela­ção de tro­ca leite/mistura (quan­ti­da­de de lei­te neces­sá­ria para pagar 60 kg da mis­tu­ra) é pos­sí­vel iden­ti­fi­car três perío­dos dife­ren­tes que se encon­tram ilus­tra­dos gra­fi­ca­men­te na Figu­ra 1.

O perío­do 1, de mar­ço a maio de 2020, com gas­tos entre 48 e 49,2 litros de leite/60kg da mis­tu­ra; o perío­do 2, de junho a setem­bro de 2020, com os gas­tos cain­do para 43,2 a 38,3 litros, e o perío­do 3, de outu­bro de 2020 em dian­te, quan­do a quan­ti­da­de de lei­te neces­sá­ria para com­prar os mes­mos 60 kg da mis­tu­ra vol­ta para 45,9 até 58,4 litros. Assim, sob a óti­ca da rela­ção de tro­ca de litros de lei­te por 60 kg de mis­tu­ra, no pri­mei­ro momen­to da pan­de­mia, os pro­du­to­res per­de­ram par­te de sua ren­da líqui­da; no segun­do recu­pe­ra­ram e, no ter­cei­ro, vol­ta­ram a per­der. Pela Figu­ra 1 é pos­sí­vel obser­var ain­da que, em rela­ção a 2019, essas rela­ções somen­te foram simi­la­res entre julho e setem­bro de 2020. Por outro lado, nos perío­dos 1 e 3, os pro­du­to­res gas­ta­ram mais lei­te para com­prar a mes­ma quan­ti­da­de da mis­tu­ra em com­pa­ra­ção com as médi­as dos dois semes­tres de 2019.

Quan­to ao indi­ca­dor uti­li­za­do para ana­li­sar a vari­a­ção das des­pe­sas com mão de obra nas fazen­das, o salá­rio míni­mo, a Figu­ra 2 ilus­tra as vari­a­ções de for­ma cla­ra. Nes­te caso, três perío­dos tam­bém podem ser iden­ti­fi­ca­dos em ter­mos de quan­ti­da­de de lei­te neces­sá­ria para pagar o valor de um salá­rio míni­mo: perío­do 1, do segun­do semes­tre de 2019 até maio de 2020, gas­to entre 731 e 758 litros; perío­do 2, de junho até dezem­bro de 2020, quan­do a quan­ti­da­de caiu até 541 litros; e o perío­do 3, de janei­ro a abril de 2021, em que a rela­ção vol­tou a subir para 540 a 568 litros. De manei­ra geral, a Figu­ra 2 mos­tra ten­dên­cia de que­da rela­ti­va das des­pe­sas com mão de obra de maio até o fim de 2020. Vol­ta­ram a subir em janei­ro de 2021, com o rea­jus­te anu­al do salá­rio míni­mo, no entan­to, para valo­res médi­os bem meno­res do que no perío­do anterior.

De for­ma geral, nes­se perío­do ana­li­sa­do, o pro­du­tor de lei­te teve uma rela­ção de tro­ca pre­ju­di­ca­da em rela­ção aos insu­mos liga­dos à ali­men­ta­ção con­cen­tra­da em fun­ção dos expres­si­vos aumen­tos de pre­ços inter­na­ci­o­nais e domés­ti­cos do milho e do fare­lo de soja. Por outro lado, os aumen­tos do pre­ço do lei­te con­tri­buí­ram para melho­rar a rela­ção de tro­ca ao pro­du­tor na com­pa­ra­ção com o gas­to em mão de obra, vis­to que, no perío­do, o lei­te regis­trou valo­ri­za­ção supe­ri­or ao rea­jus­te do salá­rio mínimo.

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