Embrapa: sistema reduz carrapato-do-boi em 82% sem usar químicos - Balde Branco

Cha­ma­do de Lone Tick, o sis­te­ma obte­ve resul­ta­dos ini­ci­ais de 82% de redu­ção da popu­la­ção de para­si­tas nos reba­nhos. O tra­ba­lho está sen­do desen­vol­vi­do nos bio­mas Cer­ra­do e Pampa

 
 
 
 
 

Sistema de controle reduz carrapato-do-boi em 82% sem usar químicos 

Um estu­do da Embra­pa rea­li­zou con­tro­le de car­ra­pa­tos em bovi­nos sem o uso de pro­du­tos quí­mi­cos, uti­li­zan­do ape­nas estra­té­gi­as de mane­jo, com os ani­mais em pas­te­jo em dife­ren­tes regiões. Cha­ma­do de Lone Tick, o sis­te­ma obte­ve resul­ta­dos ini­ci­ais de 82% de redu­ção da popu­la­ção de para­si­tas nos reba­nhos. O tra­ba­lho está sen­do desen­vol­vi­do nos bio­mas Cer­ra­do e Pampa.

O tra­ba­lho de pes­qui­sa no Cer­ra­do ava­li­ou duran­te um ano o con­tro­le da infes­ta­ção de car­ra­pa­to Rhi­pi­cepha­lus micro­plus em bovi­nos da raça Sene­pol, no sis­te­ma de mane­jo rota­ci­o­na­do, obten­do uma média de dez car­ra­pa­tos por ani­mal, sem uso de aca­ri­ci­das. “Quan­do há cer­ca de 40 car­ra­pa­tos no ani­mal, sig­ni­fi­ca que tere­mos pro­ble­mas econô­mi­cos no reba­nho”, infor­ma o pes­qui­sa­dor da Embra­pa Gado de Cor­te Rena­to Andre­ot­ti, res­pon­sá­vel pela ati­vi­da­de de con­tro­le do car­ra­pa­to-do-boi sem o uso de aca­ri­ci­das, inse­ri­da no pro­je­to “Pro­du­ção e ava­li­a­ção de antí­ge­no recom­bi­nan­te para uso no con­tro­le do car­ra­pa­to-do-boi com base na vaci­no­lo­gia rever­sa”. “Na raça Sene­pol, sen­sí­vel ao car­ra­pa­to, o pro­je­to obte­ve suces­so. A meta ago­ra é con­se­guir resul­ta­dos seme­lhan­tes na raça Angus — ani­mais pro­du­ti­vos e mais sen­sí­veis ao car­ra­pa­to — e pre­sen­tes em dife­ren­tes regiões do País”, obser­va. O estu­do será rea­li­za­do por, pelo menos, dois anos.

No Pam­pa, o tra­ba­lho foi ini­ci­a­do no segun­do semes­tre de 2021 e têm dado moti­va­ção para os pro­du­to­res: nos pri­mei­ros resul­ta­dos foram regis­tra­dos uma redu­ção de mais da meta­de da popu­la­ção de car­ra­pa­tos. “Ain­da, não pode­mos falar em per­cen­tu­al de redu­ção da popu­la­ção por­que esta­mos no iní­cio do pro­je­to. Tere­mos mais cer­te­zas quan­do fizer­mos pelo menos uma ava­li­a­ção sazo­nal. Mes­mo assim, acre­di­to que o tra­ba­lho está indo mui­to bem, pois os car­ra­pa­tos adul­tos sobre os ani­mais dimi­nuí­ram”, rela­ta o pro­fes­sor Rodri­go Cunha, da Facul­da­de de Medi­ci­na Vete­ri­ná­ria da Uni­ver­si­da­de Fede­ral de Pelo­tas (UFPel), que rea­li­za as cole­tas para ava­li­a­ção do esta­do de saú­de dos ani­mais, por meio de aná­li­ses rea­li­za­das no labo­ra­tó­rio espe­ci­a­li­za­do da Faculdade.

A pre­sen­ça do car­ra­pa­to nos ani­mais faz com que seus agen­tes cau­sem o apa­re­ci­men­to da doen­ça conhe­ci­da como tris­te­za para­si­tá­ria bovi­na (TPB) cau­sa­da pelos agen­tes: Babe­sia bovisBabe­sia bige­mi­na e Ana­plas­ma mar­gi­na­le, o que pode levar os ani­mais à mor­te. Caso não seja ado­ta­do um con­tro­le pelo pro­du­tor, este sofre­rá gran­des pre­juí­zos. “Não se tem regis­tros exa­tos de mor­tes de ani­mais por TPB no País. É impor­tan­te lem­brar que no Sul essa doen­ça pos­sui uma gra­vi­da­de mai­or por ser região de ins­ta­bi­li­da­de enzoó­ti­ca, que sig­ni­fi­ca que os ani­mais estão vul­ne­rá­veis após o inver­no, levan­do a um ris­co de mor­te mai­or”, escla­re­ce Andre­ot­ti res­sal­tan­do a pre­o­cu­pa­ção com a qua­li­da­de­dos ali­men­tos for­ne­ci­dos pela bovinocultura. 

Um agra­van­te do pro­ble­ma vem do melho­ra­men­to gené­ti­co. Os pro­du­to­res de gado de cor­te uti­li­zam cru­za­men­tos com raças mais pro­du­ti­vas para aumen­tar a pro­du­ti­vi­da­de do seu sis­te­ma por meio da pre­co­ci­da­de, qua­li­da­de da car­ne, entre outros fato­res, mas essas raças são mais sen­sí­veis ao car­ra­pa­to. “O reba­nho aca­ba fican­do refém das infes­ta­ções por car­ra­pa­tos, por­que foi pro­du­zi­da uma nova defi­ni­ção gené­ti­ca des­sa popu­la­ção de bovi­nos cru­za­dos em sis­te­mas de pro­du­ção. Esti­ma-se que haja per­da de um gra­ma de car­ne por car­ra­pa­to ao lon­go do ano, por isso se jus­ti­fi­ca eco­no­mi­ca­men­te a neces­si­da­de do con­tro­le”, expli­ca Andreotti. 

Com o gado de lei­te o pro­ble­ma se repe­te. Ani­mais mais pro­du­ti­vos cos­tu­mam tam­bém ser mais sen­sí­veis ao car­ra­pa­to, e isso pro­vo­ca uma per­da anu­al de lei­te de 95 kg por ani­mal, prin­ci­pal­men­te com a raça holan­de­sa e em sis­te­ma de pro­du­ção fami­li­ar, acar­re­tan­do dimi­nui­ção nos lucros.

O pes­qui­sa­dor expli­ca que os ani­mais de raças euro­pei­as e seus cru­za­men­tos são total­men­te depen­den­tes de con­tro­le do car­ra­pa­to para poder expres­sar seu poten­ci­al gené­ti­co pro­du­ti­vo, caso con­trá­rio, cor­re o ris­co de, além de não pro­du­zir, per­der o inves­ti­men­to rea­li­za­do no reba­nho devi­do à mor­ta­li­da­de cau­sa­da pela TPB. “No sis­te­ma Lone Tick, além do con­tro­le não usar aca­ri­ci­da, ele acei­ta a mes­ma car­ga ani­mal do sis­te­ma de pro­du­ção tra­di­ci­o­nal”, comenta.

Controle estratégico do carrapato

A cadeia pro­du­ti­va de bovi­nos usa vari­a­das for­mas para con­tro­le do car­ra­pa­to, como o sis­te­ma tra­di­ci­o­nal, no qual o pro­du­tor defi­ne o pro­du­to aca­ri­ci­da que vai usar no bal­cão da loja de pro­du­tos vete­ri­ná­ri­os, até sis­te­mas sofis­ti­ca­dos com o uso inte­gra­do de prá­ti­cas de con­tro­le — cha­ma­do con­tro­le estra­té­gi­co do car­ra­pa­to — bus­can­do impac­tos mínimos. 

O con­tro­le do car­ra­pa­to com uso de aca­ri­ci­das é a mais usu­al. Mas, tem cau­sa­do vári­os pro­ble­mas para pro­du­ção dos reba­nhos. Por isso, o pro­du­tor precisa:

1)             Conhe­cer a bio­lo­gia do para­si­ta para melhor con­tro­le; isso fará retar­dar o avan­ço da sele­ção de para­si­tas resis­ten­tes, mai­or efi­ci­ên­cia, menor cus­to e menor impac­to no ambi­en­te pela redu­ção da quan­ti­da­de de acaricidas;

2)             Conhe­cer as dife­ren­ças de tem­pe­ra­tu­ra e umi­da­de nos diver­sos ambi­en­tes, ao lon­go do ano, pois há influên­cia na pro­du­ção de gera­ções do para­si­ta e sua população;

3)             Quan­do uti­li­za­dos os aca­ri­ci­das sobre os ani­mais, é pre­ci­so apli­cá-los da for­ma reco­men­da­da, o que não vem sen­do obe­de­ci­do com frequên­cia, pois tem se obser­va­do con­sequên­ci­as como a con­ta­mi­na­ção do ambi­en­te, into­xi­ca­ção das pes­so­as que apli­cam o aca­ri­ci­da e dos pro­du­tos de ori­gem animal. 

Segun­do Andre­ot­ti, o uso inten­si­vo de pro­du­tos quí­mi­cos por dois anos con­se­cu­ti­vos num reba­nho, pode gerar o desen­vol­vi­men­to de resis­tên­cia àque­le para­si­ta. “O car­ra­pa­to pre­ci­sa ser moni­to­ra­do anu­al­men­te, e temos solu­ções tec­no­ló­gi­cas mais efi­ci­en­tes, inclu­si­ve, ofe­re­ce­mos aná­li­ses por meio do Museu do Car­ra­pa­to, site que traz um ban­co de infor­ma­ções sobre os para­si­tas, onde são estu­da­das todas as espé­ci­es que che­gam para aná­li­ses, atra­vés de foto­gra­fi­as e pos­te­ri­or cata­lo­ga­ção”, con­ta o cientista.

O controle Lone Tick

Lone tick, tra­du­zi­do da lín­gua ingle­sa por car­ra­pa­to soli­tá­rio, é um sis­te­ma de con­tro­le sani­tá­rio sem uso de aca­ri­ci­das, ou seja, sem a rea­li­za­ção de con­tro­le quí­mi­co. “Nos­sa inten­ção é apre­sen­tar uma solu­ção glo­bal, pois o car­ra­pa­to é um pro­ble­ma mun­di­al”, des­ta­ca. Ele cita a infes­ta­ção de car­ra­pa­tos na pecuá­ria da Aus­trá­lia, um gran­de mer­ca­do de pro­du­ção de bovi­nos, pas­san­do pela Áfri­ca, Amé­ri­ca do Sul e Amé­ri­ca do Nor­te (Méxi­co e Esta­dos Unidos).

No Lone Tick, muda-se o boi de pas­to, sepa­ran­do o ani­mal do car­ra­pa­to, e alter­nan­do con­se­cu­ti­va­men­te o local de pas­ta­gem do reba­nho. O pes­qui­sa­dor con­ta que o tem­po de uma roda­da de qua­tro pas­ta­gens até ao retor­no à área ini­ci­al é de 112 dias. Esse mane­jo pro­mo­ve um vazio forrageiro/sanitário de 84 dias, no local da pas­ta­gem ini­ci­al, perío­do em que as lar­vas do car­ra­pa­to ficam soli­tá­ri­as e mor­rem por fal­ta de ani­mais no local para se hos­pe­dar e se ali­men­tar. “Ou seja, mata­mos o car­ra­pa­to, sem uti­li­zar pro­du­tos quí­mi­cos”, resume.

O tra­ba­lho com­pre­en­de cin­co eta­pas: con­ta­gem de para­si­tas por ani­mal, a cole­ta de car­ra­pa­tos para veri­fi­ca­ção da resis­tên­cia dos car­ra­pa­tos aos aca­ri­ci­das, cole­ta de san­gue dos ani­mais para ava­li­a­ção da pre­sen­ça dos agen­tes da TPB e para ava­li­a­ção do esta­do de saú­de geral do reba­nho e a pesa­gem dos ani­mais. Em segui­da é rea­li­za­da a rota­ção do lote de ani­mais entre os pique­tes de pas­ta­gens. A cada inter­va­lo de tro­ca de área é pra­ti­ca­do o mes­mo pro­to­co­lo com os ani­mais, repe­tin­do as etapas.

O sis­te­ma foi estu­da­do pri­mei­ro de for­ma expe­ri­men­tal na cida­de de Cam­po Gran­de (MS), região do Cer­ra­do onde duran­te um ano, um gru­po de 37 ani­mais des­ma­ma­dos machos da raça Sene­pol, com infes­ta­ção natu­ral de car­ra­pa­tos, foram divi­di­dos em dois gru­pos, de 21 e 16 ani­mais res­pec­ti­va­men­te, sen­do fei­ta a rota­ção de pas­ta­gem com inter­va­lo de 28 dias e sem a uti­li­za­ção de aca­ri­ci­das. A área, de 32 hec­ta­res, foi divi­di­da em qua­tro pique­tes de oito hec­ta­res, com pas­ta­gem de Bra­chi­a­ria bri­zan­ta, vr. Marandu. 

O pri­mei­ro lote de ani­mais foi intro­du­zi­do na pas­ta­gem no iní­cio do expe­ri­men­to e os ani­mais do segun­do lote, após seis meses. Em cada inter­va­lo foi con­ta­bi­li­za­da a quan­ti­da­de de car­ra­pa­tos nos ani­mais. A média ini­ci­al de 26,2 car­ra­pa­tos no pri­mei­ro mês caiu para 1,5 car­ra­pa­to aos 56 dias. O resul­ta­do se repe­tiu e man­te­ve um bai­xo núme­ro de car­ra­pa­tos nos ani­mais sem uso de aca­ri­ci­das até o fim do experimento. 

O cien­tis­ta con­ta que a manu­ten­ção de uma bai­xa con­ta­gem de car­ra­pa­tos nos ani­mais é dese­já­vel para a manu­ten­ção da esta­bi­li­da­de enzoó­ti­ca dos agen­tes infec­ci­o­sos res­pon­sá­veis pela TPB, ou seja, isto sig­ni­fi­ca que os ani­mais estão pro­te­gi­dos natu­ral­men­te con­tra a doen­ça em fun­ção de esta­rem em con­ta­to per­ma­nen­te com bai­xas quan­ti­da­des de carrapatos.“Com base nos resul­ta­dos demons­tra­dos, con­cluí­mos que a rota­ção com 84 dias de veda­ção dos pique­tes foi efe­ti­va no con­tro­le do car­ra­pa­to sem a uti­li­za­ção de car­ra­pa­ti­ci­das, sen­do pos­sí­vel, nas con­di­ções do bio­ma Cer­ra­do, cri­ar raças mais pro­du­ti­vas e com cus­to menor no con­tro­le do para­si­ta agre­gan­do valor na cadeia pro­du­ti­va”, sali­en­tou Andreotti.

Além dis­so, o reba­nho expe­ri­men­tal obte­ve um ganho de peso médio diá­rio de 0,425 gra­mas duran­te a pes­qui­sa. Na con­ta­gem de car­ra­pa­tos, o pri­mei­ro lote de ani­mais alcan­çou uma média de 6,2 car­ra­pa­tos por ani­mal e o segun­do lote, 10,36 indi­ví­du­os, sem a uti­li­za­ção de aca­ri­ci­das duran­te o experimento.

 

Sistema apresenta controle ecologicamente correto 

Andre­ot­ti comen­ta que um dos gar­ga­los para o suces­so do con­tro­le estra­té­gi­co do car­ra­pa­to com o uso de aca­ri­ci­das é o sur­gi­men­to de car­ra­pa­tos resis­ten­tes, resul­ta­do da pres­são de sele­ção cau­sa­da nas popu­la­ções des­ses para­si­tos exer­ci­da pelo tra­ta­men­to. O sis­te­ma Lone Tick cor­ri­giu a car­ga para­si­tá­ria para con­di­ções ade­qua­das de con­tro­le. “Per­mi­tiu eli­mi­nar a pres­são de sele­ção aos aca­ri­ci­das fun­ci­o­nan­do como área de refú­gio, ou seja, ele eli­mi­na o apa­re­ci­men­to de muta­ções rela­ci­o­na­das com a resis­tên­cia na popu­la­ção de car­ra­pa­tos. O sis­te­ma tra­ba­lha com bai­xa infes­ta­ção de car­ra­pa­tos com redu­ção de impac­to da sua ação e manu­ten­ção da esta­bi­li­da­de enzoó­ti­ca para a TPB. Inclu­si­ve, duran­te um ano de obser­va­ção e moni­to­ra­men­to dos ani­mais, nenhum deles apre­sen­tou sin­to­mas para a doen­ça”, revela.

O suces­so do sis­te­ma Lone Tick, de acor­do com o pes­qui­sa­dor, é por­que o car­ra­pa­to-do-boi com­ple­ta o ciclo de vida no hos­pe­dei­ro em 21 dias, com o ingur­gi­ta­men­to da fêmea e sua que­da ao solo e con­se­quen­te pos­tu­ra de três mil ovos, em média, ini­ci­an­do a fase não para­si­tá­ria. “As lar­vas emer­gem dos ovos e cons­ti­tu­em 95% da popu­la­ção de car­ra­pa­tos no ambi­en­te, sen­do fon­te de rein­fes­ta­ção dos ani­mais, não sen­do alcan­ça­das dire­ta­men­te pelos car­ra­pa­ti­ci­das. A gran­de mai­o­ria das lar­vas do car­ra­pa­to-do-boi não sobre­vi­ve no ambi­en­te por mais de 82,6 dias”, expli­ca Andre­ot­ti a razão do perío­do de vazio sani­tá­rio de 84 dias.

“O sis­te­ma Lone Tick ofe­re­ce uma for­ma de con­tro­le nes­ta fase de vida livre do car­ra­pa­to, com base na rota­ção de pas­ta­gens, per­mi­tin­do um tem­po de 84 dias das lar­vas sem con­ta­to com o hos­pe­dei­ro, tem­po sufi­ci­en­te para a mor­te das lar­vas por ina­ni­ção”, fala. Os resul­ta­dos da pes­qui­sa mos­tram que, com base no conhe­ci­men­to da eco­lo­gia e bio­lo­gia do para­si­ta, é pos­sí­vel con­tro­lar de for­ma eco­lo­gi­ca­men­te cor­re­ta as popu­la­ções des­sa espé­cie de car­ra­pa­to, aten­den­do assim, uma deman­da de mer­ca­do inter­na­ci­o­nal: a dimi­nui­ção do uso de pro­du­tos quí­mi­cos e seus efei­tos colaterais.

A experiência no Sul do Brasil

O pro­je­to está sen­do desen­vol­vi­do tam­bém na região de Pelo­tas (RS), na Embra­pa Cli­ma Tem­pe­ra­do. “Esco­lhe­mos o Rio Gran­de do Sul por dois fato­res: a for­te voca­ção para pecuá­ria de cor­te e de lei­te e a pos­si­bi­li­da­de de ava­li­ar o estu­do em con­di­ções cli­má­ti­cas bem dis­tin­tas da região do Cer­ra­dos”, jus­ti­fi­ca Andreotti.

Em mar­ço des­te ano, a equi­pe do Pro­je­to rea­li­zou um even­to onli­ne no canal da Embra­pa no You­Tu­be, a live Mane­jo do Car­ra­pa­to-do-boi sem pes­ti­ci­das com a par­ti­ci­pa­ção de Andre­ot­ti e o exten­si­o­nis­ta Hec­tor Sil­va Diaz, da Ema­ter/RS-Ascar.

A Fazenda Martimar

A uni­da­de de pes­qui­sa expe­ri­men­tal é a Fazen­da Mar­ti­mar, loca­li­za­da em Can­gu­çu (RS), de pro­pri­e­da­de de Már­cia Duar­te, com 710 hec­ta­res. “Ao se alcan­çar resul­ta­dos posi­ti­vos com este novo sis­te­ma de mane­jo de con­tro­le do car­ra­pa­to, abri­mos uma alter­na­ti­va de migra­ção para uma pecuá­ria orgâ­ni­ca, o que será ampli­a­do para toda a pro­du­ção pecuá­ria da fazen­da, sen­do viá­vel a eli­mi­na­ção do con­tro­le quí­mi­co no car­ra­pa­to, ou ain­da, dimi­nuir a infes­ta­ção pelo para­si­ta”, con­ta Duarte.

O estu­do do sis­te­ma Lone Tick na pro­pri­e­da­de, segue o mes­mo for­ma­to da uni­da­de de pes­qui­sas na região dos Cer­ra­dos ao uti­li­zar a mes­ma medi­da de área e estra­té­gi­as de mane­jo dos ani­mais. A dife­ren­ça no Sul está na ava­li­a­ção de 15 ani­mais, vacas de cria, com uso de cam­po nati­vo com intro­du­ção de aze­vém nos pique­tes rota­ci­o­na­dos, sem adu­ba­ção quí­mi­ca. “Não tive­mos nenhu­ma mudan­ça de pla­nos para ins­ta­la­ção da tec­no­lo­gia de mane­jo em nos­sa pro­pri­e­da­de rural, con­se­gui­mos com êxi­to fazer todo o pla­ne­ja­men­to da área”, comentou.

Um dos rela­tos fei­to pela pro­du­to­ra rural foi a cons­ta­ta­ção de que ani­mais ‘car­ra­pa­te­a­dos’ têm per­da sig­ni­fi­ca­ti­va de peso. Assim, além do foco do pro­je­to é bus­car a eli­mi­na­ção ou a redu­ção ao máxi­mo de para­si­tas sem pro­du­tos quí­mi­cos, a nutri­ção dos bovi­nos pre­ci­sa ser satisfatória. 

Segun­do o exten­si­o­nis­ta da Ema­ter/RS-Ascar, James Pure­za, foi fei­ta uma cole­ta de cam­po nati­vo três meses antes de intro­du­zir os ani­mais na área rota­ci­o­na­da do Pro­je­to. Um dos pon­tos a ser veri­fi­ca­do pelo estu­do é o ajus­te da car­ga de ani­mais sob a área de pas­te­jo nos pique­tes expe­ri­men­tais. “Ini­ci­a­mos numa área de pas­te­jo de cam­po nati­vo que pro­du­zi­ria um volu­me para man­ter os ani­mais duran­te toda a dura­ção do Pro­je­to, ten­do alcan­ça­do cer­ca de 3,6 mil kg de maté­ria ver­de e 36% de maté­ria seca, supo­mos que o reba­nho con­su­mi­rá entre 8% e 10% do peso vivo/animal, mas tere­mos que ir ajus­tan­do ao lon­go do desen­vol­vi­men­to do estu­do”, disse.

Ele expli­ca que o tra­ba­lho bus­ca o con­tro­le do car­ra­pa­to, mas a con­di­ção nutri­ci­o­nal dos ani­mais infes­ta­dos dá a eles con­di­ções de enfren­ta­rem melhor o seu esta­do geral de saú­de. Assim, rea­li­zar o pla­ne­ja­men­to de pas­ta­gens com ante­ce­dên­cia é um fator impor­tan­te, pois o pro­je­to uti­li­za o mane­jo rota­ci­o­na­do, que dá ao gado um melhor apro­vei­ta­men­to da área de pas­te­jo, man­ten­do sem­pre com níveis de nutri­ção satis­fa­tó­ri­os. “Os pique­tes sepa­ra­dos com a car­ga ani­mal com­pa­tí­vel, o gado fica con­di­ci­o­na­do a este espa­ço, onde cami­nham menos, des­pen­dem menos ener­gia, com aces­so a água e comi­da à von­ta­de naque­le espa­ço, apro­vei­tan­do melhor o pas­to, sem dei­xar mui­tas sobras de ali­men­to, assim as chan­ces de manu­ten­ção, ou até ganho de peso dos ani­mais, pode ser a ide­al ou supe­ri­or às expec­ta­ti­vas”, esclareceu. 

Resultados promissores

Os resul­ta­dos ini­ci­ais foram colhi­dos na pri­mei­ra sema­na de setem­bro, mos­tran­do-se pro­mis­so­ra a estra­té­gia de mane­jo. “Encon­tra­mos pouquís­si­mos car­ra­pa­tos, sem ver­mes e sem agen­tes de TPB”, infor­ma o pro­fes­sor Rodri­go Cunha.

A téc­ni­ca de labo­ra­tó­rio Jaque­li­ne Caval­can­te Bar­ros, da Embra­pa Gado de Cor­te, res­pon­sá­vel pela cata­lo­ga­ção de dados do Pro­je­to, dis­se que na con­ta­gem de car­ra­pa­tos em agos­to, a média foi de 93 para­si­tas por ani­mal. Após a ins­ta­la­ção do pro­je­to, a pri­mei­ra con­ta­gem apre­sen­tou 37 car­ra­pa­tos por ani­mal, uma boa indi­ca­ção para redu­ção ini­ci­al da apli­ca­ção da tecnologia.

O pes­qui­sa­dor Andre­ot­ti afir­ma que os resul­ta­dos pre­li­mi­na­res de ins­ta­la­ção da tec­no­lo­gia são pro­mis­so­res. “Ain­da pre­ci­sa­mos expe­ri­men­tar a tec­no­lo­gia nos pró­xi­mos meses de verão no Sul para conhe­cer a pres­são da tem­pe­ra­tu­ra e umi­da­de da esta­ção para veri­fi­car os desa­fi­os ambi­en­tais para se fazer uma ava­li­a­ção mais madu­ra do sis­te­ma nes­ta região, ana­li­san­do o esta­do de equi­lí­brio entre aspec­tos nutri­ci­o­nais dos ani­mais nos pique­tes e a car­ga para­si­tá­ria”, anuncia.

Fon­te: Embra­pa Cli­ma Temperado

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