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O rou­bo de agroquí­mi­cos fomen­ta a fal­si­fi­ca­ção, pois as qua­dri­lhas inclu­em peque­nas quan­ti­da­des do ingre­di­en­te ati­vo nos pro­du­tos, mas insu­fi­ci­en­tes para o con­tro­le de pra­gas, doen­ças e plan­tas daninhas

Defensivos agrícolas ilegais: riscos e consequências

Por Fer­nan­do Mari­ni, con­sul­tor da FEH­MAR Con­sul­to­ria Empresarial 

José Otá­vio Men­ten, Pre­si­den­te do Con­se­lho Cien­tí­fi­co Agro Sus­ten­tá­vel (CCAS), Eng. Agrô­no­mo e Pro­fes­sor Sêni­or da ESALQ/USP

 

 

O AGRO NÃO PARA! Esta foi a fra­se mais escri­ta e fala­da em 2020. Mas, por infe­li­ci­da­de, as ati­vi­da­des ilí­ci­tas com insu­mos agrí­co­las tam­bém não pararam.

Recen­tes casos de apre­en­sões rea­li­za­das pelas auto­ri­da­des bra­si­lei­ras de defen­si­vos agrí­co­las quí­mi­cos e bio­ló­gi­cos, fer­ti­li­zan­tes e semen­tes pira­tas e as quan­ti­da­des dos pro­du­tos apre­en­di­dos sur­pre­en­dem pelo poten­ci­al de cau­sar gran­des pre­juí­zos aos agri­cul­to­res que adqui­rem estes insu­mos. Um mer­ca­do que está em fran­co cres­ci­men­to, como o de pro­du­tos bio­ló­gi­cos, pode ser afe­ta­do pela comer­ci­a­li­za­ção de pro­du­tos que não vão con­tro­lar as pragas-alvo.

Os defen­si­vos agrí­co­las con­tra­ban­de­a­dos são aque­les que são tra­zi­dos de outros paí­ses para o Bra­sil, sem auto­ri­za­ção das auto­ri­da­des. Não foram ana­li­sa­dos pelos Minis­té­rio da Agri­cul­tu­ra, ANVI­SA e IBA­MA, e, por­tan­to, não pos­su­em regis­tro no país. Já os pro­du­tos fal­si­fi­ca­dos são aque­les que são regu­lar­men­te regis­tra­dos no Bra­sil, porém, são frau­da­dos por não con­te­rem as con­cen­tra­ções do ingre­di­en­te ati­vo registrado.

O rou­bo de agroquí­mi­cos fomen­ta a fal­si­fi­ca­ção, pois as qua­dri­lhas inclu­em peque­nas quan­ti­da­des do ingre­di­en­te ati­vo nos pro­du­tos, mas insu­fi­ci­en­tes para o con­tro­le de pra­gas, doen­ças e plan­tas daninhas.

O rou­bo de defen­si­vos agrí­co­las das pro­pri­e­da­des rurais teve aumen­to de gran­des pro­por­ções nos últi­mos anos, tra­zen­do pâni­co ao cam­po. Era espe­ra­do que, com o fecha­men­to das fron­tei­ras com o Para­guai e Uru­guai, have­ria uma dimi­nui­ção do con­tra­ban­do de pes­ti­ci­das, mas não é o que está ocor­ren­do; as apre­en­sões nes­te ano tive­ram um expres­si­vo cres­ci­men­to, de acor­do com dados divul­ga­dos pela Polí­cia Rodo­viá­ria Federal.

O uso des­tes pro­du­tos pode cau­sar gran­des per­das aos pro­du­to­res pelo mau fun­ci­o­na­men­to, cau­san­do fito­to­xi­ci­da­de às plan­tas, fal­ta de con­tro­le dos pro­ble­mas nas lavou­ras, ris­co à saú­de huma­na e con­ta­mi­na­ção do meio ambi­en­te, ten­do em vis­ta que não pas­sa­ram pelo cri­vo das auto­ri­da­des res­pon­sá­veis pelo regis­tro des­tes pro­du­tos no Bra­sil. O des­car­te das emba­la­gens não pode ser rea­li­za­do nos pos­tos e cen­trais de rece­bi­men­to de emba­la­gens vazi­as; assim, estas emba­la­gens são quei­ma­das, enter­ra­das ou des­car­ta­das em estra­das, rios e lagos. 

A per­da de arre­ca­da­ção de tri­bu­tos pelo poder públi­co e os ris­cos para a pau­ta de expor­ta­ção do agro­ne­gó­cio bra­si­lei­ro são moti­vo de gran­de pre­o­cu­pa­ção para a soci­e­da­de. Esti­ma-se que, atu­al­men­te, o mer­ca­do de defen­si­vos ile­gais no Bra­sil, con­tra­ban­do, fal­si­fi­ca­ção e rou­bo de pro­du­tos che­gue a 23% do mer­ca­do, que repre­sen­ta, em valo­res, apro­xi­ma­da­men­te, US$ 3,15 bilhões, toman­do-se por base as ven­das rea­li­za­das no ano de 2019.

Os pro­du­to­res ruri­as, duran­te a pan­de­mia da Covid-19, garan­ti­ram o for­ne­ci­men­to de ali­men­tos para os con­su­mi­do­res bra­si­lei­ros e de outros paí­ses, não haven­do fal­ta de pro­du­tos nas pra­te­lei­ras. Ali­men­tos segu­ros para o con­su­mo vêm sen­do uma exi­gên­cia dos con­su­mi­do­res em nível mun­di­al e, aqui no Bra­sil, não é dife­ren­te, com a bus­ca de ali­men­ta­ção saudável.

Com a qua­ren­te­na por cau­sa do novo Coro­na­ví­rus, as pes­so­as, tra­ba­lhan­do em home offi­ce, pas­sa­ram a pre­pa­rar sua ali­men­ta­ção em casa, ocor­ren­do aumen­to do con­su­mo de pro­du­tos in natu­ra, e a qua­li­da­de é um item pri­má­rio na deci­são de com­pra pelo con­su­mi­dor. Esta qua­li­da­de pode ser com­pro­me­ti­da com o uso de agroquí­mi­cos ile­gais nas lavouras.

Um dos prin­ci­pais moti­vos ale­ga­dos para a aqui­si­ção de pes­ti­ci­das con­tra­ban­de­a­dos é o cus­to mais bai­xo que os pro­du­tos naci­o­nais. Porém, mui­tos des­tes pro­du­tos ile­gais não pos­su­em a qua­li­da­de dos que são comer­ci­a­li­za­dos no país. Em uma apre­en­são no esta­do do Para­ná, o pro­du­to con­tra­ban­de­a­do foi ana­li­sa­do e foram encon­tra­dos 25 tipos dife­ren­tes de ingre­di­en­tes ati­vos de inse­ti­ci­das, fun­gi­ci­das e her­bi­ci­das. Caso o pro­du­to fos­se apli­ca­do em lavou­ras cau­sa­ria a mor­te das plan­tas tra­ta­das; nes­tes casos, os agri­cul­to­res não têm para quem recla­mar, ten­do gran­des pre­juí­zos econômicos.

As cam­pa­nhas con­tra os defen­si­vos agrí­co­las ile­gais no Bra­sil têm como esco­po a pre­ven­ção ao uso des­tes pro­du­tos, reco­men­dan­do aos agri­cul­to­res a aqui­si­ção dos insu­mos somen­te em canais de con­fi­an­ça como reven­de­do­res, coo­pe­ra­ti­vas e dire­ta­men­te das indús­tri­as fabri­can­tes, sem­pre acom­pa­nha­dos dos docu­men­tos exi­gi­dos por lei, da nota fis­cal com a res­pec­ti­va recei­ta agronô­mi­ca pres­cri­ta por um pro­fis­si­o­nal habi­li­ta­do, e com o local para devo­lu­ção das emba­la­gens vazi­as indi­ca­do na nota fiscal.

Esta pre­ven­ção evi­ta que os agri­cul­to­res cor­ram o ris­co de serem autu­a­dos pelas auto­ri­da­des poli­ci­ais e de fis­ca­li­za­ção agro­pe­cuá­ria, pois o con­tra­ban­do e a fal­si­fi­ca­ção de defen­si­vos agrí­co­las são cri­mes pre­vis­tos na Lei dos Agro­tó­xi­cos (Lei 7.802/89), Lei dos Cri­mes Ambi­en­tais (Lei 9.605/98), Cri­me de Con­tra­ban­do (Arti­go 334ª do Códi­go Penal), for­ma­ção de qua­dri­lha, lava­gem de dinhei­ro, além de outros enqua­dra­men­tos legais, que levam a con­de­na­ções e, em mui­tos casos, pri­são em regi­me fecha­do. São pre­vis­tas na Lei de Cri­mes ambi­en­tais, a apli­ca­ção de mul­tas pecu­niá­ri­as com valo­res de R$ 500,00 até 2.000.000,00, e o mais gra­ve, a des­trui­ção de lavou­ras onde os pro­du­tos foram apli­ca­dos pelos agri­cul­to­res: “O bara­to pode sair caro”.