Cepea: custo elevado e clima adverso forçam aumento de preços, mas rentabilidade segue prejudicada - Balde Branco

COLUNA DO CEPEA

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Natália Grigol

Pesquisadora do CEPEA

CUSTO ELEVADO E CLIMA ADVERSO FORÇAM AUMENTO DE PREÇOS, MAS RENTABILIDADE SEGUE PREJUDICADA

Mesmo com a deman­da fra­ca e com os resul­ta­dos nega­ti­vos do mer­ca­do de lác­te­os em julho, a indús­tria não con­se­guiu impor que­da de pre­ços no cam­po. O cli­ma adver­so e as recen­tes gea­das inten­si­fi­ca­ram a res­tri­ção de ofer­ta entre julho e agos­to, aumen­tan­do a inse­gu­ran­ça dos agen­tes em rela­ção aos volu­mes de cap­ta­ção. As indús­tri­as, foca­das em man­ter seus mar­ket-sha­res, acir­ra­ram a com­pe­ti­ção pela com­pra de maté­ria-pri­ma, man­ten­do o movi­men­to de valo­ri­za­ção no campo.

Nes­se cená­rio, pes­qui­sa do Cepea (Cen­tro de Estu­dos Avan­ça­dos em Eco­no­mia Apli­ca­da), da Esalq/USP, mos­tram que o pre­ço do lei­te cap­ta­do em julho e pago ao pro­du­tor em agos­to subiu 2,1% em rela­ção ao mês ante­ri­or, che­gan­do a R$ 2,3595/litro na “Média Bra­sil” líqui­da. Tra­ta-se, por­tan­to, de um novo recor­de real (dados foram defla­ci­o­na­dos pelo IPCA de julho/21) da série his­tó­ri­ca do Cepea, que se ini­ci­ou em 2005. O valor de agos­to é 11,7% mai­or que o regis­tra­do no mes­mo perío­do do ano pas­sa­do, tam­bém em ter­mos reais.

É impor­tan­te des­ta­car que o aumen­to nos pre­ços do lei­te no cam­po não sig­ni­fi­ca garan­tia da ren­ta­bi­li­da­de do pro­du­tor. Isso por­que os cus­tos de pro­du­ção tam­bém regis­tram inten­so movi­men­to de alta, espe­ci­al­men­te nes­te momen­to em que o cli­ma des­fa­vo­re­ce a ati­vi­da­de lei­tei­ra. Pes­qui­sa do Cepea mos­tra que o Cus­to Ope­ra­ci­o­nal Efe­ti­vo (COE) da ati­vi­da­de lei­tei­ra cres­ceu qua­se 13% na média Bra­sil de janei­ro a julho, enquan­to a recei­ta subiu 6% no mes­mo período.

As recen­tes gea­das que afe­ta­ram o Cen­tro-Sul do País dimi­nuí­ram con­si­de­ra­vel­men­te a qua­li­da­de das pas­ta­gens, pre­ju­di­can­do a ali­men­ta­ção volu­mo­sa que já vinha limi­ta­da devi­do ao tem­po seco. Para evi­tar per­das ain­da mai­o­res na pro­du­ção de lei­te, os pro­du­to­res aumen­ta­ram a deman­da por suple­men­ta­ção mine­ral, resul­tan­do em alta de qua­se 4% no pre­ço des­se insu­mo em julho. Da mes­ma for­ma, o pre­ço do con­cen­tra­do subiu 0,3% na média Bra­sil em julho. O enca­re­ci­men­to da ração está atre­la­do à valo­ri­za­ção dos grãos. Outro insu­mo que regis­trou alta con­si­de­rá­vel no pre­ço foi o adu­bo, de qua­se 8% em julho, devi­do ao aque­ci­men­to na deman­da – sina­li­zan­do que os cus­tos com a pro­du­ção dos volu­mo­sos para 2022 segui­rão elevados.

O Índi­ce de Cap­ta­ção Lei­tei­ra (ICAP‑L) do Cepea regis­trou alta de 1,68% de junho para julho, indi­can­do uma leve reto­ma­da na ofer­ta de lei­te no cam­po, porém, ain­da insu­fi­ci­en­te para abas­te­cer o mer­ca­do domés­ti­co. Os mai­o­res aumen­tos foram obser­va­dos em San­ta Cata­ri­na, de 3,7%, no Rio Gran­de do Sul, de 2,9%, e em Goiás, de 2,7%.

 

“Pes­qui­sa do Cepea mos­tra que o Cus­to Ope­ra­ci­o­nal Efe­ti­vo (COE) da ati­vi­da­de lei­tei­ra cres­ceu qua­se 13% na média Bra­sil de janei­ro a julho, enquan­to a recei­ta subiu 6% no mes­mo período”

PERS­PEC­TI­VA –A res­tri­ção de ofer­ta e aumen­to da con­cor­rên­cia das indús­tri­as para a com­pra de maté­ria-pri­ma em agos­to resul­ta­ram em aumen­to de 0,8% no pre­ço do lei­te spot nego­ci­a­do em Minas Gerais, que atin­giu média men­sal de R$ 2,54/litro.Com esto­ques limi­ta­dos e mar­gens espre­mi­das, as indús­tri­as de lati­cí­ni­os for­ça­ram o repas­se da valo­ri­za­ção da maté­ria-pri­ma ao con­su­mi­dor e con­se­gui­ram impor, jun­to aos canais de dis­tri­bui­ção, ligei­ras altas de pre­ços para o lei­te UHT e quei­jo muça­re­la no esta­do de São Pau­lo. No caso do UHT, a média che­gou a R$ 3,63/litro, 3,4% mai­or que em julho, e para a muça­re­la, a R$ 27,81/kg, aumen­to de 0,8% na mes­ma com­pa­ra­ção (pes­qui­sa rea­li­za­da até 27/08). O pre­ço médio do lei­te em pó (400g) foi de R$ 23,95/kg, 2,4% menor em rela­ção ao do mês anterior.

Mes­mo dian­te dos ele­va­dos pre­ços dos deri­va­dos ao con­su­mi­dor (que deses­ta­bi­li­za­ram a deman­da em julho), agen­tes con­sul­ta­dos pelo Cepea atre­la­ram as novas altas às expec­ta­ti­vas mais posi­ti­vas em rela­ção à deman­da. Nes­te caso, agen­tes acre­di­tam que a vol­ta das aulas pre­sen­ci­ais e o avan­ço da vaci­na­ção no esta­do de São Pau­lo ten­dem a aque­cer a pro­cu­ra por deri­va­dos lác­te­os. E esse cená­rio pode sus­ten­tar os pre­ços do lei­te no cam­po para o pró­xi­mo mês.

No entan­to, é pre­ci­so aler­tar que, ape­sar das melho­res expec­ta­ti­vas para o PIB nos pró­xi­mos tri­mes­tres, o País ain­da enfren­ta um cená­rio macro­e­conô­mi­co com­pli­ca­do, com aumen­to da infla­ção e con­ti­nui­da­de da pan­de­mia, e ins­ta­bi­li­da­de cli­má­ti­ca. Esses fato­res desa­fi­am não só os inves­ti­men­tos den­tro da por­tei­ra, que estão asso­ci­a­dos à ofer­ta, como tam­bém difi­cul­tam a pre­vi­si­bi­li­da­de da capa­ci­da­de da deman­da em absor­ver altas con­se­cu­ti­vas na prateleira.

 

 
 PRE­ÇOS RECE­BI­DOS EM AGOS­TO PELO VOLU­ME CAP­TA­DO EM JULHO
  Pre­ços líqui­dos — não con­tém fre­te e impos­tos. Valo­res nominais.
         
 BAGOMGSPPRSCRSBRA­SIL
jun/211,94712,26202,22102,17142,13912,18222,14852,2010
jul/211,99702,32202,33632,30462,30992,25162,22962,3108
ago/212,06782,36722,39442,36582,31682,25642,25032,3595
vari­a­ção mensal3,55%1,95%2,49%2,66%0,30%0,22%0,93%2,11%
  
   
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