AS PRIMEIRAS 24 HORAS DE VIDA NO BOVINO: ESSENCIAL E CORRIDA CONTRA O TEMPO

Flá­vio Mar­cos Jun­quei­ra Cos­ta*

Uma das gran­des expec­ta­ti­vas na indús­tria ani­mal é o nas­ci­men­to de uma bezer­ra ou bezer­ro. Nes­se caso todo inves­ti­men­to em gené­ti­ca e mane­jo pode ser recom­pen­sa­do, pois a meta futu­ra seria de ter um ani­mal que repre­sen­ta um indi­vi­duo pro­du­ti­vo e efi­ci­en­te em ope­ra­ções comer­ci­ais ou uma futu­ra cam­peã em fazen­das foca­das em gené­ti­ca e expo­si­ções. De qual­quer for­ma, a par­tir do momen­to que um bezer­ro nas­ce há uma gran­de neces­si­da­de de agir de for­ma efi­ci­en­te para for­ne­ci­men­to de colos­tro e ações para as pri­mei­ras horas. Ape­sar de ser um pro­ce­di­men­to tido como obri­ga­tó­rio e essen­ci­al em fazen­das ao redor do mun­do, mui­tas vezes ain­da não é rea­li­za­do de for­ma efi­ci­en­te. E segun­do os dados mais recen­tes agir de for­ma efi­ci­en­te nas pri­mei­ras horas pode ter um impac­to posi­ti­vo e dura­dou­ro em toda vida pro­du­ti­va do ani­mal.

Placenta em Bovinos

O tipo de pla­cen­ta em bovi­nos é epi­te­li­o­co­ri­al, ou seja, não per­mi­te o con­ta­to do san­gue da mãe com o san­gue fetal. Sen­do assim, é fun­da­men­tal a pas­sa­gem de anti­cor­pos (Imu­no­glo­bu­li­nas IgG, IgM e IgA) para o rumi­nan­te recém-nas­ci­do atra­vés do colos­tro uma vez que o sis­te­ma imu­ne ain­da é ima­tu­ro e pre­ci­sa se desen­vol­ver, por­tan­to os anti­cor­pos vão ser­vir de pro­te­ção para os 3 pri­mei­ros meses de vida. Nes­se caso se deno­mi­na imu­ni­da­de pas­si­va que é a pas­sa­gem de anti­cor­pos da mãe para pro­te­ção tem­po­rá­ria do recém-nas­ci­do até que o sis­te­ma imu­no­ló­gi­co des­se se tor­ne ati­vo e res­pon­si­vo a vaci­nas e capaz de debe­lar infec­ções.

Colostro

Devi­do à impor­tân­cia estra­té­gi­ca nes­se arti­go vamos con­si­de­rar colos­tro por defi­ni­ção como sen­do a secre­ção pro­du­zi­da e acu­mu­la­da na glân­du­la mama­ria nos dias antes do par­to e será ape­nas o lei­te de pri­mei­ra orde­nha, a par­tir dai seria o lei­te de tran­si­ção. Do pon­to de vis­ta nutri­ci­o­nal o colos­tro pos­sui qua­se o dobro de sóli­dos total que lei­te nor­mal (23.9 V 13) e além da pro­te­ção poten­ci­al com sua alta quan­ti­da­de de imu­no­glo­bu­li­nas é mui­to impor­tan­te para nutri­ção dos recém-nas­ci­dos nas pri­mei­ras horas de vida.

Tempo, Quantidade e Qualidade de Colostro

Um dos gran­des desa­fi­os em fazen­das ao redor do mun­do para o for­ne­ci­men­to de colos­tro de for­ma ade­qua­da é a neces­si­da­de do for­ne­ci­men­to do colos­tro ser o mais rápi­do pos­sí­vel após o nas­ci­men­to do bezer­ro. Por quê? Na ver­da­de a habi­li­da­de do intes­ti­no del­ga­do do bezer­ro absor­ver as Imu­no­glo­bu­li­nas decli­na rapi­da­men­te nas pri­mei­ras horas de vida, por­tan­to quan­do mais tem­po pas­sa após o nas­ci­men­to menos Imu­no­glo­bu­li­nas (anti­cor­pos) são absor­vi­das e é neces­sá­rio agir de for­ma rápi­da. É impor­tan­te res­sal­tar que depois de 24 horas após nas­ci­men­to não há mais absor­ção, ou seja, no segun­do dia de vida o efei­to de for­ne­ci­men­to de colos­tro é ape­nas para pro­te­ção local no intes­ti­no e nutri­ci­o­nal.

Figu­ra 1- Por­cen­ta­gem de Igs Absor­vi­das ver­sus Tem­po após nas­ci­men­to

Outro fato mui­to rele­van­te é que exis­te uma meta de atin­gir 10mg/ml de IgG no san­gue do bezer­ro e para con­se­guir atin­gir esse pata­mar é impor­tan­te à com­bi­na­ção de quan­ti­da­de e qua­li­da­de de colos­tro. De manei­ra geral em situ­a­ções ide­ais seria o for­ne­ci­men­to de 4 litros de colos­tro (10% peso vivo do bezer­ro) de alta qua­li­da­de na pri­mei­ra hora de vida, mas é de extre­ma impor­tân­cia que 4 litros de colos­tro sejam for­ne­ci­dos no máxi­mo até 6 horas de vida. Em alguns locais onde é pos­sí­vel há um segun­do for­ne­ci­men­to de colos­tro 8 horas após de 2 a 3 litros. No entan­to, de manei­ra geral o mais impor­tan­te são as pri­mei­ras horas de vida, e como regra quan­to mais cedo melhor.

Colos­tro con­ge­la­do

Em situ­a­ções com mais ajus­te fino é pos­sí­vel se tes­tar a qua­li­da­de do colos­tro (colos­tro­me­tro, méto­do de bolas etc…) e ten­tar for­ne­cer ape­nas colos­tro de boa qua­li­da­de. Nes­se caso exis­te a opção de des­con­ge­lar colos­tro para for­ne­ci­men­to ao bezer­ro quan­do o colos­tro da mãe tes­ta­do não é de boa qua­li­da­de. Nor­mal­men­te o colos­tro fica arma­ze­na­do con­ge­la­do e é impor­tan­te lem­brar ao des­con­ge­lar a tem­pe­ra­tu­ra da água não ultra­pas­sar 55º cen­trí­gra­dos, pois pode afe­tar os anti­cor­pos dimi­nuin­do a qua­li­da­de do colos­tro. O colos­tro pode ser con­ser­va­do refri­ge­ra­do em gela­dei­ra (1 a ‑2º cen­trí­gra­dos) até 1 sema­na ou con­ge­la­do por 1 ano. Con­si­de­ran­do que o intes­ti­no del­ga­do do recém-nas­ci­do está apto para absor­ver molé­cu­las gran­des como as Imu­no­glo­bu­li­nas é mui­to impor­tan­te tam­bém que o colos­tro e o ambi­en­te este­jam mais lim­pos pos­sí­veis para mini­mi­zar a expo­si­ção do recém-nas­ci­do a agen­tes pato­gê­ni­cos.

Metas e benefícios de colostragem eficiente 

O prin­ci­pal bene­fí­cio ime­di­a­to de um pro­gra­ma de colos­tra­gem efi­ci­en­te seria que a trans­fe­rên­cia pas­si­va de anti­cor­pos ade­qua­da dimi­nui mui­to os ris­cos de o bezer­ro ficar doen­te o que tem impac­to em desem­pe­nho e mor­ta­li­da­de. Na ver­da­de dados em vári­as par­tes do mun­do mos­tram que a taxa de mor­ta­li­da­de é mais que o dobro em gru­po de bezer­ras que não tive­ram pro­te­ção ade­qua­da atra­vés do colos­tro. Além dis­so, alguns dados recen­tes mos­tram que bezer­ras que inge­ri­ram mai­or quan­ti­da­de colos­tro ten­dem a dar mais lei­te duran­te a pri­mei­ra lac­ta­ção, isso mos­tra que além de ser fun­da­men­tal em sani­da­de nos pri­mei­ros meses, o colos­tro pode ter efei­tos bené­fi­cos diver­sos no ani­mal.

A meto­do­lo­gia de for­ne­ce­mos colos­tro pode ser efi­ci­en­te como a uti­li­za­ção de mama­dei­ra ou son­da eso­fá­gi­ca, sen­do que os dois méto­dos fun­ci­o­nam bem. Dei­xar o bezer­ro com a mãe para que ele pos­sa con­su­mir o colos­tro maman­do na vaca tem se mos­tra­do pou­co efi­ci­en­te devi­do a vári­os fato­res como vigor do bezer­ro, tama­nho dos tetos e pro­fun­di­da­de do úbe­re. Des­sa for­ma, reco­men­da-se tirar o lei­te da vaca e for­ne­cer por mama­dei­ra ou son­da eso­fá­gi­ca. Uma van­ta­gem da son­da eso­fá­gi­ca em ope­ra­ções mai­o­res é que é um méto­do mais rápi­do o que faci­li­ta mui­to quan­do há vári­os ani­mais e outros com­pro­mis­sos no lote de tran­si­ção.

Exis­te uma manei­ra prá­ti­ca de che­car­mos se uma bezer­ra rece­beu quan­ti­da­de ade­qua­da de colos­tro, cole­tan­do o san­gue e men­su­ran­do por refratô­me­tro a quan­ti­da­de de pro­teí­na no soro em g/dl. É um tes­te prá­ti­co que pode ser rea­li­za­do na fazen­da e exis­tem vári­os refratô­me­tros comer­ci­ais para ven­da. Cole­ta-se o san­gue do bezer­ro de 24 a 48 horas de vida e dei­xa sepa­rar o soro, depois com uma gota do soro em refratô­me­tro se faz a lei­tu­ra, a meta seria 5,5g/dl de pro­teí­na no soro, alguns auto­res e con­sul­to­res esta­be­le­cem a meta de 6,0 g/dl de pro­teí­na no soro.  Na ver­da­de é mui­to útil para che­car efi­ci­ên­cia de um pro­gra­ma ade­qua­do de colos­tra­gem.

Conclusões

Na ver­da­de esse arti­go tra­ta de um con­cei­to impor­tan­te e mui­to difun­di­do em pecuá­ria de lei­te. No entan­to, achei rele­van­te dis­cu­tir mais uma vez, pois devi­do aos desa­fi­os com o tem­po e ou ope­ra­ci­o­nais ain­da tem mui­to a melho­rar em mui­tas fazen­das no mun­do. Por­tan­to, se você é pro­du­tor de lei­te e pen­sa no futu­ro sugi­ro refle­tir seri­a­men­te como está for­ne­cen­do colos­tro para seus ani­mais recém-nas­ci­dos, uma vez que esse pro­ce­di­men­to tem um impac­to mui­to posi­ti­vo e dura­dou­ro na vida daque­le ani­mal e na ren­ta­bi­li­da­de e suces­so da pro­pri­e­da­de lei­tei­ra.

Sen­do assim é de extre­ma impor­tân­cia quan­do fala­mos em colos­tro:

- Quan­to: 4 litros ou 10% peso vivo do bezer­ro;

- Quan­do: nas duas pri­mei­ras horas de vida;

- Nun­ca: ultra­pas­sar 6 horas de vida do bezer­ro para for­ne­ci­men­to do colos­tro.

.….….….….….….….….….….….….….….….…

*Médi­co-vete­ri­ná­rio, Dou­tor em Pro­du­ção Ani­mal; Geren­te Pro­gra­ma Semex Pro­gres­si­ve

 

Rolar para cima