Benefícios da ILPF em propriedades leiteiras - Balde Branco

A pre­sen­ça das árvo­res dimi­nui a tem­pe­ra­tu­ra ani­mal e pro­por­ci­o­na ganhos no com­por­ta­men­to. Na som­bra, as vacas pas­sam 32% a mais de tem­po rumi­nan­do. Com isso, elas apro­vei­tam melhor os nutri­en­tes da for­ra­gem e des­can­sam, não gas­tam ener­gia para man­te­rem a tem­pe­ra­tu­ra corporal

 
 
 

Benefícios da ILPF em propriedades leiteiras vão além do ganho na produção 

Quan­to uma vaca pro­duz a mais de lei­te por dia em um sis­te­ma som­bre­a­do? Os ganhos podem che­gar a 24% sim­ples­men­te ofer­tan­do som­bra para o reba­nho. Esse foi um dos resul­ta­dos da pes­qui­sa com reba­nhos Gir e Giro­lan­do apre­sen­ta­do pela pes­qui­sa­do­ra da Embra­pa Cer­ra­dos, Isa­bel Ferreira.

Com­pa­ra­dos com os ani­mais em ple­no sol, na média dos três anos de ava­li­a­ção (de 2017 a 2019), as vacas da raça Gir que esta­vam à som­bra tive­ram melhor ren­di­men­to, prin­ci­pal­men­te no perío­do seco, 17% a mais de pro­du­ti­vi­da­de. Sobre o ren­di­men­to duran­te a cur­va de lac­ta­ção das vacas, a pes­qui­sa­do­ra infor­ma: “O efei­to mais mar­can­te ocor­reu no iní­cio da lac­ta­ção, entre 1 e 75 dias, com um aumen­to de 18% de pro­du­ção indi­vi­du­al, perío­do em que o ani­mal pre­ci­sa de mai­or nutri­ção”. Os resul­ta­dos foram apre­sen­ta­dos no webi­nar ILPF em pro­pri­e­da­de de gado de lei­te – como e por que implan­tar

Já entre as vacas Giro­lan­do, não hou­ve dife­ren­ça sig­ni­fi­ca­ti­va. No entan­to, os bene­fí­ci­os da Inte­gra­ção Lavou­ra-Pecuá­ria-Flo­res­ta (ILPF) não se limi­tam à mai­or pro­du­ção de lei­te. “A pre­sen­ça das árvo­res dimi­nui a tem­pe­ra­tu­ra ani­mal e pro­por­ci­o­na ganhos no com­por­ta­men­to. Na som­bra, as vacas pas­sam 32% a mais de tem­po rumi­nan­do. Com isso, elas apro­vei­tam melhor os nutri­en­tes da for­ra­gem e des­can­sam, não gas­tam ener­gia para man­te­rem a tem­pe­ra­tu­ra cor­po­ral”, deta­lha Fer­rei­ra. Todas essas alte­ra­ções se refle­tem em um melhor desem­pe­nho do animal.

Com mai­or con­for­to tér­mi­co e bem-estar, as vacas pro­du­zi­ram 81% a mais de ovó­ci­tos viá­veis e qua­tro vezes mais embriões, melho­ran­do os índi­ces de repro­du­ção. Além da quan­ti­da­de, a qua­li­da­de dos ovó­ci­tos tam­bém foi um des­ta­que, con­for­me estu­do con­du­zi­do pelo pes­qui­sa­dor Car­los Fre­de­ri­co Martins. 

Outro ganho pro­por­ci­o­na­do pela Inte­gra­ção Lavou­ra-Pecuá­ria-Flo­res­ta (ILPF) está rela­ci­o­na­do à qua­li­da­de da for­ra­gem. O pas­to som­bre­a­do apre­sen­tou 30% a mais de pro­teí­na, redu­ção de fibra e melhor diges­ti­bi­li­da­de da maté­ria seca.

Maior sustentabilidade para os sistemas agrícolas

Já são conhe­ci­dos os bene­fí­ci­os dos sis­te­mas inte­gra­dos para os bovi­nos e para as cadei­as pro­du­ti­vas. “São sis­te­mas mais resi­li­en­tes, miti­ga­do­res e que tra­zem mais bene­fí­ci­os econô­mi­cos para os pro­du­to­res”, res­sal­ta Fabi­a­na Vil­la, coor­de­na­do­ra-geral de Mudan­ças Cli­má­ti­cas, Flo­res­tas Plan­ta­das e Agro­pe­cuá­ria Con­ser­va­ci­o­nis­ta do Minis­té­rio da Agri­cul­tu­ra, Pecuá­ria e Abas­te­ci­men­to (Mapa).

Vil­la apre­sen­tou a segun­da fase do pro­gra­ma Agri­cul­tu­ra de Bai­xo Car­bo­no (ABC), deno­mi­na­da de ABC+: “É a mai­or polí­ti­ca públi­ca do mun­do foca­da em miti­ga­ção e adap­ta­ção para o setor agro­pe­cuá­rio”, enfa­ti­za. Novas metas foram pla­ne­ja­das para o perío­do 2020–2030 com foco na adap­ta­ção às mudan­ças cli­má­ti­cas e a bai­xa emis­são de car­bo­no pela agricultura.

Todas as metas esta­be­le­ci­das no pri­mei­ro perío­do, com exce­ção à rela­ci­o­na­da às flo­res­tas plan­ta­das, foram supe­ra­das. A meta de ado­ção do ILPF era de 4 milhões de hec­ta­res, área que cor­res­pon­de ao ter­ri­tó­rio da Ale­ma­nha. “Nós alcan­ça­mos 50% além da meta, 52 milhões de hec­ta­res, uma Ale­ma­nha e meia”, come­mo­ra a coor­de­na­do­ra. “O pla­no ABC foi mui­to exi­to­so em pro­mo­ver a miti­ga­ção, a adap­ta­ção tam­bém, mas prin­ci­pal­men­te a efi­ci­ên­cia no setor agro­pe­cuá­rio”. As novas metas volun­tá­ri­as, que devem ser alcan­ça­das até 2030, serão apre­sen­ta­das na Con­fe­rên­cia das Nações Uni­das sobre Mudan­ças Cli­má­ti­cas (COP-26), mar­ca­da para novem­bro des­te ano. 

A coor­de­na­do­ra lem­bra que as pri­mei­ras metas não tinham como foco a adap­ta­ção às mudan­ças cli­má­ti­cas: “Na pri­mei­ra déca­da, pou­co se fala­va em adap­ta­ção. Mas os efei­tos do cli­ma estão aí, esta­mos sen­tin­do na pele, tan­to nós como os ani­mais. Por isso, pre­ci­sa­mos usar estra­té­gi­as de adaptação”. 

Os Sis­te­mas de Pro­du­ção Sus­ten­tá­veis (SPS) do ABC+ são com­pos­tos por pro­du­tos, tec­no­lo­gia e sis­te­mas. Recu­pe­ra­ção de pas­ta­gens degra­da­das, ILPF, sis­te­ma plan­tio dire­to, flo­res­tas plan­ta­das, fixa­ção bio­ló­gi­ca de nitro­gê­nio e tra­ta­men­to de deje­tos ani­mais eram os com­po­nen­tes da pri­mei­ra fase. A par­tir des­te ano, a novi­da­de foi a inclu­são dos sis­te­mas irri­ga­dos e a ter­mi­na­ção inten­si­va de ani­mais. “Todas as tec­no­lo­gi­as que incluí­mos têm como base mui­ta ciên­cia, ciên­cia naci­o­nal, com dados tro­pi­ca­li­za­dos. Elas têm como foco a miti­ga­ção e adap­ta­ção, a dimi­nui­ção da vul­ne­ra­bi­li­da­de e o aumen­to da resi­li­ên­cia dos sis­te­mas”, deta­lha Vil­la. 
 
Ape­sar de não serem foca­dos em cadei­as pro­du­ti­vas, Vil­la res­sal­ta as opor­tu­ni­da­des para a pecuá­ria lei­tei­ra, prin­ci­pal­men­te no que se refe­re ao tra­ta­men­to dos deje­tos ani­mais, con­tem­pla­do na meta Mane­jo de resí­du­os da pro­du­ção ani­mal. São de 208,4 milhões de m3 o com­pro­mis­so bra­si­lei­ro quan­to ao tra­ta­men­to dos dejetos. 

O ABC+ tra­ba­lha seus obje­ti­vos por meio da ges­tão inte­gra­da da pai­sa­gem. Segun­do a pales­tran­te, esse é um con­cei­to inter­na­ci­o­nal­men­te acei­to e se se refe­re a ter um olhar cus­to­mi­za­do para as pro­pri­e­da­des, suas ati­vi­da­des e as tec­no­lo­gi­as que estão sen­do empre­ga­das nos sis­te­mas inte­gra­dos: “Isso nós já faze­mos mui­to bem. O ILPF é um exem­plo clás­si­co e típi­co de adap­ta­ção e resiliência”. 

Ela apre­sen­ta uma foto de com uma pas­ta­gem com­ple­ta­men­te quei­ma­da pela gea­da e, ao lado, uma pro­pri­e­da­de onde as árvo­res pro­te­ge­ram o pas­to e ele con­ti­nua ver­de. “O que bus­ca­mos é a dimi­nui­ção do ris­co cli­má­ti­co das per­das dos pro­du­to­res”, des­ta­ca. O ILPF ain­da traz bene­fí­ci­os adi­ci­o­nais, entre os quais, cita: menor cus­to de pro­du­ção por pro­du­to; mai­or qua­li­da­de do solo, mai­or bio­di­ver­si­da­de; menor con­su­mo de água pelos ani­mais; menos emis­são de gases de efei­to estu­fa, uma vez que melho­ra a diges­ti­bi­li­da­de das for­ra­gei­ras pelos ani­mais e fixa­ção de nitro­gê­nio pelas árvo­res; uso efi­ci­en­te da ter­ra com inten­si­fi­ca­ção sustentável. 

Para os outros ato­res da cadeia, Vil­la res­sal­ta que há opor­tu­ni­da­des para pes­qui­sa, desen­vol­vi­men­to e ino­va­ção, comu­ni­ca­ção para a sen­si­bi­li­za­ção dos públi­cos para a pecuá­ria sus­ten­tá­vel, coo­pe­ra­ção estra­té­gi­ca, assis­tên­cia téc­ni­ca e outros. “No final, o que que­re­mos é tra­zer mais ren­da para o pro­du­tor”, encerra. 

Como será a pecuária leiteira do futuro? 

Com essa pro­vo­ca­ção, a pes­qui­sa­do­ra da Embra­pa Gado de Lei­te, Rober­ta Car­ne­val­li, elen­ca vári­as ques­tões que afe­tam a pecuá­ria – mudan­ças cli­má­ti­cas, pres­são ambi­en­tal, ambi­ên­cia ani­mal, segu­ran­ça ali­men­tar do reba­nho e sus­ten­ta­bi­li­da­de. São neces­si­da­des impos­tas pelo sis­te­ma de pro­du­ção jun­ta­men­te com a pres­são da soci­e­da­de por uma pecuá­ria sustentável. 

Car­ne­val­li deta­lha o arran­jo de uma pro­pri­e­da­de em tran­si­ção para um sis­te­ma inte­gra­do, de for­ma a faci­li­tar o mane­jo dos ani­mais e a implan­ta­ção das árvo­res. No ILFP, as árvo­res têm dupla fun­ção: for­ne­cer outra ren­da para o pro­du­tor, pela pro­du­ção de fru­tas, madei­ras ou ser­vi­ços ambi­en­tais, e pro­por­ci­o­nar bem-estar para os animais. 

Em uma simu­la­ção, con­si­de­ran­do a adu­ba­ção de 800 qui­los de nitro­gê­nio, fós­fo­ro e potás­sio (NPK) em um hec­ta­re de milho, em lavou­ra com alto nível tec­no­ló­gi­co, são neces­sá­ri­as 90 árvo­res para neu­tra­li­zar emis­sões da pro­du­ção. “Não é uma quan­ti­da­de mui­to alta, nem com alta den­si­da­de [de árvo­res]. Nes­se caso, só con­si­de­ra­mos a adu­ba­ção. Se con­si­de­rar a bra­quiá­ria e outros aspec­tos, essa quan­ti­da­de dimi­nui”, reflete. 

Umas das opções de espé­ci­es arbó­re­as de peque­no por­te apre­sen­ta­da pela pes­qui­sa­do­ra são as fru­tí­fe­ras. As van­ta­gens são mui­tas: elas ocu­pam pou­co espa­ço; as fru­tas podem ser con­su­mi­das ou comer­ci­a­li­za­das, geran­do um retor­no finan­cei­ro mais rápi­do que a pro­du­ção de madei­ra; for­ne­cem som­bra para o gado. Mas a Car­ne­val­li faz um aler­ta: “Não pode ser qual­quer fru­tei­ra”. O caja­zei­ro, por exem­plo, per­de as folhas em alguns perío­dos, o que impe­de que ele for­ne­ça som­bra para os animais. 

Alguns estu­dos já estão sen­do fei­tos para a reco­men­da­ção des­sas espé­ci­es. A goi­a­bei­ra e o caju­ei­ro já mos­tra­ram bons resul­ta­dos. “Esta­mos rea­li­zan­do expe­ri­men­tos para ava­li­ar a com­pa­ti­bi­li­da­de de espé­ci­es fru­tí­fe­ras. Caju, goi­a­ba… são inú­me­ras as pos­si­bi­li­da­des que pode­mos tes­tar”. Ela cita ain­da citrus, bana­na, pal­mei­ras, maca­dâ­mia, lichia, coquei­ro e outras mais que podem ser ava­li­a­das para os sis­te­mas integrados.

Ela ter­mi­na com uma pro­vo­ca­ção: Qual é a pecuá­ria que nós que­re­mos mos­trar para o mun­do? Ela apre­sen­ta uma ima­gem de vacas sem aces­so à som­bra, em colap­so pelo calor. “Esse não é o tipo de lei­te que o mun­do quer com­prar! Não é esse cená­rio que vai ven­der lei­te fora do País, mas é o cená­rio que mais encon­tra­mos no País”. 

Ela con­vi­da o setor pro­du­ti­vo para bus­car melho­res solu­ções para uma pro­du­ção sus­ten­tá­vel: “Quan­do fala­mos de mudan­ças cli­má­ti­cas, a res­pon­sa­bi­li­da­de é de todos. Quan­do fala­mos que os jovens não que­rem mais tomar lei­te por­que está poluin­do o ambi­en­te, a res­pon­sa­bi­li­da­de é de todos”.

A gra­va­ção do even­to está dis­po­ní­vel no canal da Embra­pa no YouTube.

Fon­te: Embra­pa Cerrados

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