Utilização de vanilina e antioxidantes em vacas de leite

  • 21 de maio de 2019
Utilização de vanilina e antioxidantes em vacas de leite

O uso de sabores na ração tem sido amplamente aceito, especialmente, em ruminantes. O alimento se tornou mais palatável, o consumo aumentou e o desempenho melhorou

Marconi Silva*

 

De acordo com a ONU – Organização Mundial das Nações Unidas – até 2050, o mundo terá em torno de 10 bilhões de habitantes no planeta. E um dos grandes desafios é atender com segurança, eficiência e qualidade a demanda futura por alimentos. Segundo a FAO (órgão das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), entre 1960 e 2015, a produção agrícola mais que triplicou devido a ampliação de áreas de cultivo e de produtividade propiciadas pelas boas práticas de produção, melhoramento genético e tecnologias avançadas.

Com este novo cenário, a busca por proteína e leite tem aumentado a cada ano. Nas últimas cinco décadas, os processos mundiais de produção leiteira tem sido intensivos e mais produtivos graças à genética, à nutrição e ao manejo. Mas para que a vaca leiteira e as bezerras – futuras produtoras de leite – alcancem alta produtividade é necessário produzir uma ração de qualidade, fresca, palatável e de alto valor nutricional. É de conhecimento do criador que a alimentação da vaca leiteira é o fator de produção de maior custo do litro de leite produzido.Atualmente, uma produtora moderna chega a consumir de 22 a 27 kg de matéria seca por dia.

Todo cuidado é pouco. As vacas leiteiras são muito sensíveis às mudanças em sua dieta. Os odores desagradáveis ou os sabores amargos podem levar a uma baixa ingestão de ração, afetando consequentemente sua produção e o desempenho da fazenda.
Para aprimorar o cheiro e o sabor dos rações, a maioria das fabricantes tem utilizado o aroma durante a fabricação do produto. Como resultado, o alimento se tornou mais palatável, o consumo aumentou e o desempenho melhorou. O uso de sabores na ração tem sido amplamente aceito, especialmente, em ruminantes, por duas razões:

1. Há um grande número de papilas gustativas situadas na superfície dorsal da língua e na faringe e laringe chegando a aproximadamente 25 mil em comparação com 9 mil em humanos e apenas 24 em galinhas, permitindo que o gado tenha uma melhor resposta aos sabores da ração.
2. A permanência prolongada da ração na boca do animal ruminante favorece a solubilidade dos agentes aromatizantes e percepção através do sistema retronasal. Praticamente 80% do que é percebido como gosto de um alimento é, na realidade, o seu cheiro.

 


Como funciona o sistemas olfativo e paladar dos ruminantes?

O paladar envolve moléculas responsáveis por proporcionar os cinco gostos básicos: doce,salgado,amargo, azedo e Umami. Já o olfato é um sistema ainda mais complexo por abranger uma gama de moléculas que propicia aroma aos alimentos e descrição dos sabores ingeridos, como o do queijo, pêssego, camarão, etc.

O estímulo aromático pode ser alcançado pelo epitélio olfatório através de duas vias: nasal – durante o ato de cheirar (olfação ortonasal) – e oral, através do consumo do alimento (olfação retronasal). A olfação ortonasal inicia a partir de um estímulo externo, que percorre pela narina anterior em direção à mucosa. Já o processo retronasalacontece após a deglutição, onde moléculas aromáticas voláteis são liberadas da matriz alimentícia e chegam até a cavidade nasal através da faringe, estimulando receptores da fenda olfativa.

Depois do contato de moléculas aromáticas com os sistemas olfatórios, receptores específicos são expressos no epitélio, especificamente, nos cílios dos neurônios olfatórios, que promovem uma sinalização química etransmite a percepção dos aromas para o cérebro. O paladar e o olfato estão ligados intrinsecamente ao sabor.

Um dos principais motivos para a inserção dos aromatizantes nas rações está relacionado à tentativa de minimizar a rejeição que os animais apresentam às modificaçõessúbitas das propriedades olfativas e gustativas dos alimentos. O produto mais utilizado neste caso é a vanilina que proporciona mais sabor e, principalmente, o aroma.

Com o decorrer dos anos, alguns procedimentos de manejo avançaram para situações extremas, como o desmame precoce de leitões e de bezerros. A troca da dieta líquida natural pela sólida (ração) acontece de modo estressante ao animal, particularmente, pelos bovinos e suínos. Este fator pode ser amenizado com o uso de um aroma na ração semelhante ao leite materno. Se não for utilizado um aromatizante neste período, estes animais tendem a rejeitar o alimento causando, inicialmente, a perda de peso.

A nutrição moderna de hoje consegue mudar as matérias-primas sem alterar o valor nutricional. A vanilina permite a possibilidade de uma padronização gustativa e olfativa do alimento, evitando oscilações no consumo.

As vacas de leite passam por um período de transição que ocorre de três semanas antes do parto até três semanas pós parto, sendo que, na fêmea suína, este período se estende até a segunda semana. Após a pariçãoestas fêmeas não conseguem ingerir a quantidade de nutrientes necessáriostanto para produzir o leite como para a manteça. O uso de vanillina estimula o consumo de alimento destes animais, diminuindo o déficit de nutrientes.

A ingestão de dieta sólida é vital para o bezerro para fazer a transição de um pré-ruminante para um ruminante funcional. Uma introdução precoce à ração inicial é fundamental para alcançar o desenvolvimento ideal do rúmen e reduzir a duração e os custos do desmame. Em todos os casos,é importante utilizar ingredientes de qualidade que não contenham mofo, poeira e altos níveis de nutrientes para atender às necessidades do bezerro em crescimento.

Os estudos em microbiota de ruminantes têm tipicamente focado sua atenção na compreensão do rúmen por ser o local mais influente da digestão. A fermentação microbiana do alimento no rúmen fornece grande parte da energia necessária para a vaca.

A saúde intestinal e seu manejo são áreas complexas, coordenadas por vários fatores, incluindo nutrição, microbiologia, imunologia e fisiologia. O intestino é um órgão fundamental para o bom funcionamento do organismo pois, além de seu papel no sistema digestório e absorção de nutrientes também auxilia na imunidade e protege contra patógenos. Manter o equilíbrio da microbiota é essencial para a saúde. Qualquer alteração e desequilíbrio, como a disbiose intestinal, pode gerar consequências desagradáveis para o organismo e resultar no maior risco de patologias.

Quando a saúde gastrointestinal é comprometida, a digestão e a absorção de nutrientes são afetadas, há uma piora na conversão alimentar e a suscetibilidade à doença é aumentada, gerando em um impacto econômico negativo. A ingestão de ingredientes deteriorados, ração contaminada com patógenos ou o uso excessivo de antibióticos pode levar a disbiose intestinal, desequilíbrio entre as bactérias benéficas e patogênicas do intestino, que causa diversas alterações inflamatórias.

A oxidação dos óleos e gorduras ou oxidação lipídica dos alimentos, além de comprometer as características sensoriais como o aroma, sabor, cor, e textura, produzem substâncias de comprovado efeito tóxico. A ingestão de produtos primários da deterioração oxidativa de ácidos graxos promove irritação da mucosa intestinal, diarreia, degeneração hepática e até a morte das células. A oxidação lipídica traz prejuízos nutricionais devido à perda parcial de vitaminas lipossolúveis como as vitaminas A,D,E, K.

Os antioxidantes desempenham um papel importante no tratamento e conservação da ração. Seu uso correto depende, fundamentalmente, tanto do conhecimento dos mecanismos de auto-oxidação quanto dos fatores que os condicionam, como a natureza dos processos dos diferentes procedimentos de antioxidação. Portanto, a melhor maneira de limitar a deterioração oxidativa é evitar as condições que a promovem e aproveitar a combinação de diferentes tipos de antioxidantes que podem ser usados em cada caso e a qualquer momento. “Antioxidante é a substância que, quando presente em alimentos em uma concentração menor que a do limiar oxidável, é significativamente capaz de interromper ou evitar a oxidação”. (Halliwell e Gutteridge, 1999).

*Marcone Silva é gerente da CFS de Nutrição Animal para América do Sul