O leite e o acordo entre Mercosul e União Europeia

  • 4 de setembro de 2019

“A ideia era clara: com duas economias complementares, a do Brasil e a dos demais, caberia ao Brasil oferecer ao bloco econômico os produtos industriais, enquanto adquiria dos demais países os produtos agrícolas.”

 

Nos anos oitenta a sociedade brasileira viveu sua pior década econômica após a Segunda Guerra Mundial. Chegamos a ter a terceira maior inflação da história do mundo, desde que este indicador de desempenho econômico passou a ser medido, com taxas crescentes de desemprego. Este quadro alucinante de inflação e desemprego elevados configurou o pior dos mundos e o que todos os economistas temem para a saúde de um país. E foi este ambiente de instabilidade que estimulou a criação do Mercosul em 1991. A ideia era clara: com duas economias complementares, a do Brasil e a dos demais, caberia ao Brasil oferecer ao bloco econômico os produtos industriais, enquanto adquiria dos demais países os produtos agrícolas.

Com a criação da integração comercial, sacrificando a agricultura, imaginava-se que o Brasil teria dois ganhos significativos. Como a indústria brasileira se mostrava altamente ociosa, a possibilidade de vender carros e toda a chamada linha branca de eletrodomésticos, representada por geladeira, fogões e outros, iria impulsionar a geração de emprego e renda imediatamente. Por outro lado, considerando as condições de custos crescentes da alimentação, num país então importador de alimentos, a chegada de produtos agrícolas da Argentina e do Uruguai poderia significar a redução da pressão inflacionária, com a melhoria do bem-estar principalmente da população de mais baixa renda, que tem no alimento o seu principal componente de custo de vida.

O Mercosul surgiu, portanto, no pior dos cenários para o leite brasileiro. Estávamos prestes a competir com o leite argentino e uruguaio, num momento em que havia acabado o tabelamento de preços do leite, que era feito pelo Governo, e produtores e indústria iniciavam a dolorosa aprendizagem de negociar preços entre si e com o varejo, até então, pouco poderoso. A era dos supermercados estava ainda começando. Além disso, a abertura comercial brasileira dava os seus primeiros passos, com a desregulamentação das importações em geral. Como éramos o quarto país importador de leite do mundo, e sendo leite um produto altamente subsidiado na Europa, a competição a que os produtores brasileiros de leite estavam expostos não era apenas a do leite dos países no Mercosul, recém-criado.

O produtor de leite brasileiro, então, saiu de um mundo em que o preço do seu produto era tabelado sempre baixo e desestimulante, visando combater a inflação, para competir com produto importado com preços subsidiados na origem. E ocorreu um fenômeno não previsto em nenhum manual de economia internacional: a substituição de importações de modo intenso e contínuo, e em 2004 o Brasil começou a exportar leite e chegou a atingir 86 países. Isso somente foi interrompido com a crise financeira mundial de 2008, que derrubou os mercados internacionais e forçou a indústria brasileira a se reposicionar, buscando o mercado interno.

Todavia, o fato é que a produção anual de leite no Brasil gerava uma oferta de cerca de 14,6 bilhões de litros/ano para uma população de 146,8 milhões. Portanto, tínhamos cerca de 100 litros de leite produzidos internamente para cada brasileiro. Agora, temos cerca de 166 litros para cada habitante por ano, e a produção somente não cresce mais em função da forte volatilidade de preços, que aumenta o risco dos investimentos feitos em crescimento de produtividade.

Mas o fenômeno mais interessante e resultante da criação do Mercosul e abertura do mercado brasileiro à competição foi a mudança do mapa do leite. Se a tecnologia levou o leite para Goiás, quando aprendemos a produzir no Cerrado e quando introduzimos o leite Longa Vida, foi o Mercosul que nos mostrou o potencial competitivo dos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Estes estados estão expostos há 28 anos a uma competição direta com o leite da Argentina e do Uruguai. Não é à toa que são os Estados do Brasil mais comprometidos com políticas sanitárias para o rebanho, com produtores mais comprometidos com a qualidade do leite e com a melhoria contínua do aumento da produtividade. Se é um fenômeno a produção brasileira ter mais do que duplicado neste período de Mercosul, salta aos olhos o crescimento da produção no Sul, que quase triplicou. Mais que isso, eles conseguiram adensar a produtividade, e hoje já temos municípios inteiros com produtividade média por vaca em torno de seis mil quilos por lactação, ou seja, padrão europeu.

Pois os planos originais pensados para o Mercosul não deram certo. A agricultura brasileira não foi a moeda de troca em favor da indústria. Pelo contrário! Nesse período, o Brasil organizou sua produção em cadeias altamente competitivas, e hoje alimenta seis ‘brasis’ em todo o mundo. E, no leite, estamos fazendo uma revolução silenciosa. Sem ingenuidade, no mês que vem vou analisar as oportunidades para o leite brasileiro diante deste acordo com a União Europeia, que está apenas dando seus primeiros passos. Aguarde! Volto aqui com as flores da Primavera!

Sobre o autor

Paulo do Carmo Martins é chefe geral da Embrapa Gado de Leite

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