Fazenda
 

Produtores baianos buscam profissionalização

 

 
São vários os produtores considerados como referência na pecuária leiteira baiana. Dois deles explicam aqui como conduzem seus projetos em constante evolução e com bons resultados
 
J. Santos
 

Por mais que ainda precise avançar para melhorar a produtividade, a pecuária de leite baiana já conta com bom número de iniciativas que mostram resultados positivos na atividade. É o caso, por exemplo, da Fazenda Bonanza, localizada no município de Cachoeira, e da Fazenda Água Boa, de São Sebastião do Passé. Ambas são referência de verticalização, tendo como meta uma evolução constante na produção de leite e na melhoria de seus rebanhos.


Sampaio: silagem de capim, aditivo e cana

A Bonanza, pertencente a Valdemir Acácio Osório, tinha até 2002, quando foi comprada, gado Holandês PO em confinamento, que produzia a duras penas devido ao clima muito quente da região. Do rebanho original foram reservadas 60 novilhas, que serviram de base para a formação do atual plantel Girolando, a partir do cruzamento com sêmen Gir Leiteiro, que deram matrizes 1/2 sangue. Mais tarde, foram compradas vacas Girolando para alavancar a produção de leite para o laticínio próprio, montado na fazenda.
Com 139 ha, a propriedade tem a seguinte configuração: 5 ha para produção de milho para silagem, com uma produtividade em torno de 23 t/ha. São dois cultivos por ano, sendo um deles irrigado. “A análise do solo é feita duas vezes ao ano e procedemos à adubação conforme o indicado, com participação de esterco de curral”, explica Edson Jurandir Carneiro Sampaio, gerente geral da propriedade.
O capim-cameroun também é ensilado. São reservados 20 ha para seu cultivo, parte dele,igualmente irrigado. A forrageira é cortada a cada 80 dias, sendo 40 t/ha de massa verde por corte. Na ensilagem é aplicado aditivo próprio para esse tipo de silagem ou melaço de cana-de-açúcar. Também a cana, cultivada em 8 ha, é utilizada na forma de silagem. “A silagem de cana é o que nos tem salvado no período de forte seca, que todo ano a região sofre”, observa ele.
A pastagem se estende por 64 ha e é formada com capim-mombaça. São 40 ha, divididos em 30 piquetes para pastoreio rotacionado, com um dia de ocupação por 70 vacas/ha. Quando há necessidade devido à forte seca, essa área é irrigada. A outra parte, 24 há, é de pasto extensivo de braquiária. O pasto de mombaça é adubado duas vezes ao ano, uma com nitrogênio e outra com esterco de curral.
No total, Osório dispõe de 460 animais (400 Girolando, com predominância de 3/4, e 60 Gir Leiteiro). São 120 fêmeas em lactação, 70 secas, e o restante se divide entre novilhas e bezerras. A média de produção das vacas Girolando é de 20 a 23 litros de leite/dia, enquanto as Gir Leiteiro chegam a 17 litros. O rebanho, sob controle leiteiro oficial, produz 2.400 litros de leite por dia, na média dos últimos doze meses.

Arraçoamento feito por grupos - As vacas são mantidas num regime de semiconfinamento. Após a primeira ordenha, seguem para o piquete, onde ficam até as 10 h. Desse horário até a ordenha da tarde ficam no estábulo coberto, onde recebem ração total no cocho, composta de silagem de capim ou de milho, cevada e concentrado (farelo de soja, milho moído e núcleo mineral) na proporção de 1 kg/ 3 litros de leite. Depois da ordenha da tarde, vão para os piquetes.
Para melhor arraçoamento, as vacas são divididas em grupos: lote 1 – com 25 vacas, média de 30 litros de leite por vaca/dia, que recebem 20 kg de silagem de milho, mais 6 kg de concentrado, 20 kg de cevada, mais pastoreio. O lote 2 conta com 35 vacas, com a média de 19-20 litros por vaca, que recebem 4,8 kg de concentrado, 20 kg de cevada, 20 kg de silagem de capim, mais pasto. Há ainda mais dois lotes: o lote 3, com média de 15 litros por vaca, e o lote 4, que abriga as vacas em final de lactação. A dieta fornecida é coerente com a produção.
Na Fazenda Bonanza, as recém-nascidas ficam com a mãe por três dias, fase de ingestão do colostro, e depois vão para o bezerreiro onde ficam em baias individuais num galpão coberto. Recebem 4 litros de leite por dia, mais ração e água fresca. Depois do 45º dia, passam a receber também feno, ração de crescimento, e o fornecimento de leite é reduzido para 2 litros/dia. A cada três dias elas são soltas num piquetinho para tomar Sol e ter contato com o ambiente para adquirir defesa contra parasitas. Enquanto isso, é feita a limpeza e desinfecção do bezerreiro.


Melhoria genética marca a reprodução do rebanho da Fazenda Bonanza

Com 70-80 dias de idade ocorre o desmame, quando atingem 80 kg de peso vivo. Daí em diante, separadas em lotes uniformes de desenvolvimento, vão para piquetes de braquiária, onde recebem também ração e feno. A partir 180 dias de idade, ficam no pasto de braquiária e ainda comem 2 kg de ração por dia até a idade de 17-18 meses, quando chegam aos 350 kg e são inseminadas.
O custo de produção de um litro de leite na Fazenda Bonanza está em torno de R$ 0,50 para um recebimento de R$ 0,70-0,75, pago pela unidade industrial com base na cotação do produto na região. “Para efeito de gestão administrativa, as duas atividades são separadas, como unidades de negócios”, explica Sampaio. O laticínio processa 6 mil litros de leite por dia para produzir queijo frescal e outros derivados. São comprados cerca de 4 mil litros de três outros produtores para atender à demanda do laticínio.
Segundo Osório, a meta é chegar a uma produção própria de 3 mil litros de leite por dia, com 160 vacas em lactação. A venda de animais com alto padrão genético também está prevista, estimando para isso cerca de 60 animais por ano, entre novilhas e vacas. “O mercado baiano para animais das raças Girolando e Gir Leiteiro está sempre com a demanda aquecida”, explica. Quanto à produção de lácteos, o empresário está investindo na ampliação da fábrica para processar de 30 mil litros diários.

Projeto profissional desde o início - Desde o momento em que optou pela produção de leite, Luiz Henrique Basanez Teixeira da Silva, empresário da área de limpeza, tinha uma proposta: “implementar um moderno sistema de produção, bem planejado, com gestão profissional, tecnologias adequadas e apoio de assistência técnica”. Assim, começou a pôr em prática um antigo sonho do pai, “seu” Luiz Augusto, que o ajuda na Fazenda Água Boa, no município de São Sebastião do Passé, a 70 km de Salvador.


Na Bonanza, vacas Girolando respondem por 2.400 litros/dia,
com média de 20/23 litros

Até 2004, Luiz Henrique criava caprinos e ovinos, mas não estava satisfeito com o negócio. Com a compra da nova fazenda, pôs em prática seu projeto, contando com a consultoria técnica de Ocalino Martins, especialista em pecuária de leite e diretor da Vetgen. “E também com base em muitas informações que eu vinha obtendo sobre o assunto e principalmente nos exemplos que conheci em diversas propriedades leiteiras do sul de Minas Gerais, São Paulo e na própria Bahia”.
Nos 150 ha da propriedade, depois do georreferenciamento da área, foi estabelecida a área de produção de leite de forma funcional para facilitar o trabalho. Tudo foi bem pensado, na área mais alta e arejada. Junto à sala de ordenha, a sala de espera, em piso de alvenaria com ranhuras, para evitar escorregões e problemas nos cascos. Conta com sombrite e um aspersor no centro para refrescar as vacas. Próximo ao cocho, o piso é de borracha, bem como na saída inclinada do curral.
Dessas áreas sai uma caneleta para o escoamento dos efluentes em direção ao tanque de chorume. Depois de curtido, o chorume é recolhido por equipamento adequado e distribuído nas capineiras e piquetes. Há também uma instalação com baias para o preparo dos animais para exposição, torneio leiteiro e para tratamento e intervenção veterinária. O telhado de todas as instalações para os animais é de telha cerâmica, que propicia maior conforto térmico.
Nas áreas mais planas e bem drenadas ficaram as pastagens para o pastoreio rotacionado, com as devidas áreas de descanso, os cochos e bebedouros, o piquete-maternidade e os de criação das bezerras. O pasto é dividido em 15 piquetes com capim-braquiária e tanzânia de tamanhos variáveis para dois dias de ocupação pelas vacas em lactação. Dois hectares de tifton subdivididos para o pastoreio de novilhas e bezerras. A capineira de napiê irrigado tem 8 ha. Os cortes são feitos a cada 80 dias. Também são feitas silagens de capim e de milho (10 ha, com uma produtividade de 32 t/ha).


Luis Henrique, seu pai e a capineira de napiê

Todos os piquetes possuem bebedouros com água proveniente de poço artesiano, que abastece também toda a área de produção. Ao todo, são consumidos cerca de 30 mil litros de água por dia. “Primeiramente, pensei na infraestrutura de produção de alimento e só depois de garantida, comecei a comprar animais de criatórios de renome tanto de Minas, como da Bahia”, explica Luiz Henrique, informando que a base do rebanho é de animais Girolando 1/2 e 3/4 de sangue, de alto padrão genético.

Rebanho quase estabilizado - Atualmente, o rebanho é formado por 200 animais, com 47 vacas em lactação, 22 secas, 40 novilhas prenhas, 53 novilhas recém-compradas e 38 bezerras. A produção diária é de 1.100 litros de leite, numa média, nos últimos doze meses, de 23,4 litros/vaca/por dia (variando de 20 a 47 litros/vaca), e já com algumas matrizes fechando a lactação em 15.800 litros. “Ainda compro animais, pois o rebanho está em processo de estabilização”, explica Luiz Henrique.
As bezerras mamam o colostro nas seis primeiras horas. As filhas das vacas 1/2 sangue ficam com a mãe. Na hora da ordenha dão uma mamada e são levadas para uma área próxima da sala de ordenha, onde recebem 2 litros de leite de manhã e 2 litros à tarde, além de ração e feno. As filhas das matrizes 3/4, 5/8 e 7/8, depois de ingerirem o colostro, vão para o bezerreiro, onde recebem entre 4 e 6 litros de leite por dia, além de já terem à disposição ração e feno.
A desmama ocorre ao 60º dia do nascimento e elas vão para o piquetinho “escola” para ganharem imunidade contra parasitas e também se adaptarem à cerca elétrica. Aí recebem ração e feno até os 90 dias, quando seguem para o piquete com tifton, recebendo ainda ração e feno, até atingirem os 350 kg, quando são inseminadas.


Sala de orgenha na Água Boa: limpeza e instalações adequadas

Os animais em lactação são divididos em lotes para receberem o alimento de acordo com seu estádio de lactação. O lote 1 é o de melhor produção, formado por 21 vacas, com a média de 30 kg, que recebem cerca de 10 kg de concentrado (milho moído, farelo de soja, ureia, calcário calcítrico, premix), na proporção de 1 kg/3 litros de leite, 20 kg de capim-napiê picado (ou silagem de milho, na seca), 15 kg de cevada. No lote 2, são 16 vacas com média de 20-25 litros, que recebem 6 kg de concentrado, 15 de silagem de capim e 10 kg de cevada.
Luiz Henrique observa que ainda está investindo no aprimoramento do sistema e no ajuste do rebanho. O custo médio de produção gira em torno de R$ 0,43 o litro, para um recebimento de R$ 0,66 por litro entregue no próprio município. Informa que sua meta é atingir os 3 mil litros por dia até 2012, com 150 vacas em lactação, com a média de 20 litros por vaca/dia. Para isso, o apuramento genético é contínuo e sempre com o foco em produção, sanidade e longevidade. “Estamos cada vez mais trabalhando com FIV e TE para atingirmos essa meta”, cita.


Sala de orgenha na Água Boa: limpeza e instalações adequadas

Está nos planos também a venda de cerca de 15 animais por ano, de alto padrão genético, fora os de descarte, explica o produtor. A sanidade do rebanho merece um cuidado especial. Prova disso é que a Fazenda Água Boa está no seleto grupo das propriedades rurais que já detêm a Certificação de Rebanho Livre de Brucelose e de Tuberculose, conferido pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Mais informações:
Fazenda Bonanza, Cachoeira-BA
Telefone: (75) 3414-3017 / (75) 9934-3220

Fazenda Água Boa, São Sebastião do Passe-BA;
Telefone: (75) 9968-8950.

 

 

Produtores Organizados

Os avanços obtidos em propriedades baianas de porte médio podem também ser vistos em produtores familiares. A justificativa está na relação entre organização e assistência. Esse é o caso de produtores do bairro Quichabeira, no município de Uibaí-BA, na região do Semiárido, próximo de Irecê. Há cinco anos, 16 produtores fundaram a Associação Caldeirão de Uibaí, com o objetivo de incrementar a atividade leiteira, que é a principal fonte de renda de suas famílias.
Contando com a orientação técnica do médico veterinário Overlaque Brito Dourado, gerente técnico da Adab-Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia, esses produtores ganharam em eficiência, e nove deles foram os primeiros da região Norte e Nordeste a receberem do Ministério da Agricultura a Certificação de Rebanho Livre de Brucelose e Tuberculose Bovina, em cerimônia durante a Fenagro 2009.
Darlan Nunes Santana é um desses produtores que vêm obtendo resultados cada vez melhores dentro de suas condições. Ele produz em média 100 litros de leite por dia, com nove vacas das raças Girolando e Jersey, confinadas no quintal de sua casa. Ao todo, são 14 animais. A dieta consiste em raspa de mandioca, mais concentrado (milho moído e farelo de soja), na base de 10 kg por dia para cada vaca. “A vaca que passar dos 20 litros de leite por dia recebe capim-elefante picado”, explica ele.


Santana: fazenda livre de brucelose e tuberculose

Santana conta que o primeiro passo, ao fundarem a associação, foi adquirir, por meio de financiamento, um tanque de resfriamento de leite comunitário, com capacidade para 3 mil litros, quitado em novembro. Ao todo, os associados produzem mil litros de leite por dia. “Temos recebido orientação para melhorar o manejo do rebanho, cuidados sanitários e fornecer um alimento melhor, o que tem sido muito importante para nossa sobrevivência”, diz o produtor.
Para ele, a certificação veio dar mais um estímulo para querer crescer mais. “Já temos planos de instalar um pequeno laticínio, como forma de agregar valor ao nosso produto”. Hoje, a associação vende leite para o Programa Fome Zero, recebendo R$ 1,00 por litro de leite, para a Prefeitura de Uibaí, por R$ 0,80, e para um laticínio da região, por R$ 0,70. “Para nós, está muito bom. Com isso, todos querem aumentar a produção e melhorar a qualidade do leite”.