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Em 1997, o operário Pedro Roberto Simões
e a empregada doméstica Sirlene Maia Simões, casados,
ambos de origem rural, se sentiam deslocados morando na cidade. Por
isso, venderam a casa que haviam construído e, com o dinheiro,
conseguiram pagar parte do valor de uma área rural de 9,8 ha,
localizada no município de Uru-SP, batizando-a de Sítio
Nossa Senhora Aparecida. Encontraram a terra abandonada, sem condições
de produzir. "Isso aqui era puro capim amargoso", ele se lembra.
Assim mesmo, mudaram, junto com o filho Rodrigo, então, com 4
anos, para a casa miúda, velha e surrada, que havia no local.
O relato da situação inicial exige uma pausa e um avanço
no tempo, para onze anos depois da compra do sítio, ou seja,
para o cenário atual, em 2008, já que a situação
mudou por completo. O sítio ganhou uma nova paisagem, onde predominam
pastagens bem cuidadas, gado leiteiro de boa qualidade e lavouras em
plena produção. Tornou-se referência e modelo para
o sistema familiar de produção de leite, recebendo visitas
em caravanas de distantes municípios. A família cresceu
e conta com mais uma filha, Suzana, de sete anos.

Simões:
investimento sem pressa
"Hoje, vivemos somente com a renda gerada com a
propriedade. Além do café, plantado no primeiro ano, temos
também a produção de leite, iniciada há
cinco anos. Apesar de o dinheiro ser pouco, já conseguimos comprar
um fusca e estamos terminando a ampliação da casa",
continua Simões. A pequena moradia ganhou uma boa ampliação,
um novo telhado e uma espaçosa varanda. Nos fundos, foram construídos
um estábulo e instalações para a produção
de leite que, juntos com a velha tulha de madeira, formam o rol de benfeitorias
do sítio.
"Tudo foi sendo feito sem pressa, no tamanho necessário,
para não gerar dívidas", declara ele. No campo, se
encontram, além dos iniciais 4.500 pés de café
em plena produção, 1,7 ha de pastagens irrigadas e 1,1
ha de cana-de-açúcar usada para fornecimento de volumoso
na seca. O rebanho é de 20 vacas leiteiras e um touro registrado.
A produção média atual é de cerca de 280
litros de leite/dia e de 250 sacas de café por colheita.
Apesar de ser considerada pequena, a propriedade ainda sofreu uma diminuição
significativa da área produtiva, por força da lei ambiental.
Foram retirados 25% da área para servir de reserva legal, já
averbada em cartório. São 2,45 ha impedidos para o uso
produtivo, localizados em torno do único curso d'água,
onde nem sequer o gado pode entrar. O produtor conta que o projeto de
ampliação do sistema de irrigação e abastecimento
de água para o gado, para o qual é necessário construir
nessa área de reserva um pequeno açude para bombeamento,
está, há um ano, à espera da aprovação
dos órgãos competentes.
Mesmo com utilização parcial da área, a propriedade
com menos de 10 ha está proporcionando renda suficiente para
melhorar o padrão de vida de uma família de quatro pessoas,
além de recursos para manter investimentos em tecnologias de
produção de leite e aquisição de vacas para
aumento do rebanho. Frente a essa descrição e sabendo
do uso de recursos próprios (apenas foram contratados alguns
financiamentos, com prazos de vencimento anuais e já quitados),
as perguntas são inevitáveis: o que foi feito pelos Simões
para servirem de exemplo? Quais as etapas vencidas? Que tipo de planejamento
realizaram? Que orientação receberam?
Reinvestir em sistema enxuto - Quem oferece uma resposta inicial é
a engenheira agrônoma Liliane Reveriego Carneiro Maia, que presta
assistência ao sítio desde 2005: "A produção
cresceu com critérios e paulatinamente, de acordo com sua disponibilidade
financeira". Explica que o produtor buscou orientação
ao entrar no programa estadual de microbacias hidrográficas,
coordenado pela Cati-Coordenadoria de Assistência Técnica
Integral. "Na mesma época, em 2003, ele entrou no programa
Balde Cheio, orientado pela Embrapa Pecuária Sudeste, recebendo
suporte técnico para colocar em prática seus planos",
diz, observando que Simões ainda contratou, há um ano,
os serviços de um veterinário, melhorando os índices
sanitários e reprodutivos do rebanho.
Outra parte das respostas vem do comportamento do casal frente às
necessidades do sítio. Trabalho determinado, gastos controlados,
formação de poupança e seu reinvestimento no próprio
sítio podem ser fundamentais para criar um sistema de produção
enxuto e cada vez mais eficiente, com níveis adequados de produtividade.
É o que se deduz ao se observar a rotina dos Simões. "Dividimos
as tarefas, de modo que a Sirlene toma conta da lavoura de café
e eu fico com a atividade leiteira, contando com a ajuda do filho Rodrigo,
o que não impede que atuem em conjunto sempre que for preciso",
descreve Simões. Cita que não se pode dar ao luxo de contratar
empregados, pois isso comprometeria a renda.

Liliane:
sobre-semeadura de azevém em tifton
A maior parcela do lucro tem sido reinvestida na produção,
pois, segundo o produtor, esse hábito estimula o crescimento.
"Foi assim que conseguimos, com o que sobrava da venda do café,
plantar e dividir o primeiro pasto, comprar as primeiras seis vacas.
Depois, com as duas atividades, passamos a usar as sobras para investir
na irrigação, na ordenha, instalações e
aumentar o rebanho. Hoje, ultrapassamos até nossos sonhos mais
altos, que era produzir 200 litros por dia", relata.
Controlar custos foi uma das tarefas obrigatórias para participar
do programa Balde Cheio. O produtor tem que fazer anotações
diárias sobre as ocorrências financeiras e zootécnicas,
senão, perde o direito de receber assistência dos técnicos.
Os dados são lançados no computador pela agrônoma
Liliane Maia, para posterior análise do produtor e dos profissionais
da Embrapa. Na opinião de Simões, esse detalhe foi muito
importante para ele obter mais informações sobre o seu
rebanho e sobre o desempenho das atividades. "Agora, sei o valor
de cada item das despesas e em qual deles devo economizar. E, baseado
nessas contas, tenho certeza de que o leite dá uma renda por
área muito maior que o café", completa.

Irrigação
garante pastejo rotacionado no tifton, o ano inteiro
A compra de alguns insumos é feita em conjunto
com outros produtores vizinhos, com o apoio da prefeitura local, que
também fornece serviços de maquinários e veículos
a preços de custo. É uma forma de baratear o insumo, graças
ao maior volume da compra. "Isso é importante, pois os gastos
com os ingredientes da ração e com o sal mineral superam
50% do total das despesas", indica. Para enfrentar uma situação
de recursos financeiros escassos e atividades que exigem trabalho intenso,
o uso da criatividade e da coragem de tomar decisões tem sido
uma constante na vida dos Simões.
Essa pode ser considerada mais uma explicação para o caminho
percorrido por eles até aqui. Um exemplo é que decidiram
não criar ou recriar as fêmeas nascidas no rebanho. Assim
como ocorre com boa parte das propriedades leiteiras, que descartam
os machos logo após o nascimento, no Sítio Nossa Senhora
Aparecida, as fêmeas também são vendidas logo depois
de mamarem o colostro, por um preço atrativo, para outros pecuaristas
que as criam por amamentação artificial. "A procura
por fêmeas de poucos dias tem sido grande, desde que sejam filhas
de touro e vacas de boa raça leiteira, que é o nosso caso",
comenta Simões.
Assim, o setor leiteiro se especializa em produzir leite e evita os
custos, a mão-de-obra e o tempo exigidos para se criarem bezerras
e novilhas. A reposição das vacas é feita em compras
nas propriedades leiteiras da região. "Apesar de haver uma
diferença de preço razoável entre o descarte de
uma vaca que não se encaixa no sistema e a compra de uma de boa
qualidade no mercado, esse método é compensador para o
sistema implantado no sítio. O manejo se torna mais simples e
adaptado ao trabalho familiar, mantendo o casal com o foco voltado para
as vacas adultas e os cuidados com a lavoura de café. Essas tarefas
demandam atenção constante", argumenta Liliane Maia.
"E o modelo tem dado resultado, pois o rebanho está crescendo
sempre, acrescentando animais de melhor padrão genético,
mesmo que às vezes seja preciso usar linhas de financiamento
destinadas à exploração familiar", diz. A
média de produção diária por vaca no período
de agosto/2007 a julho/2008 ficou em 17,8 litros. Cada animal recebe
concentrado balanceado individualmente, de acordo com suas necessidades
de proteína, energia e nutrientes. São levadas em conta
a produção individual de leite, a data da parição
e as reservas de insumos do sítio.
Crescente melhoria da produtividade - Seguindo receita deixada pela
agrônoma, anotada em lousas com o nome de cada vaca, o produtor
coloca em pequenos cochos de plástico a quantidade de cada ingrediente
e faz a mistura com as mãos. "O fornecimento de concentrado
acontece todos os dias do ano, pois o pasto, mesmo de alta qualidade,
oferece apenas uma parte dos nutrientes exigidos por vacas mais produtivas.
O sistema de alimentação individualizado, de um lado,
reduz o desperdício de ração ao mínimo;
de outro, aumenta a eficiência na produtividade por animal",
diz ela.
Procurar a melhoria permanente nos índices de produtividade,
eis mais um ingrediente da receita usada pela família. Liliane
Maia visita a propriedade duas vezes ao mês e participa do controle
mensal de pesagem do leite. Junto com o casal de produtores, verifica
o estado das pastagens e das culturas do café e da cana, recomendando
a adubação e os tratos adequados para cada setor. Segundo
as análises de solo anuais, os índices de fertilidade
do solo têm aumentado a cada ano.

Instalações
simples: a marca do estábulo e da sala de ordenha (ao fundo)
Na área de pastagens, anualmente, é feita
a correção da acidez do solo com calcário e uma
adubação com fertilizante fosfatado e, depois, à
medida que vão sendo pastejadas, são feitas adubações
de cobertura com fertilizante nitrogenado. Este último é
lançado manualmente, assim que as vacas deixam o piquete. "Durante
a seca, a adubação cai pela metade, mas os piquetes continuam
sendo utilizados graças à irrigação e à
sobre-semeadura de inverno", esclarece Simões. A lotação
de verão é de cerca de 10 vacas/ha e no inverno é
de cerca de 4 vacas/ha, considerando-se a área útil de
pastos. Para tanto, esses recebem em torno de 1,5 tonelada/ha/ano de
cobertura com uréia.
Foram implantados quatro módulos de pastejo, sendo dois em capim-mombaça
e dois em grama tifton. O módulo pioneiro tem 0,4 ha e foi plantado
em 2002 com mombaça, pouco antes de Simões entrar para
o programa Balde Cheio. "Por sorte, o coordenador do projeto, o
agrônomo Artur Chinelato, veio aqui antes da compra das seis vacas
e sugeriu que a gente fizesse, primeiro, a divisão da área
em 28 piquetes, com cerca elétrica, e receitou o esquema de adubação
e o manejo rotacionado. Só então deu o 'alvará'
para a compra das vacas. Agora eu percebo que isso permitiu a manutenção
desse pasto até hoje, mantendo bem alimentadas as vacas no tempo
das águas", fala o produtor.
E sempre que planeja comprar mais vacas, Simões prepara primeiro
a área onde elas irão pastar, dividindo-a em vários
piquetes. O segundo módulo foi implantado em 2004, também
de mombaça, possui 0,8 ha, é repartido em 28 piquetes
de 240 m2 e suporta até 8 vacas no verão. Depois disso,
foi plantada a grama tifton em mais 0,5 ha, em dois módulos com
menor número de piquetes, 18 por módulo, com 135 m2 cada.
A lotação possível no tifton é de até
10 vacas durante as águas. Adota-se o sistema de pastejo noturno,
liberando-se o piquete mais descansado para entrada das vacas apenas
depois de finalizada a segunda ordenha do dia.
A irrigação das pastagens é realizada por aspersão.
"Foi o primeiro investimento intensivo pago apenas com a receita
do leite. Depois, veio a ordenha mecânica em 2006 e, nesse ano,
a troca de resfriadores, substituindo o pequeno por um de maior capacidade,
para 1.000 litros. A vantagem do leite é que a renda mensal permite
que a gente faça investimentos e pague as parcelas dentro do
orçamento", aponta Simões. Por isso, o projeto busca
a parição de vacas em todos os meses do ano. O uso da
irrigação consome 3 horas de energia elétrica por
dia e quase não interfere na planilha de custos. Esse item perfaz
cerca de 4% do total de despesas do sítio.
Para se preparar para o período seco do ano, Simões adota
a sobre-semeadura dos pastos com forragens típicas de inverno,
com aveia e azevém. Assim, o pasto ainda permite, nesse período,
lotação de cerca de 4 vacas/ha. E o restante do rebanho
tem que ser alimentado no cocho, com cana cortada à mão,
triturada e misturada com o concentrado. O produtor mostra as planilhas
financeiras do setor leiteiro, formatadas pela Embrapa Pecuária
Sudeste, preenchidas pela agrônoma e entregues a Simões
todos os meses. Nelas, estão demonstrados os cálculos
acumulados para o período dos últimos 12 meses, que apontam
para índices bastante significativos. A área útil
considerada é de 5 ha e é levada em conta a depreciação
do capital e o custo oportunidade da terra.
A produtividade é de 17,6 mil litros/ha/ano, sem considerar o
equivalente-leite. O lucro por litro era de R$ 0,363, em outubro. Por
área, é de R$ 6,4 mil/ha/ano, sem considerar a remuneração
do proprietário. Entretanto, os Simões destinam 43,5%
da receita do leite para investimentos, diminuindo o saldo de fluxo
de caixa para um valor mínimo suportável. Essa reaplicação
de recursos fortalece a estrutura de trabalho do sítio, permitindo
constante crescimento. "O programa Balde Cheio mudou minha cabeça,
mudou minha vida. Hoje, enxergo as coisas de modo diferente, trabalho
com planejamento e mais conhecimento daquilo que o solo e as pastagens
podem produzir. Posso garantir que nesse sítio, mesmo pequeno,
ainda há muito por se fazer", finaliza Simões.
Mais informações: Casa da Agricultura de Uru-SP - engenheira
agrônoma Liliane Reveriego Carneiro Maia - telefone: (14)3582-1138.
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