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Os custos que envolvem as categorias não produtivas dentro de uma propriedade leiteira sempre mereceram atenção especial, quando não justificada preocupação por parte dos produtores. É o caso da criação de bezerras e novilhas que, em curto prazo, além de não apresentarem retorno aferível no balanço da atividade apontam valores na coluna de despesas que precisam ser absorvidos pela produção de leite ou, às vezes, com a própria venda desde que o rebanho esteja equilibrado em reposição.
São vários os métodos que ajudam a calcular a participação da cria e recria na planilha de custos. Um deles, desenvolvido pelo Departamento de Zootecnia da Esalq-Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz/USP, aponta que só o fornecimento de leite chega a representar 70% do custo de criação de bezerras até o desmame. “O que implica que o desaleitamento precoce pode ser uma estratégia econômica de peso nos cálculos finais dessa etapa”, informa Paulo Moraes Ozaki, graduando da citada escola.
Em trabalho recente realizado por ele, em conjunto com os professores Marco Antonio Pennati e Carla Maris Bittar, sugere que para calcular os custos de tal categoria animal é necessário, inicialmente, dimensionar a quantidade de animais que serão criados até o desaleitamento, por ano. Para chegar a esses números é preciso saber o tamanho do rebanho de vacas, bem como alguns índices zootécnicos, como intervalo entre partos, período de lactação e taxa de mortalidade.
“Sendo assim, para um rebanho de 100 vacas, com intervalo entre partos de 13 meses, período de lactação de 330 dias e com taxa de mortalidade de 5% no período do nascimento até o desaleitamento, se espera nascimento de 80 animais/ano, o que deve representar cerca de 40 fêmeas. Esta seria uma base de cálculo”, sugere Ozaki. Para a composição dos custos de criação das bezerras são considerados o investimento, o manejo e alimentação dos animais até o desmame.
No item investimento, se considera o custo inicial do animal, a depreciação dos animais, casinhas, valor da terra e uma taxa anual de 6%. Para a composição do custo com manejo e alimentação são considerados os itens mão de obra, ração, leite, feno e sanidade. No regime de criação onde foi realizado, o estudo – a própria fazenda da Esalq/USP, em Piracicaba-SP – tem como cenário as chamadas casinhas tropicais, com desaleitamento aos 60 dias. Com isso, o sistema que adota o regime de 4 litros de leite/dia gasta cerca de R$ 300 para desaleitar uma bezerra.
A professora Carla Maris Bittar diz que o que mais prevalece nessa etapa é o desafio de se ter uma boa bezerra e uma novilha bem desenvolvida, saudável e pronta para parir, com um custo mais reduzido possível. Neste caso, seus cálculos variam na faixa de R$ 2.600 até o momento em que a novilha dá início a sua primeira lactação e se transforma em vaca. Segundo ela, uma cotação que pode ser alterada para mais ou para menos dependendo dos ajustes que se faça entre o fornecimento do colostro e o momento de se ter no plantel uma nova matriz.

Carla: ajustes na criação definem custo da novilha
Mais colostro, mais leite - Os cálculos adotados nessa etapa são variáveis, a começar pelo desaleitamento precoce. “Quanto mais leite se fornecer, mais caro vai custar essa etapa”, cita. Outro aspecto diz respeito à fase pós-aleitamento, quando se busca as chamadas dietas de custo mínimo, uma vez que a alimentação durante esta fase até a primeira parição representa de 60 a 80% dos citados R$ 2.600. “No entanto, o adequado fornecimento de colostro de qualidade tem forte impacto nas taxas de sobrevivência do animal e também na sua saúde e crescimento”, destaca.
Para enfatizar ainda mais a importância dessa etapa, citou um trabalho recente, realizado por um produtor de Wisconsin-EUA, que provou que bezerras que receberam maior quantidade de colostro tiveram maior produção de leite na primeira e segunda lactações. Isso foi comprovado ao se fornecer, em vez de dois litros em cada refeição, quatro litros de colostro. Com isso, as bezerras apresentaram maior ganho de peso de imediato e, mais tarde, produção de leite mais elevada. Um dos citados desafios está exatamente nesse aspecto, ou seja, aferir o custo-benefício da sugerida prática norte-americana.
O certo é que atender às necessidades do bezerro e aumentar o ganho de peso nessa fase ajuda a reduzir a idade do primeiro parto, segundo ela, pois animais mais nutridos, por sua vez, significam maior resistência, mais força, maior desenvolvimento esquelético e uma maior produção de leite futura. Entretanto, é preciso ter cuidados no desempenho durante o período de transição, ou seja, quando o bezerro está deixando de ser pré-ruminante para passar a ser ruminante. “É preciso que o animal tenha o rúmen pelo menos parcialmente desenvolvido para que se possa retirar a parte líquida da sua dieta”, destaca.
São três os critérios utilizados para o desaleitamento. A maior parte dos produtores se utiliza do critério idade. Então, quando o bezerro alcança uma determinada idade, oito semanas, seis semanas, 60 dias, ele é desaleitado. E isso está relacionado com a capacidade que o animal tem, naquela determinada idade, de consumir concentrado. No entanto, alguns bezerros, mesmo em idade avançada, não apresentam consumo de concentrado adequado. Então, surge o critério consumo de concentrado como indicador para desaleitamento. Na prática, para bovinos de raças grandes a referência de consumo médio de concentrado é de 700/800 g/dia durante três dias consecutivos. No caso das raças pequenas, esse volume é um pouco menor, de 450 a 500 g/dia.
Como pode haver variações de peso dentro da raça, o melhor é fazer ajustes dentro de uma referência padrão, considerando o peso de nascimento. No experimento realizado por Carla Bittar, quando pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste, se chegou a desaleitar bezerros com 28 dias de idade, com consumo adequado, o que significa um efeito grande no custo de produção dessa categoria animal. Como tem de ser esse concentrado, então? “O mais importante é que seja composto de ingredientes de alta digestibilidade, se possível, composto por milho e farelo de soja”, recomenda.
Parição entre 22 e 24 meses - De forma específica, a criação de novilhas representa o segundo maior custo na atividade leiteira, cerca de 20% das despesas totais, perdendo somente para os custos em alimentação do rebanho em produção. “Consequentemente, minimizar gastos na criação de novilhas, sem prejudicar o desempenho ou o potencial produtivo dos animais de reposição, deve ser o principal objetivo nos sistemas de criação”, lembra Lucas Silveira Ferreira, aluno de Doutorado em Ciência Animal e Pastagem da Esalq e orientando da professora Carla Bittar.

Ozaki: desaleitamento pode ser uma estratégia econômica
Vários trabalhos demonstraram benefícios na vida produtiva de animais de reposição com parição entre 22 e 24 meses da idade. “Novilhas parindo aos 23 meses adquirem 107 dias a mais na vida produtiva, produzem 1.475 kg mais leite que animais parindo aos 26 meses. Embora a idade mais adiantada para a parição tenha benefícios comprovados, o peso na parição influencia a produção na primeira lactação quatro vezes mais do que a idade à parição sozinha,” explica. O certo é que o peso ideal à parição deve estar entre 544 e 567 kg para maximizar a produção na primeira lactação.
Uma equipe de professores do Departamento de Zootecnia do Centro de Ciências Agrárias da Universidade Estadual de Maringá, liderada pelo professor Geraldo Tadeu dos Santos, tem enfatizado que as novilhas, apesar de determinarem o futuro potencial de produção em uma propriedade, nem sempre recebem a atenção merecida. “Atribuir a elas um correto manejo nutricional e profilático é básico para o produtor que pretende elevar o nível de lactação do rebanho. Além de traduzir o futuro do negócio, o gado jovem deve significar o que há de melhor em genética na propriedade e, por isso, a possibilidade de um ganho extra com a venda de excedentes”, destaca.
Recomenda que se trabalhe com uma taxa de descarte igual ou acima de 25% para se ter disponibilidade de novilhas. “Quando se aumenta a idade da primeira cria, dos 24 para os 36 meses, por exemplo, o número de novilhas disponíveis por ano cai de 39 para 26, dificultando o melhoramento zootécnico necessário para o aumento da produção e produtividade do rebanho. Outro fator tão importante quanto a idade ao primeiro parto é o intervalo entre partos. Quanto menor for este indicador, mais bezerras nascem e mais novilhas são obtidas anualmente”, relata ele.
Novilhas distribuídas em grupos - Santos afirma que para se conseguir que as novilhas sejam cobertas aos 16 meses de idade e peso médio de 340/360 kg para as raças de grande porte é necessário acompanhar o desenvolvimento dos animais do desmame até a primeira inseminação, atentando principalmente para o ganho de peso médio diário durante a fase de crescimento dos animais, que está intimamente relacionado com o manejo nutricional adotado. As novilhas devem ser agrupadas de acordo com seu crescimento. Quanto mais novas, maiores são os cuidados sanitários, além disso, cada grupo tem exigências nutricionais específicas.
Em condições adequadas, sugere que as novilhas sejam distribuídas em seis grupos: bezerras até o desmame (zero a dois meses); novilhas de transição (dois a quatro meses); 3 novilhas pré-púbere (quatro a dez meses); novilhas em reprodução (10 a 15 meses); novilhas prenhes (15 a 23 meses) e novilhas no pré-parto (23 a 24 meses). “Em cada um desses grupos o número de animais não deve ser superior a oito animais. Se uma novilha não está pronta para ir para o próximo grupo, fica no que está, até se desenvolver e alcançar condições ideais para a mudança de grupo”, observa.

Na criação de novilhas deve-se monitorar a taxa de crescimento
Terceirização nos EUA
Departamento Nacional da Agricultura dos Estados Unidos conduziu recentemente um estudo envolvendo fazendas de leite do País, no qual foi questionada a utilização do sistema de recria terceirizado. A iniciativa teve como meta identificar as soluções dadas à criação de animais de reposição, principalmente durante a fase de aleitamento, já que tal etapa representa cerca de 20% do total das despesas operacionais em uma fazenda leiteira norte-americana, o que se traduz por investimento com retorno financeiro insatisfatório.
A professora Carla Maris Bittar e o aluno de Doutorado Lucas Silveira Ferreira, da Esalq-Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, ao analisarem os resultados do estudo apontam que é cada vez mais comum a adoção da recria dos animais fora da fazenda, contratando-se serviço terceirizado. “Neste sistema, fazendas especializadas criam um grande número de animais, representando ganhos econômicos em escala que lhes permitam produzir novilhas com um custo inferior ao de uma fazenda leiteira sozinha”, informa ela.
A operação é simples: as bezerras são transportadas para as fazendas com uma idade determinada, antes ou depois do desaleitamento, e são criadas com base em contratos que especificam as expectativas de cuidados de saúde e desempenho, juntamente com o pagamento de responsabilidades. Vários tipos de contratos são utilizados. Por exemplo, os contratos em que os produtores pagam as fazendas por dia ou por quilo de ganho de peso e contratos em que o produtor vende as novilhas para a fazenda de recria na entrega e mantém a opção de comprá-las de volta antes da parição.
“Para fazendas com estrutura, mão de obra e outros componentes limitados, a adoção deste tipo de recria apresenta inúmeras vantagens. As fazendas de recria de bezerras têm como vantagens a mão de obra de funcionários especializados, dedicados ao trabalho só com bezerras, o que pode resultar num aumento da atenção para alimentação e, principalmente, a saúde dos animais”, relata Ferreira. Entretanto, destaca que a vantagem mais importante da adoção deste sistema é produzir animais de reposição de forma eficiente, com ganhos de peso que permitem a parição aos 24 meses.

Recria terceirizada envolve 10% das fazendas nos EUA
Na recria, bezerras desaleitadas - O estudo aponta que uma em cada 10 fazendas (9,3%) cria suas novilhas de forma terceirizada. Menos de 5% das pequenas fazendas cria suas novilhas fora da fazenda, em comparação aos 15,5% das fazendas médias e 46% das grandes. Aproximadamente um terço das grandes fazendas (35,3%) realiza a recria de seus animais em outra fazenda especializada. Os produtores que enviam qualquer classe de novilhas para recria foram convidados a identificar as principais classes enviadas para as fazendas especializadas. Metade das fazendas (50,1%) envia bezerras logo após o período de colostragem.
As bezerras desaleitadas foram a principal categoria de novilhas enviada para recria em 44,1% das fazendas, sendo enviadas com uma média de idade de seis meses. Apenas 5,8% das fazendas enviam novilhas com idade e peso de inseminação para recria, com uma média de 413 dias de idade (13,5 meses). A média de idade em que todos os animais, independentemente de classe, são transportados para uma fazenda de recria é de 110 dias. E das fazendas que enviam novilhas ou bezerras para recria, cerca de dois terços recebe essas novilhas já prenhes, com uma média de idade de 21,6 meses, de volta à fazenda.
Cerca de uma em cada três fazendas (30,3%) traz as novilhas de volta às suas fazendas de origem após o desaleitamento, com uma média de idade de sete meses. Apenas 2,1% das fazendas trazem de volta novilhas já paridas. A média de idade em que todas as classes de novilhas retornam às fazendas de origem é 17,3 meses. Outra conclusão do estudo é que a maioria das pequenas e médias fazendas transporta suas novilhas para propriedades a menos de 30 km para recria terceirizada, enquanto a maioria das grandes fazendas transporta suas novilhas entre 8 e 80 km.
Neste levantamento, os produtores apontaram o fator mais importante na escolha da fazenda para qual enviam seus animais. Para a grande maioria, o mais importante é a transmissão de doenças. No entanto, apenas um terço das fazendas envia seus animais para fazendas onde estes não tenham contato com bovinos provenientes de outras fazendas. Quase dois terços das fazendas que envia novilhas para recria (63,8%) as enviam para prestadoras de serviço onde estas tem contato com animais de outras fazendas.
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