Leite: preço ao produtor mantém queda

  • 7 de novembro de 2016
Leite: preço ao produtor mantém queda

Pelo segundo mês seguido, o preço do leite pago ao produtor sofre recuo. O valor pago em outubro apresentou forte baixa, de 8,5% em relação a setembro


O avanço da safra em grande parte do Brasil, que eleva a produção e a captação de leite pelas indústrias, e a persistente fraca demanda nacional pressionaram os valores pagos ao produtor em outubro pelo segundo mês seguido. Segundo pesquisas do Cepea-Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq/USP, o preço médio recebido pelo produtor na “média Brasil” (sem frete e impostos) foi de R$ 1,3961/litro no mês, forte baixa de 8,5% (ou de R$ 0,13/litro) em relação a setembro.

Mesmo com a queda mensal, o preço pago ao produtor ainda acumula alta de 37,3% neste ano, em termos reais (valores deflacionados pelo IPCA de setembro/16). O preço bruto médio do leite (que inclui frete e impostos) caiu 8% de setembro para outubro, passando para R$ 1,506/litro. As médias calculadas pelo Cepea são ponderadas pelo volume captado em setembro nos estados de GO, MG, PR, RS, SC, SP e BA.

A captação de leite aumentou em todos os estados que compõem a “média Brasil”, refletindo a recuperação das pastagens, favorecida pela chegada das chuvas em grande parte das bacias leiteiras. De agosto para setembro, o Índice de Captação de Leite do Cepea (ICAP-L/Cepea) aumentou significativos 6,24%, com destaque para Bahia e Rio Grande do Sul, onde foram verificadas altas de 10,72% e de 9,8%, respectivamente.

Já o menor aumento na captação foi observado no Paraná, de 1,77%. Para novembro, com o avanço da safra, representantes de laticínios/cooperativas consultados pelo Cepea apontam nova queda nos preços do leite. A maioria dos agentes entrevistados (94,2%), que representa 99,8% do leite amostrado, indica que os valores devem cair. Outros agentes (1,9%), que representam 0,02% do volume amostrado de leite, acreditam em estabilidade.

No mercado de derivados, os valores também caíram, especialmente no Sudeste do País, devido à entrada de produtos lácteos vindos do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e Paraná. Como a safra na região Sul do Brasil ocorre antes que no Sudeste, os produtos sulistas chegam a valores menores aos demais estados, acirrando a concorrência. Além disso, a demanda está enfraquecida, em decorrência dos elevados patamares de preços nos últimos meses, o que tem aumentado os estoques dos derivados e pressionado as cotações.

Os preços médios do leite UHT e do queijo mussarela negociados no atacado de São Paulo em outubro (até o dia 28) foram de R$ 2,23/litro e de R$ 17,05/kg, respectivamente, significativas quedas de 10,16% e de 10,96% em relação às médias de setembro. Com o cenário de baixas intensas desde agosto, a variação acumulada do leite UHT desde o início do ano já passou a ser negativa, em 4,9%.

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Queda dos preços no atacado
Outra fonte, a Scot Consultoria, confirma a tendência de queda no mercado de lácteos, apontando que, em geral, os preços caíram 1,0% no setor atacadista na primeira quinzena de outubro, em relação ao fechamento de setembro, considerando a média de vários produtos pesquisados. No estudo coordenado por Rafael Ribeiro, o queijo mussarela, queijo minas frescal e o requeijão lideraram as quedas, com desvalorização de 2,9%, 2,4% e 2,3%, respectivamente.

Já o leite longa vida apresentou queda quinzenal de 2,0%. O litro ficou cotado, em média, em R$ 2,47 nas indústrias em São Paulo, Minas Gerais e Goiás. As cotações estão em queda desde meados de julho deste ano, segundo a Scot. “O aumento da produção de leite neste início de safra nas principais bacias leiteiras colabora com este cenário de queda de preços dos lácteos na indústria. A demanda interna patinando ajuda”, cita ele, a exemplo do Cepea.

Observa, por sua vez, que a pressão de baixa é maior nas regiões Sudeste e Sul, onde os incrementos na oferta de leite têm sido maiores. Nas regiões Nordeste e Norte, os preços estão mais firmes, em função das chuvas abaixo da média e reflexos na produção. Em setembro choveu um pouco mais, em especial no Nordeste, mas nada que mudasse o cenário do lado da oferta de leite.

De pesquisa Scot, constava que para o pagamento de outubro (produção de setembro), 11% dos laticínios pesquisados acreditavam em alta dos preços do leite ao produtor (todos na região Nordeste), 12% falavam em estabilidade e os 77% restantes acreditam em queda no preço do leite, o que acabou se confirmando. No mercado spot, os preços do leite caíram em setembro e outubro. Os valores médios estão próximos de R$ 1,20 por litro na região Sudeste, considerando o preço do leite posto na plataforma.

Para uma comparação, em julho os valores chegaram a R$ 2,20 por litro. Na região Sul, os preços variaram de R$1,00 a R$1,20 por litro na primeira metade do mês de outubro, preços estáveis em relação à última quinzena. Vale destacar que no Rio Grande do Sul e no Paraná foram poucos os negócios observados nesta quinzena. “A expectativa é de que os preços tenham ligeiras reduções, porém, as quedas deverão ser mais comedidas daqui para frente, visto a forte desvalorização nos últimos meses”, informa Ribeiro.

De sua análise consta ainda que o custo de produção da pecuária de leite deu trégua em setembro. A queda, segundo o Índice Scot Consultoria de Custo de Produção, foi de 2,5% na comparação com o mês anterior. Entretanto, acusa que, em outubro, os custos voltaram a subir, com o peso da alta do milho e dos fertilizantes. O aumento foi de 1,4%, em relação a setembro deste ano. “Na comparação com outubro do ano passado, os custos de produção da atividade leiteira acumulam alta de 16,2%’, destaca.

Importações: entre a culpa e a desculpa
A análise do Conseleite do Rio Grande do Sul também traduziu as projeções de retração feitas pelo Cepea e pela Scot. Em Porto Alegre-RS, o preço de referência do leite definido em reunião realizada no dia 18 de outubro indicou nova queda. O valor projetado para o mês de outubro é de R$ 0,9539, redução de 4,58% em relação ao consolidado de setembro, que fechou em R$ 0,9997. A redução foi puxada pela queda do valor do leite pasteurizado (-11,70%) e do leite UHT (-6.68%).

Apesar da diminuição de preço de referência nos últimos meses, o leite ainda está acima da valorização de anos anteriores. O leite UHT, por exemplo, nos últimos 12 meses, acumula alta de 26%, o que se justifica pelos picos históricos do produto apurados na entressafra. “Também é preciso considerar que, na ponta, as indústrias pagam mais do que isso por litro uma vez que há remuneração adicional por qualidade e quantidade”, explicou o presidente do Conseleite e do Sindilat, Alexandre Guerra.

O dirigente pontuou a interferência do mercado internacional no contexto nacional e salientou que o leite em pó importado tem sido o grande vilão do setor. “Tivemos uma alta expressiva no primeiro semestre e, agora, estamos enfrentando uma queda considerável. A indústria não quer baixar o preço e não baixamos o preço porque queremos. É porque o mercado se autorregula pela lei da oferta e da procura”, argumentou.

As importações de lácteos feita pelo Brasil e citadas por Guerra trouxe no mês de setembro uma constatação preocupante: o país superou as compras de leite em pó feitas pela China no período. O fato tem por trás os preços mais altos praticados por aqui em comparação com a Argentina e Uruguai. Enquanto os chineses importaram 16,4 mil t de leite em pó, o Brasil importou 19,7 mil t.

Marcelo Pereira de Carvalho, diretor do portal Agripoint, admite que não há dúvida que as importações têm contribuído para a queda de preços ao produtor e para a indústria. “Neste ano, quase 8% do nosso consumo veio de leite importado. Um colosso!”, frisa. Mas, segundo ele, é um erro analisar as importações como razão do nosso problema.

“Elas são a consequência. Só estamos importando esse volume porque nossa produção não tem crescido; porque não temos eficiência na produção, basta comparar os índices de produtividade; porque temos custos elevados de impostos para incorporação de tecnologia, porque não temos uma boa coordenação na cadeia produtiva”, relata.

E acrescenta: “O pior de tudo é que nem com um mercado em larga escala protegido, que nos permite ter um preço comparativamente atrativo perante o mundo, estamos crescendo”. Em sua análise, menciona que a atual “ressaca” talvez seja um processo necessário. “Muitos irão sair da atividade, como ocorreu em diversos países. Lá na frente, teremos um setor mais competitivo. Mas é preciso criar realmente uma agenda mais de longo prazo”, diz, questionando:  Que tal se nossa eficácia para obter medidas de proteção pudesse também ser direcionada para criarmos condições de não depender delas?