Leite com eletricidade

  • 20 de fevereiro de 2019

O termo “Custo Brasil” é conhecido, se refere ao aumento do custo final de produtos brasileiros devido à nossa precária infraestrutura. Basta recordar as filas de caminhões carregados de grãos enfrentando atoleiros, asfalto ruim e horas de espera nos portos. Há outra imagem, a de produtores lamentando a perda do leite produzido por causa do suprimento irregular de energia elétrica nas propriedades, em praticamente todas as regiões do País. É o custo Brasil piorando a qualidade e muitas vezes causando a perda total do leite, desestimulando o ingresso de empresários na atividade e retardando a participação brasileira no mercado global de lácteos.

As centenas de milhares de propriedades leiteiras, espalhadas por 99% dos municípios brasileiros, vivem um drama: contar com energia elétrica para a ordenha diária do rebanho, para o resfriamento do leite, e tantas outras atividades que compõem a rotina dos 365 dias por ano de atividade produtiva. Não é certo que esta energia será entregue na propriedade. O investimento público hoje não é suficiente para oferecer uma nova situação para os produtores em curto prazo. Parcerias público-privadas estão apenas no início.

No passado, o sistema elétrico brasileiro recebeu investimentos públicos a partir de empréstimos feitos no exterior. Trouxe energia para boa parte das regiões Sudeste, Sul e parte do Centro-Oeste. Mas isso foi lá atrás. Décadas economicamente perdidas, associadas à expansão das áreas produtivas no Brasil Central e a investimentos públicos cada vez menores, resultaram num grande descompasso: temos hoje, de um modo geral, um sistema incapaz de atender com segurança às demandas de uma população ainda jovem e urbana e, ao mesmo tempo, atender às demandas crescentes da nossa economia, empreendedora por natureza, ávida pelas oportunidades de produção que os recursos naturais deste gigantesco território nos oferecem.

O que fazer, então? A tendência é, em vez de depender apenas das ações de governo, buscar investir em tecnologia e em gestão do custo de produção, que inclua este investimento. Qual tecnologia escolher? Em analogia com as etapas de desenvolvimento industrial, a queima de qualquer biomassa (capim, bagaço de cana, restos de madeira etc.), gerando vapor e eletricidade, é a “energia 1.0”, e grupos geradores, movidos a óleo combustível, produzem “energia 2.0” (como as usinas termoelétricas).

Para sistemas de produção de leite em confinamento, a tecnologia de produção do biogás a partir do esterco tem vantagens competitivas, pois reduz odores e moscas, e gera energia e biofertilizante de excelente qualidade, a ser utilizada para a produção de volumoso e silagem. É “energia 3.0”, moderna e sustentável. Mais recentemente, a geração de energia elétrica a partir da captação do calor do sol, em placas fotovoltaicas cada vez mais eficientes e com custo decrescente, instaladas na cobertura dos galpões, é a tendência mais inovadora, “energia 4.0”. Mais alternativas existem, incluindo a energia dos ventos. Independentemente de qual estágio da “energia”, o importante é assegurar formas de regularizar o suprimento de eletricidade, e se possível, lucrar com isso. Afinal, é possível produzir energia em excesso, vendendo à concessionária local, como a Balde Branco já reportou.

O planejamento financeiro, a escolha da linha de financiamento e a operação do equipamento para incluir o investimento em geração de energia na propriedade podem solucionar o drama atual. Assim, o crescimento da produção leiteira não ficará ameaçado “por um fio”.

Sobre o autor

Pedro Braga Arcuri é pesquisador da Embrapa Gado de Leite

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