Leite: demanda fraca reprime alta nos preços ao produtor

  • 3 de abril de 2017
Leite: demanda fraca reprime alta nos preços ao produtor

O preço recebido pelos produtores sobe pelo segundo mês consecutivo, seguindo o ritmo de queda na produção de leite no campo. Porém, a demanda enfraquecida por grande parte dos derivados lácteos tem reprimido o aumento dos preços da matéria-prima.

Segundo pesquisas do Cepea-Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq/USP, o preço médio recebido pelo produtor na “média Brasil” (sem frete e impostos) foi de R$ 1,2326/litro, crescimento de 1,4% (ou de 1,7 centavos) em relação a fevereiro. No mês anterior, a valorização foi de 1,9% (ou de 2,3 centavos). Quando comparada com o mesmo período do ano passado o aumento real é de 13,4% (valores deflacionados pelo IPCA de fevereiro/17).

O preço bruto médio do leite (que inclui frete e impostos) também subiu 1,4% de um mês para outro, passando para R$ 1,3405/litro. As médias calculadas pelo Cepea são ponderadas pelo volume captado em fevereiro nos estados de GO, MG, PR, RS, SC, SP e BA.

Segundo os colaboradores, a melhora na demanda que deveria ocorrer com o fim das férias escolares está abaixo do esperado. E com a matéria-prima valorizada no campo, o repasse desse aumento para o consumidor tem dificultado bastante as vendas. Resultado disso é a formação de estoques de alguns derivados (principalmente os queijos mussarela e prato) e uma maior pressão nos preços por parte do consumidor.

A captação de leite continuou em queda, pelo terceiro mês seguido, em todos dos estados analisados, refletindo o adiantamento do período da entressafra. De fevereiro para março, o Índice de Captação de Leite do Cepea diminuiu 3,1%, com destaque para Minas Gerais e Santa Catarina, com significativas quedas de 5,05% e 3,98%, respectivamente. Para os agentes de mercado, o aumento dos preços só não foi menor devido à competição por alguns produtores que continua acirrada em algumas regiões produtoras.

Para abril, representantes de laticínios/cooperativas consultados pelo Cepea apontam novo aumento nos preços do leite, porém as possibilidades de estabilidade no curto-médio prazo ganham força por conta da citada demanda enfraquecida.  No mercado de derivados, uma ligeira melhora na demanda na segunda quinzena do mês de março permitiu o avanço dos preços na média mensal.

Os estoques de queijo mussarela ainda preocupam os agentes de mercado, porém o leve aumento nas vendas contribui positivamente para as expectativas do próximo mês. Os preços médios do leite UHT e do queijo mussarela negociados no atacado de São Paulo em foram de R$ 2,59/litro e R$ 15,16/kg, respectivamente, aumentos de 4,8% e 1,9% em relação às médias de fevereiro.

Sinais de recuperação nos preços
“Com a produção em queda nas principais regiões produtoras, aumenta a concorrência entre os laticínios pela captação de leite cru”, conta o analista de mercado da Scot Consultoria, Rafael Ribeiro. “Os preços dos lácteos estão firmes e em alta no atacado”, cita ele. O movimento de alta no preço do leite ao produtor e demais elos (atacado e varejo) deverá ganhar força com a entressafra no Brasil Central e região Sudeste.

Reforçando tal tendência, dados do MilkPoint Radar reforçam os sinais de aumento nos preços líquidos recebidos pelos produtores. Ao analisar os números do grupo de participantes do aplicativo referentes ao pagamento de março (com fornecimento de leite em fevereiro) apontava um preço líquido médio de R$ 1,3628/litro, cerca de 2 centavos mais alto do que o de fevereiro, para os mesmos produtores.

No mercado spot, os preços também subiram na primeira quinzena de março. Ribeiro revela que os negócios ocorreram, em média, a R$ 1,502 por litro, posto na plataforma, mas que os maiores valores chegaram a R$ 1,650. “Houve alta de 7% na comparação com a segunda quinzena de fevereiro deste ano. O preço vigente está 14% acima da média do mesmo período de 2016”, cita ele.

Em Minas Gerais e em Goiás, os preços médios ficaram em R$ 1,492 e R$ 1,368 por litro, respectivamente. A produção nacional está em queda desde o final de 2016 nas principais bacias leiterias do país, o que aumenta a concorrência por matéria-prima pelos laticínios. Daí a valorização do leite comercializado entre indústrias. Em curto e médio prazos, a expectativa é de alta do leite no mercado spot, assim como para o produtor.

Baixa no mercado e nos custos
Juliana Pila, analista de mercado da Scot Consultoria, revela expectativa de preços praticamente estáveis para o leite em pó até agosto no mercado internacional. Como referência, ela utiliza a cotação obtida no leilão do último dia 21 de março na plataforma Global Dairy Trade, referência no mercado internacional. Em média, os produtos lácteos ficaram cotados em US$ 3.101 por t. O leite em pó integral foi negociado, em média, por US$ 2.855 por t, frente ao US$ 2.782 na quinzena anterior.

O volume de vendas de produtos lácteos totalizou 22.498 t no citado leilão, 10,3% a mais que o volume comercializado em igual período do ano passado. “Até agosto, as cotações deverão variar entre US$ 2.841 e US$ 2.857 por t”, diz ela. Na contramão dessa tendência ficou o caso do leite em pó desnatado, cujo preço médio obtido foi de US$ 1.948 por t, uma expressiva queda de 10,1%, frente ao leilão anterior, o que puxou o valor médio dos lácteos para baixo.

Já sobre os custos de produção do leite por aqui, as análises do Cepea e da Embrapa indicam que iniciaram 2017 em queda, dando continuidade ao movimento observado desde setembro/16. O custo operacional efetivo, que considera os gastos correntes da propriedade, caiu 0,68%, enquanto o custo operacional total, que engloba pró-labore e depreciações, 0,48% em janeiro, em relação ao mês anterior.

A pressão veio principalmente dos concentrados, que se desvalorizaram 2,3% em igual comparativo. O principal motivo para esta retração nos custos se deu pela queda de preços na ração para vaca e nos farelos de soja, milho, trigo e algodão. Isto fez com que o grupo de concentrados tivesse queda de -3,05% no mês. O grupo produção e compra de volumosos, também apresentou queda de -1,18%, dada a redução do custo de silagem.

Por outro lado, o reajuste médio de 6,47% no salário mínimo nacional limitou as quedas nos custos. Apesar da queda nos desembolsos menores, a demanda por insumos segue enfraquecida, refletindo a redução na produção de leite, decorrente do clima adverso – seca em dezembro/16 e chuvas em excesso em janeiro/17.

Por fim, o IBGE-Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgou no dia 15 de março os dados da Pesquisa Trimestral do Leite, referente ao volume de leite adquirido pelos laticínios com inspeção. Entre outubro e dezembro do ano passado foram captados 6,24 bilhões de litros de leite no país, 0,8% menos na comparação com igual período de 2015. No acumulado de 2016, o volume totalizou 23,17 bilhões de litros de leite. Houve queda de 3,7% em relação a captação de 2015.

“Foi o segundo ano consecutivo de queda na produção nacional. Lembrando que em 2015 o volume captado havia caído 2,8% frente a 2014. A oferta de leite mais restrita é um fator de sustentação dos preços no mercado brasileiro”, conclui Ribeiro.

Tabela 1
Preços pagos pelos laticínios (brutos) e recebidos pelos produtores (líquido) em MARÇO/17 referentes ao leite entregue em FEVEREIRO/17

tabela1Fonte: Cepea-Esalq/USP