Leite: captação crescente e fraca demanda derrubam preço

  • 1 de outubro de 2016
Leite: captação crescente e fraca demanda derrubam preço

Após subir por sete meses seguidos e atingir recordes reais, o preço do leite ao produtor caiu em setembro

Além do aumento na captação, observado na maioria dos estados pelo terceiro mês, a fraca demanda interna foram os principais motivos das quedas nos valores. Segundo pesquisas do Cepea-Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq/USP, o preço médio recebido pelo produtor na “média Brasil” (sem frete e impostos) foi de R$ 1,5257/litro, redução de 3,2% (ou de 5,1 centavos) em relação a agosto. Mesmo com a queda, a cotação ainda acumula alta de 50,8% no ano, em termos reais (valores deflacionados pelo IPCA de agosto/16).

O preço bruto médio do leite (que inclui frete e impostos) também caiu 3,2% de um mês para outro, passando para R$ 1,6377/litro em setembro. As médias calculadas pelo Cepea são ponderadas pelo volume captado em agosto nos estados de GO, MG, PR, RS, SC, SP e BA.

A captação de leite aumentou em quase todos dos estados analisados, refletindo a recuperação das pastagens, favorecida pela chegada das chuvas em algumas regiões, e o início da safra no Sul do País. De julho para agosto, o Índice de Captação de Leite do Cepea aumentou significativos 6,2%, com destaque para Santa Catarina e Rio Grande do Sul, com significativas altas de 11,76% e 11,37%, respectivamente. A exceção ficou por conta da Bahia, onde o volume captado permaneceu praticamente estável (ligeira queda de 0,08%), sustentando as cotações.

Para outubro, representantes de laticínios/cooperativas consultados pelo Cepea apontam nova queda nos preços do leite. A maioria dos agentes entrevistados (96,2%), que representa 99,8% do leite amostrado, indica que haverá baixa nos valores. Outros 3,8%, que representam 0,2% do volume amostrado de leite, acreditam em estabilidade. Ninguém espera alta de preços para o próximo mês.

No mercado de derivados, a demanda enfraquecida, diante dos elevados patamares de preços nos últimos meses, e os estoques elevados em algumas regiões, pressionou os valores dos produtos lácteos. Os preços médios do leite UHT e do queijo mussarela negociados no atacado de São Paulo em setembro foram de R$ 2,49/litro e R$ 19,20/kg, respectivamente, quedas de 23,1% e 8,41% em relação às médias de agosto.

Com o cenário de quedas intensas nos últimos dois meses, a variação acumulada do leite UHT desde o início do ano passou para 6,3%. A pesquisa de derivados do Cepea é realizada diariamente com laticínios e atacadistas e tem o apoio financeiro da OCB-Organização das Cooperativas Brasileiras.

Leite spot também em queda
Segundo outra fonte, a Scot Consultoria, no mercado atacadista os preços dos lácteos tiveram queda de 2,2% na primeira quinzena de setembro, em relação à segunda metade de agosto. “O leite longa vida teve queda de 4,0% no período, e ficou cotado em R$ 2,54 o litro. Na segunda metade de agosto o preço era de R$ 2,65 o litro, cita a analista Juliana Pila. Segundo ela, este vem sendo o principal fator de pressão de baixa no mercado do leite atualmente. “A melhora da produção na fazenda, junto ao menor giro de mercadorias no varejo, ocasionou aumento nos estoques, o que tem impactado diretamente os preços dos lácteos no atacado”, constata.

Já Rafael Ribeiro, também analista da Scot, destaca que a queda de cotação também pode ser conferida no mercado spot, o leite comercializado entre as indústrias. “Despencaram de um patamar de R$ 2,00 por litro no final de julho e começo de agosto, para atuais R$ 1,60, em média, por litro em São Paulo e R$ 1,56 por litro em Minas Gerais. Os menores valores ficaram próximos de R$ 1,408 por litro na região Sudeste.

Segundo o Índice Scot Consultoria de Captação, na média nacional, a produção subiu 3,0% em julho, em relação a junho deste ano. Em agosto, os dados parciais indicaram crescimento de 1,7% no volume captado, com peso não só da região Sul, mas também de São Paulo, Minas Gerais e Goiás. “A queda no preço do milho deu uma ajuda neste incremento”, destaca Ribeiro.

Ele também não tem dúvidas que o tom do mercado a partir de agora será de baixa nos preços, distanciando-se da média nacional obtida em agosto, R$ 1,232 por litro pagos ao produtor. “A produção em alta desde junho colabora com este cenário, mas cabe destacar que os volumes captados seguem abaixo de 2015, que já foi um ano de queda na produção”, observa.

Diante dos números, o presidente da Comissão do Leite da Farsul-Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul, Jorge Rodrigues, admite que o mercado atual começa a retornar à realidade. “Era difícil admitir que um litro de leite longa vida na gôndola passasse de R$ 4, ao mesmo tempo que o produtor recebesse mais do que a metade desse valor. A tendência natural é de redução nesses dois valores”, comenta.

Em relação ao consumidor, a expectativa é que os preços recuem nas próximas semanas. “Porém, o índice de queda deve ser menor que o registrado no campo. Isto acontecerá porque o varejo vinha trabalhando com margem mais apertada em decorrência dos preços elevados no atacado. O setor varejista, para não perder mais consumo, não repassou para o consumidor toda a alta acumulada e vai compensar agora”, explica Juliana Pila.

Preços de referência menores em SC e RS
Em Santa Catarina, na recente reunião do Conseleite, realizada em Joaçaba, os valores de referência sugeridos foram norteados por aumento da oferta e queda no consumo de leite no Estado. Com isso, o conselho indicou uma redução de 16% nos valores de setembro, o que significa diminuição de R$ 0,19 a R$ 0,24 por litro sobre os preços do mês anterior. Tal redução significa que o leite acima do padrão passa a ser cotado a R$ 1,277 o litro; leite padrão, a R$ 1,110, e leite abaixo do padrão, a R$ 1,009.

O presidente do Conseleite, Adelar Maximiliano Zimmer, observa que a maior oferta de leite nos laticínios é resultado da melhora das condições climáticas que afetaram diretamente o mercado de lácteos no Sul e no Centro-oeste brasileiro. Entretanto, a demanda por derivados lácteos está retraída. “A perda do poder de compra de consumidores na atual conjuntura econômica e o elevado patamar de preço dos derivados afastaram consumidores”, observa o dirigente.

Já o Conseleite gaúcho, reunido em Passo Fundo, apontou queda de 14,29% nos preços de referência do leite no mês setembro. A projeção é de R$ 1,005 por litro, em relação ao consolidado do mês anterior (R$ 1,1731 em agosto). Entre julho e setembro, a redução do preço do leite soma 23,85%. “No mês, o leite UHT caiu 22,45%, o que puxou a tendência de queda do preço do leite no Rio Grande do Sul uma vez que tem peso importante no mix de produtos”, pontuou o consultor do conselho, Eduardo Belisário Finamore.

Alexandre Guerra, novo presidente do Conseleite, pontua que os dados de setembro refletem a retomada da produção no campo, já que, após meses de baixa captação, os animais voltaram a produzir no pasto. O vice-presidente do órgão, Jorge Rodrigues, admite que a situação é crítica para quem produz, já que os preços caminham para um patamar abaixo do razoável. “É verdade que há mais oferta no mercado, mas o produtor está apreensivo diante de sua planilha de custos”, conta.

Outra preocupação diz respeito às crescentes importações de lácteos. No ano, aumentaram 81,0% em volume comparado ao mesmo período de 2015. Segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, em agosto somou um volume de 25,67 mil t. “Na comparação com julho deste ano, a alta foi de 7,3%. Para os gastos, o incremento no período foi de 7,9%, totalizando US$ 65,14 milhões”, calcula Rafael Ribeiro.

O produto mais importado foi o leite em pó, 16,56 mil t, num total de US$ 42,90 milhões no mês de agosto. Os maiores fornecedores de produtos lácteos, em valor, foram o Uruguai, com 57,5%; a Argentina, com 34,0%, e os Estados Unidos com 3,8%. Ribeiro observa que a atual tendência pode sofrer um recuo se a valorização sinalizada pelos recentes leilões da Global Dairy Trade tiver continuidade. Em setembro, fecharam com US$ 2.900/t, uma alta de 7,7% sobre a cotação de agosto. Em um ano, os valores já subiram 31,2%.

Tabela 1: Preços pagos pelos laticínios (brutos) e recebidos pelos produtores (líquido) em SETEMBRO/16 referentes ao leite entregue em AGOSTO/16

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