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Marcelo Simão da Rosa |
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A adequada interação entre retireiros e vacas leiteiras significa não só maior satisfação na ordenha, como também maior volume e mais qualidade do leite produzido. Para isso, a aptidão para a função deve estar conjugada a uma série de fatores, que poucos produtores consideram |
Marcelo Simão da Rosa é professor das disciplinas bovinocultura leiteira e etologia no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais – campus de Muzambinho – e coordenador da área de pesquisa em Bovinocultura Leiteira, Grupo de Estudos e Pesquisas em Etologia e Ecologia Animal (Grupo Etco). Também atua como tutor do curso on-line Certificate in Animal Welfare (Institute Cambridge, no Reino Unido).
Sua atuação tem se destacado em ações voltadas para a interação humano-animal de produção e bem-estar animal. Nesse sentido, desenvolveu estudos específicos, como o da chamada ordenha sustentável, tema de seu mestrado e principal enfoque desta entrevista exclusiva à Balde Branco. O conceito aborda a interação entre retireiros e vacas leiteiras, detalhando as ações positivas e negativas dos retireiros e as respostas que as vacas apresentavam no momento da ordenha.
Balde Branco - O sr. tem divulgado a chamada ordenha sustentável na produção de leite. Este termo quer dizer exatamente o quê?
Marcelo Simão da Rosa - O conceito de ordenha sustentável teve início com o meu projeto de mestrado, ao abordar a interação entre retireiros e vacas leiteiras. Nesse período, estudamos as ações positivas e negativas dos retireiros e as respostas que as vacas apresentavam no momento da ordenha, como posição da cabeça, reatividade, ruminação, defecação e micção. Trabalhamos com seis propriedades leiteiras, sendo três localizadas no Nordeste Paulista, e três, no Sul de Minas. Também procurávamos entender os “porquês” de diferentes ações dos retireiros. Avaliamos seu comportamento com relação à genética do animal, à infraestrutura das instalações de ordenha, ao sexo do retireiro, ao tipo de sistema de criação e ao tipo de ordenha.
BB - Quais foram as principais conclusões?
MSR - Obtivemos muitos resultados interessantes. Por exemplo: o ponto central para a apresentação de comportamento positivo do retireiro não estava muito associado à infraestrutura adequada, à genética apurada, à ordenha mecanizada, aos animais criados intensivamente e ao trabalho com pessoas do sexo feminino. Tudo indicava que estava associado ao próprio retireiro.
BB - Tais conclusões incitaram a continuidade no estudo?
MSR - Sim. Continuamos este estudo no doutorado e ampliamos o número de fazendas e de regiões. As características das propriedades foram as mais variadas possíveis: número de vacas ordenhadas, número de retireiros, sistema de criação, sistema de ordenha, sistema de aleitamento e genética. Aplicamos questionários e entrevistas para conhecermos melhor as pessoas envolvidas com a ordenha. Em algumas propriedades, ficávamos até 14 dias para acompanharmos as ações dos finais de semana. Constatamos, mais uma vez, que o comportamento do retireiro somente depende dele. Os questionários e entrevistas nos permitiram a avaliação de questões importantes, com respaldo para afirmarmos que seus comportamentos são expressos conforme seu pensamento, sua atitude, e que, de acordo com este comportamento.
BB - De que forma o sr. classificou esse comportamento?
MSR - Adotamos quatro classificações de interação retireiro-vaca: interação insignificante, interação desaconselhável, interação instável e interação aconselhável. Verificamos que as três primeiras classificações de interação trazem prejuízos tanto para a vaca, com comportamento inadequado e menor produção, quanto para o retireiro, ao promover cansaço e falta de prazer em realizar as atividades.
BB - Pessoalmente, qual a conclusão que o sr. tira disso?
MSR - Concluímos que qualquer propriedade poderá aplicar a interação aconselhável. Para isso, deverá selecionar seus retireiros a partir de suas atitudes, personalidade, seu conhecimento e habilidades. E, após esta seleção, o retireiro deverá participar de um curso teórico-prático sobre a biologia do bovino e as técnicas de ordenha. Isso possibilitará o desenvolvimento de uma ordenha ecologicamente correta, ou seja, reconhecendo que a vaca deve ser trabalhada como ser vivo, e não como máquina de produção; socialmente justa, e na qual tanto a vaca como o retireiro são respeitados e economicamente viáveis em qualquer sistema, com qualquer genética, instalação ou sexo. Somente depende da própria pessoa, do retireiro, ou seja, de uma ordenha sustentável.
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Quando a ordenha sustentável não é praticada, as vacas chegam a ter uma redução de 2,8 kg de leite
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BB - Dentro deste conceito, qual é o nível de dificuldade que o pessoal de ordenha pode enfrentar?
MSR - A ordenha sustentável não envolve nível de dificuldade, mas nível de satisfação em desenvolver uma atividade. Toda pessoa que gosta de lidar com vacas, que tem habilidade e que está aberta a novos conhecimentos é uma pessoa com potencial para desenvolvê-la. O fator mais relevante para que não seja realizada é a falta de incentivos para a profissão de retireiro. Mundialmente, ela é tida como uma das profissões de menor status social, pois o ambiente de trabalho é úmido, com dejetos de animais durante a lida, e não há dia santo, feriado, final de semana, chuva ou Sol. Tudo isso faz com que a quantidade de pessoas interessadas em desenvolver esta profissão seja reduzida, fazendo com que grande parte das propriedades não faça seleção de seus retireiros, pois dificilmente há casos de duas ou mais pessoas disputando a mesma vaga. Com isso, se perde a oportunidade de selecionar os profissionais adequados. Por outro lado, todos nós sabemos: a lucratividade de uma empresa está também associada à qualificação de seus profissionais.
BB - Quais os benefícios diretos da ordenha sustentável com relação à produção e qualidade do leite?
MSR - A interação retireiro-vaca, como disse, foi classificada como insignificante, desaconselhável, instável e aconselhável. Na interação insignificante, o animal é completamente apático, espelho do comportamento do retireiro, que também é apático. Nela, o retireiro não desenvolve ações positivas e nem negativas, e o animal, da mesma maneira, não apresenta comportamentos relevantes. Na interação desaconselhável, quando as ações do retireiro são predominantemente negativas, e na instável, com ações inconsistentes entre positivas e negativas, o animal é reativo e se movimenta e escoiceia, mostrando-se inquieto durante a ordenha, e apresenta menor ocorrência de ruminação ao longo da ordenha. Já na interação aconselhável, com ações do retireiro predominantemente positivas, o animal não se movimenta, é tranquilo e apresenta maior ocorrência de ruminação ao longo da ordenha.
BB - Tais diferenças são observadas na produção, não?
MSR - Verificamos que quando a interação aconselhável, ou ordenha sustentável, não é praticada, as vacas chegam a ter uma redução de 2,8 kg de leite. Apesar de não termos feito estas avaliações, o pesquisador australiano J. P. Hemsworth verificou que a redução não é somente quantitativa, mas, também, qualitativa, porque também são reduzidos os níveis de proteína e de gordura do leite ordenhado. Com isso, o produtor que opta por não empregar a ordenha sustentável tem menor lucratividade.
BB - A propósito, como o sr. avalia a capacitação da mão de obra envolvida com a ordenha em nossas propriedades leiteiras?
MSR - Não temos uma padronização de propriedade leiteira aqui no Brasil. Temos produção de leite obtida a partir das mais variadas técnicas, ou da falta delas: genética, instalação, alimentação, sistema de ordenha e sistema de aleitamento. O fator mais semelhante entre nossas propriedades leiteiras é a qualificação da mão de obra. Nossos levantamentos, feitos nas regiões Nordeste Paulista, Sul de Minas e Sudeste do Espírito Santo, apontaram que 5% dos retireiros não possuem grau de escolaridade; 60% têm, no máximo, o primeiro grau; 22%, o ensino médio incompleto, e 13%, o ensino médio completo. Os dados apresentados por pesquisadores da região Sul são muito semelhantes. Verificamos, assim, que o grau de instrução das pessoas envolvidas na bovinocultura leiteira é baixo. Isto pode ser devido ao próprio status da profissão: pessoas com grau melhor de instrução procuram profissões de melhor status social.
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Um dos principais equívocos é bater nas vacas, como se isso fosse capaz de acelerar o ritmo da ordenha
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BB - Isso dificulta a comunicação, ou seja, a capacitação desses profissionais?
MSR - Tenho chamado atenção de meus alunos com relação à orientação das pessoas no campo. Muitas vezes, o profissional tem ótimo conhecimento técnico, chega ao campo, conversa com as pessoas de maneira que elas tenham condição de abstrair todas as informações, por exemplo, a respeito de nutrientes, mastite contagiosa e ambiental, cuidados com os animais, acompanhamento de partos... Espera que na sua próxima visita as ações tenham melhorado, que os índices zootécnicos fossem melhores, o que não acontecerá. Ele desconsiderou que teve oportunidade para adquirir conhecimento, cultura, e que o trabalhador do campo, muitas vezes, não teve esta oportunidade. Ele, o técnico, deveria inicialmente fazer uma avaliação diagnóstica para detectar o nível de conhecimento do trabalhador e, a partir daí, desenvolver estratégias de como poderia trabalhar para melhorar o conhecimento do trabalhador e, consequentemente, a eficiência das ações assumidas por ele.
BB - Em quais ações estão os principais erros ou equívocos na hora da ordenha?
MSR - Um dos principais equívocos está em bater no animal, como se isso fosse acelerar o ritmo da ordenha e terminar o serviço em menos tempo. Avaliamos o comportamento do par retireiro-vaca durante os dias de semana e de finais de semana. Verificamos que, nos finais de semana, ele grita mais, bate mais e com maior intensidade nos animais. A resposta do animal com relação a este comportamento é o aumento da movimentação dos membros posteriores durante a ordenha e redução da ocorrência de ruminação, com elevação de defecação e micção. Mas não há diferença em relação ao tempo de ordenha, já que as vacas aceleram seu deslocamento, mas são mais difíceis de serem ordenhadas e, ainda, reduzem a produção de leite. Há correlação entre ruminação e produção de leite de 0,85, e verificamos que gritar com uma vaca no momento da ordenha pode reduzir em média 2 kg de leite do animal, naquela ordenha.
BB - Em sua opinião, como se avalia a aptidão de um empregado com a função de ordenhador?
MSR - Passamos por processos seletivos desde a nossa concepção. Para conseguirmos a sorte de nossa gestação, tivemos de vencer milhões de espermatozóides. Para entrarmos numa empresa rentável, numa instituição para darmos aulas e desenvolvermos pesquisas, temos de passar por um processo seletivo. Para termos uma bovinocultura leiteira, que emprega a ordenha sustentável, também temos de selecionar nossos funcionários. Para isso, devemos avaliar sua atitude, o que envolve pensamentos, resposta emocional e tendência de se comportar em relação à determinada pessoa, objeto ou ação; sua personalidade; seu conhecimento em relação ao comportamento da vaca durante a ordenha, ao parto, à nutrição e à sanidade, e completando, a habilidade de realizar os procedimentos de ordenha tanto manual quanto mecanizada, em conduzir os animais e identificar animais doentes.
BB - Como o sr. trabalha com a relação aptidão-conhecimento?
MSR - Podemos nos deparar com uma situação em que a pessoa de melhor qualificação não tem conhecimento suficiente. Aí, vem a importância do treinamento teórico-prático quanto à biologia do bovino e às técnicas de ordenha. Na ordenha sustentável queremos não só que o animal seja trabalhado como ser vivo, mas, também, que o leite seja obtido e mantido em perfeitas condições microbiológicas, e que o trabalhador seja respeitado como ponto fundamental para o sucesso da empresa.
BB - E com relação aos equipamentos utilizados no processo, em quais etapas o sr. apontaria maior carência de informação por parte do produtor?
MSR - O produtor carece de mais informações a respeito da ordenha mecanizada. Muitos produtores compram a ordenhadeira, mas não conseguem trabalhá-la adequadamente. Fizemos um levantamento com relação à qualidade microbiológica do leite nas cidades vizinhas a Muzambinho-MG e notamos que há muitas propriedades que trabalham com ordenha mecanizada e com pior qualidade microbiológica em relação àquelas que empregam a ordenha manual, ou seja, a higienização diária e a manutenção de todo o equipamento são precárias. Outro fato importante é a relação conjuntos de ordenha/retireiro. Nas propriedades com que trabalhamos, a relação máxima foi de 8:1. O ideal é que trabalhássemos entre 13 e 18 conjuntos para cada um dos retireiros dentro do fosso. Esse fato sugere que a produtividade de nossos retireiros não é adequada, provavelmente, por falta de treinamento. Nenhum dos 149 retireiros entrevistados por nós havia participado de treinamento específico para trabalhar com esse equipamento. Eles haviam “aprendido” a manuseá-lo observando companheiros.
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Muitos produtores compram a ordenhadeira, mas não conseguem utilizá-la adequadamente. Falta treinamento
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BB - Chamar vacas pelo nome e saber tocar e lavar o úbere são pontos muito destacados em suas palestras. Quais são os efeitos destas ações?
MSR - Temos verificado que nossa fala é muito importante durante a realização das atividades com os animais. Conseguimos acalmar, tranquilizar um animal quando utilizamos a fala com um timbre suave. Os bovinos nos discriminam – por exemplo: bom, ruim ou neutro – e nos reconhecem pela altura, andar, roupas, face e voz. Uma vez discriminado como positivo, ao escutar nossa voz, sabe que não o agrediremos, que ele será bem tratado, daí apresenta melhor comportamento. O retireiro pode ser discriminado como positivo pelo animal, mas conforme o brete de ordenha, o animal não tem a oportunidade de enxergá-lo. A importância de empregar concomitantemente o comportamento de falar e tocar o corpo do animal antes de segurar em seu teto para realizar a ordenha é porque evita que a vaca escoiceie nesse momento, uma vez que o reconhecerá pela voz e saberá que será trabalhada naquele instante. Isso promove melhor segurança para o animal e para o retireiro.
BB - Há recomendações especiais para as novilhas que estreiam na ordenha?
MSR - Tranquilidade, ruminação e docilidade são comportamentos que esperamos que a vaca apresente durante a ordenha. Como podemos esperar esses comportamentos de uma vaca primípara? Este animal provavelmente desconhece ou não tem intimidade com o retireiro e desconhece a sala de ordenha, e nunca teve seu úbere tocado. Não é difícil imaginarmos que ao serem realizadas todas estas ações – auxílio no parto, condução do animal para a ordenha, entrada na sala de ordenha e a própria ordenha – em um momento sensível da vida deste animal, ele não irá se comportar adequadamente. Se já sabemos disso, podemos desenvolver algumas ações que amenizarão as respostas indesejadas destes animais na ordenha. No final da ordenha, enquanto o último lote está sendo ordenhado, devemos conduzir estas novilhas próximas ao parto até a sala/curral de espera. Esta condução deverá ser realizada de maneira tranquila, considerando a distância de fuga e o ponto de equilíbrio de animal.
BB - Podemos utilizar alimento para estimular a entrada do animal na sala/curral?
MSR - É claro que sim. É um estímulo, pois a novilha terá medo de entrar na sala de ordenha na primeira vez. Nunca poderemos forçar a entrada. Ao terminar a ordenha do último lote, devemos estimular a passagem das novilhas pelo brete de ordenha, se for o caso. Também devemos tocar seu úbere levemente. A fala do retireiro neste momento é muito importante. Logo na saída, devemos oferecer novamente o alimento. Quando empregamos estas ações, estamos trabalhando dois processos de aprendizagem muito importantes para que tenhamos animais dóceis, bem comportados: habituação e condicionamento operante. A habituação faz com que o animal deixe de responder a determinados estímulos que percebe não oferecer benefícios ou malefícios. O animal se habitua a você, à instalação e ao barulho relacionado à ordenha. O animal condicionado realiza as ações esperadas por você de forma voluntária, sem se sentir ameaçado. Ele vem à sala de espera, à de ordenha, tranquilamente.
BB - O sr. concorda que o maior comprometimento da qualidade do leite se dá dentro da sala de ordenha?
MSR - Acredito que seja um conjunto de fatores que compromete a qualidade do leite: pastos/piquetes adequados e limpos, higiene do retireiro, higienização e manutenção dos materiais/equipamentos de ordenha, procedimentos de ordenha, esquematização da linha de ordenha, tempo de resfriamento do leite e tipo de transporte. Verificamos que o homem é o principal agente envolvido em todos os fatores que comprometem a qualidade do leite. Quando selecionamos nosso profissional, automaticamente estamos definindo a qualidade de nossas atividades e a do leite que nossas vacas irão produzir, e que enviaremos aos receptores. Na sala de ordenha, se tenho um profissional capacitado, ele desenvolverá adequadamente os procedimentos de ordenha. Todos sabemos: quanto melhor nossos procedimentos de ordenha, menos mastite, menos CCS e melhor qualidade microbiológica do leite. No Guia de Boas Práticas de Manejo – Ordenha, apresentamos os procedimentos adequados de ordenha com aleitamento natural. Nesse sistema de aleitamento, a saliva do bezerro tem uma função importante na prevenção da mastite ambiental, não havendo necessidade do pré-dipping, mas no caso de mastite contagiosa não tem eficiência. Daí, é de extrema importância a aplicação do pós-dipping em ambos sistemas de aleitamento: natural e artificial.
BB - Como o sr. avalia o atual nível de qualidade do leite produzido no País?
MSR - Pelos resultados apresentados nos diversos levantamentos publicados, a qualidade do leite tem melhorado. Como já falei anteriormente, as pessoas que trabalham na bovinocultura leiteira necessitam de conhecimento, cultura. Acredito que as melhores oportunidades de ensino de jovens e adultos, proporcionarão melhorias também no campo. O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul de Minas Gerais, campus de Muzambinho, oferece o Curso Técnico em Alimentos. Muitos dos alunos, nessa modalidade de ensino, são pessoas envolvidas diretamente no campo, que aplicarão seus conhecimentos na melhoria de seus produtos. A melhoria da qualidade de vida no campo é fundamental para que tenhamos melhoria dos produtos agropecuários.
Quando selecionamos nossos profissionais, definimos a qualidade do leite que nossas vacas irão produzir |
BB - A relação entre o tempo de aplicação da Instrução Normativa 51 e os resultados obtidos satisfaz suas expectativas?
MSR - No meu ponto de vista, a Instrução Normativa 51 chegou tarde demais. Era para ter sido planejada e implantada ainda na década de 90, quando o País teve sua abertura comercial. Muitos produtores foram pegos de surpresa, já que passaram muitos anos sem incentivos para melhorar sua produtividade e competitividade. De repente, da noite para o dia, foram cobrados por resultados para os quais não foram preparados e nem avisados. Muitas empresas chegaram, faliram e compraram várias cooperativas que tinham uma função social importantíssima em determinadas cidades, microrregiões. Grande quantidade de leite foi importada, fazendo com que nosso produtor comercializasse seu leite abaixo do custo de produção. Tudo isso provocou o desaparecimento de muitos produtores. É certo que alguns se uniram para fortalecer, criando as associações comunitárias. Os resultados somente não foram piores porque principalmente a Embrapa já havia desenvolvido muitas tecnologias para o setor na década de 80 e início da década de 90. Lembro-me da campanha para aumento da produtividade leiteira, reduzindo o intervalo de partos. Aos poucos, essas tecnologias foram sendo disseminadas e implantadas. Os resultados consistentes a serem atingidos ainda irão demorar. Se no Sul de Minas Gerais ainda se transporta leite em latões, em regiões menos favorecidas isso é inquestionável. Para mim, a falta de planejamento para a aplicação de recursos financeiros, associada à falta de profissionais capacitados de campo, como retireiros, técnicos em agropecuária, veterinários, zootecnistas e agrônomos, prejudica as melhores respostas.
BB - Leite informal ainda é um problema para o nosso cenário de qualidade do leite. O que fazer para reduzir um volume que representa cerca de 30% de nossa produção?
MSR - Moro em uma cidade em que há várias pessoas que comercializam “leite de carrocinha”, ou melhor, agora, é de “motoquinha”. Dois fatos merecem nossa atenção. Primeiro: conheço pessoas que compram este leite por acreditarem que seja melhor do que o leite pasteurizado – menos água, mais gordura e mais nutrientes. Segundo: perguntei à pessoa responsável pela vigilância sanitária municipal o porquê da falta de fiscalização com relação a este comércio ilegal. A resposta foi que eram eleitores do prefeito e que isso o impossibilita de aplicar a lei. Acredito que uma campanha do governo, apresentada nos diversos meios de comunicação, seja muito importante. Temos de orientar as pessoas com relação às possíveis doenças que podemos adquirir ao ingerirmos leite não pasteurizado ou os derivados fabricados com este leite: diarreia provocada por inúmeros microorganismos, salmonelose, brucelose, tuberculose e leptospirose. Temos de aprender a cobrar de nossos políticos que as leis sejam aplicadas.
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