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José Salvador Silva |
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Criação com gosto e paixão
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O bom criador de gado leiteiro deve gostar da atividade, ter paixão por sua força transformadora. |
| Nelson Rentero | |
José Salvador Silva é considerado um dos mais importantes criadores da raça Jersey no País. Selecionador há 20 anos, tem seu projeto localizado em Baldim-MG, onde adota o sistema conhecido como loosing house, ou seja, criação a partir da distribuição de lotes em piquetes, onde o gado confinado é acompanhado em todas fases de exploração. Detém hoje um rebanho que produz 2 mil litros/dia, com média de 20 kg/vaca e lactações que variam de 7 mil até 10 mil kg de leite.
Tais indicadores têm origem em 1990, quando adquiriu 50 novilhas canadenses, as quais serviram de base genética que foi sendo ampliada e melhorada a partir de um trabalho que contou ainda com outros lotes importados. A Fazenda Serra Verde é hoje referência da raça Jersey. Seus leilões anuais reúnem criadores de norte a sul do País. Em cada remate oferece cerca de 150 fêmeas, que atingem médias em torno de R$ 6.000.
Mas não só de leite e genética vive o doutor Salvador – como o criador é mais conhecido. Ele é médico na maior parte do tempo, ocupando a presidência do Hospital Mater Dei, um dos maiores da capital mineira, com cerca de 1.500 funcionários e 335 apartamentos. Especializado em ginecologia e obstetrícia, calcula que tenha feito mais de 20 mil partos ao longo de sua carreira. Hoje, aos 78 anos, em vez de clinicar prefere administrar a unidade hospitalar criada por ele e detentora de algumas certificações internacionais de qualidade do setor.
No mês passado, ele lançou o livro Mater Dei 30 anos - Do Sonho à Realidade, resumindo sua trajetória como médico e dirigente hospitalar. Conta com a colaboração de três filhos médicos e, curiosamente, se mostra avesso ao tratamento de doutor. “Esse título esconde tanta gente boba, tanta gente que não tem nada mais que o título de doutor”, diz, estendendo o mesmo desprezo ao que inspira o poder pelo dinheiro. “As pessoas muito ricas, que só têm dinheiro, não significam nada. Para mim, elas são tão pobres, mas tão pobres, que a única coisa que elas têm é dinheiro”.
Nesta entrevista exclusiva à Balde Branco, ele explica, entre outras coisas, como conjuga as duas atividades no dia a dia e revela os diferentes níveis de realização e prestígio que obtém em cada uma delas. A essência disso, segundo ele, diz respeito a gostar do que se faz. “Quando amamos e temos paixão pela atividade que desenvolvemos, conseguimos deixar nela nossa marca pessoal. É exatamente isso que faz a diferença entre os profissionais”, explica, na condição de médico e também de criador de gado de leite.
Balde Branco - Como o sr. conjuga a atividade de produtor de leite e selecionador de gado Jersey com a de médico, como dirigente de um hospital, tendo em ambas um reconhecido prestígio?
José Salvador Silva - Na vida a gente tem tempo para tudo, desde que se queira e se planeje o dia a dia. Embora eu tivesse a maior clínica ginecológica e obstétrica de Belo Horizonte há cerca de 30 anos, sempre tinha tempo para almoçar diariamente com meus filhos. Eu não abria mão disso. Sempre criei os filhos, por mais que a psicologia ajudasse, a partir do binômio amor e disciplina. Quando se cria dando só disciplina, se corre o risco de se transformar quase numa Febem, enquanto quando se dá só amor, a tendência é formar uns ‘molóides’. Como pai, posso dizer hoje que a minha receita deu certo. No caso específico de sua pergunta, diria que ao leite sempre reservei os finais de semana, enquanto de segunda a sexta, trabalhando de 10 a 12 horas por dia, me dedicava ao hospital.
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Com os técnicos, me reúno quinzenalmente para traçar planos e também para aprender com quem sabe
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BB - O que o sr. emprega em comum nas duas atividades?
JSS - De comum é fazer um trabalho sério, saber recrutar, selecionar, capacitar pessoas com quem se trabalha, tendo feedback constante e também a flexibilidade para aprender com todo mundo. Sabe, eu tenho a humildade de admitir que não sei de tudo e que tenho, a esta altura da vida, ainda muito que aprender com quem sabe. Existe uma frase emblemática de um quase conterrâneo meu, o escritor Guimarães Rosa, que diz que “mestre não é aquele que sempre ensina, mas aquele que de repente aprende”. É por isso que me cerco de especialistas. Na fazenda tenho três consultores – um veterinário, um nutricionista e um zootecnista – e com eles me reúno quinzenalmente para avaliar e decidir sobre nossa estratégia de crescimento constante. São profissionais indispensáveis em qualquer propriedade, principalmente em um rebanho que tem como proposta uma melhoria genética sempre atualizada, utilizando-se de programas de fertilização in vitro, de transferência de embriões, com a inseminação artificial fazendo parte da rotina da maioria dos empregados.
BB - Inicialmente o sr. optou pela carreira de médico e só depois partiu para a criação de gado de leite. Como isso se deu?
JSS - Sou mineiro. Nasci em Santana do Pirapama e aos quatro anos de idade me mudei para Baldim. Vivi minha infância na fazenda, onde papai produzia leite, e de lá só saí para estudar e trabalhar com medicina. Pessoalmente, acredito que sempre retornamos à nossa origem, assim como a natureza. Veja os ciclos da lua, que se repetem todos os meses; o Sol, que nasce no horizonte, tem o esplendor ao meio dia e depois desaparece no horizonte, retornando no dia seguinte para o mesmo movimento. Então, para quem viveu a infância na roça, chega um momento, mesmo morando na cidade, que dá fome de terra. O meu retorno ao campo obedeceu a essa tendência natural.
BB - E a escolha da raça Jersey para criar e produzir leite?
JSS - Na minha vida de criador passei por algumas experiências, antes mesmo de optar pela raça Jersey, que ocorreu a partir da década de 90. Cheguei a explorar o Gir Leiteiro, Girolando, Pardo-Suíço... Com o tempo percebi que as vacas Jersey eram as que melhor atendiam às minhas expectativas quanto à precocidade, resistência, facilidade de adaptação... E foi com essa intenção que fui até a ilha de Jersey, Nova Zelândia, Canadá e Estados Unidos, onde pude adquirir animais das melhores famílias. Viajei para escolher o que precisava, pois tinha certeza do que queria, ou seja, animais com um nível de seleção maior e melhor do que havia até então no Brasil. Sabia, por exemplo, que na ilha de Jersey a raça era selecionada há mais de 700 anos.
BB - Quando se tem um padrão genético de rebanho muito elevado, o que é feito para melhorá-lo cada vez mais?
JSS - Procuro informações em revistas estrangeiras e também conto com um consultor lá fora, Patrice Simard, que mora no Canadá. Ele me passa indicadores atualizados e confiáveis sobre o mercado, orientando-me sobre o que comprar. Esse tipo de apoio tem me ajudado muito e também gerado acertos e confiança nas escolhas. Nosso consultor detém informações de touros, dos quais ainda nada sabemos, de touros que não se tem provas publicadas. Isso nos permite ganhar tempo
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Uma vaca bonita, bem acabada em sua conformação e produtiva, deve ser vista como uma obra de arte
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BB - O que faz um bom criador de gado de leite?
JSS - A primeira preocupação que se deve ter é fugir do imediatismo. Deve haver um projeto de longo prazo, dotado de seriedade, de qualidade, de ética, visando à confiabilidade dos compradores. Hoje, posso garantir que matrizes de boa genética, as chamadas vacas de cabeceira, já estão disponíveis no Brasil, mas quando formei o rebanho, há 20 anos, era preciso importar. A boa oferta atual está formando bons criadores, com rebanhos de qualidade. Até por isso temos observado nas pistas de julgamento pecuaristas que se transformam em bons expositores, mas nem sempre em grandes criadores.
BB - Esse é um diferencial determinante, não?
JSS - Sem dúvida. O segredo de tudo na vida está em fazer o que se gosta. A paixão é a grande força transformadora. Quando se faz algo que não te preenche, você se transforma numa pessoa comum e também em comum as coisas que faz. Mas quando você faz algo com paixão, isso significa um grande estímulo para se fazer melhor, afinal, o desejo e a vontade do homem são forças poderosas e estimulantes. Além disso, costumo dizer que é preciso ter coragem nas ações. Não existe nada importante que seja fácil de ser construído. Como diz Goethe, o ‘importante não é onde estamos, mas em que direção estamos nos movendo’. E, sob esse aspecto, a coragem é fundamental. Por fim, já que estamos filosofando, destacaria o peso da persistência. Manter-se persistente é preservar sempre, conseguindo colocar em práticas nossas convicções, quer seja atuando numa fazenda de leite ou na administração de um hospital.
BB - O sr. tem citado que a arte deve servir de referência para o trabalho. De que forma tal conceito pode ser aplicado às ações no campo, à criação de gado leiteiro, por exemplo?
JSS - Existem músicas, pinturas, esculturas que são verdadeiras obras de arte. A minha pergunta é a seguinte: se uma pintura, uma escultura, uma música pode ser uma obra arte, por que a própria vida não pode ser? A gente tem que fazer com que a nossa vida seja uma obra de arte. E digo vida em todos os sentidos. Ora, uma vaca bonita, bem acabada em sua conformação e produtiva, deve ser vista também como uma obra de arte, pois é um produto da natureza que envolve planejamento, concepção genética, uma adequada assistência, uma boa nutrição... Sem esses fatores não se pode chegar a um bom resultado.
BB - O esmero aplicado à criação de vacas leiteiras não lhe transmite algum tipo de apego aos animais? Por exemplo, como fica seu sentimento na hora de se desfazer de uma bela novilha ou de uma vaca campeã, criada na fazenda?
JSS - Acho que a gente não se deve apegar às coisas materiais. Até podemos ter as nossas preferências, mas na hora que se vende um animal deve prevalecer seu papel social, ou seja, o de estimular ou dar oportunidade a outras pessoas que não puderam ou não tiveram tempo de buscar uma melhor genética até então para seu plantel. Com isso, os criadores que detêm a condição de repassar bons animais para outros que ainda não possuem acabam contribuindo para a melhoria de um criatório e do rebanho bovino do país.
BB - O sr. nunca se sentiu atraído em cruzar o Jersey, já que há uma tendência atual nesse sentido?
JSS - O gado Jersey cruzado com animais de raças maiores, de boa produção de leite, tem promovido ótimos resultados para o leite de qualidade. Prova disso é a quantidade de criadores que nos procuram para comprar tourinhos. Até alguns anos atrás falava-se que o maior problema da raça Jersey era o bezerro macho, que nada rendia. Hoje, esse mesmo bezerro macho está valorizado, é uma grande atração da raça, é outro negócio para o selecionadores. Mais tivéssemos na fazenda esse tipo de animal, mais venderíamos, pois a procura é muito grande. Eles servem para cruzar com Gir, Girolando, Pardo-Suíço... O cruzamento, que vem sendo chamado de Jersolando, em muitos casos tem ficado com a preferência dos produtores de leite em vez do Jersey puro.
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A boa genética está disponível no País. Daí termos bons expositores, mas nem sempre grandes criadores
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BB - O que o sr. acha disso?
JSS - É um grande progresso, já que o leite da raça Jersey apresenta maior teor de gordura e um índice 20% superior em proteína se comparado a outras raças. Na medida em que se cruza genética Jersey com uma vaca Girolando ou Holandesa, com certeza vai se melhorar a qualidade do leite. Daí a procura pelos tourinhos Jersey, que são vendidos valorizados, e rapidamente. Hoje, com um ano de idade, esses animais estão cotados na faixa de R$ 3 a R$ 4 mil. E, veja bem, esses animais são tão precoces que com 12 meses já podem ser utilizados em cobertura. Isso prova a precocidade da raça.
BB - O sr. tem o mesmo nível de realização nos dois projetos a que se dedica: pecuária leiteira e hospital?
JSS - Admito que minha realização maior é com o que faço no hospital, onde, aliás, dedico a maior parte do tempo. É no hospital que estou voltado para a vida humana. Sou e fui médico a vida inteira, sempre amei a profissão. Desde menino eu queria ser médico, foi um sonho que me acompanhou sempre. Considero também que fazer um hospital foi uma coisa que me custou tanto sacrifício que costumo dizer que se antes eu tivesse feito psicanálise, não teria feito o que fiz. Por quê? Simplesmente porque eu iria pensar mais em mim e chegaria à conclusão de que não valeria a pena tal “sacrifício”. No entanto, ao longo de minha vida senti muito prazer em estar envolvido com o dia a dia de um hospital e me considero recompensado em saber que fiz algo que promove o bem e está aí para ficar.
BB - Uma curiosidade: qual é o seu hobby?
JSS - Gosto muito de ler. Apesar de meus afazeres, faço questão de ler pelo menos dois livros por mês. Leio sobre filosofia, cultura, psicologia... Um de meus maiores medos não é ter um infarto, nem câncer... É, sim, a cegueira, que me impediria de fazer o que mais gosto: ler! Gosto também de música, principalmente música clássica. Tenho Beethoven como o maior de todos os compositores. Ele é o Shakespeare da música erudita.
BB - Voltando a falar da fazenda, o sr. não se queixa quando se fala de gestão ou de mão de obra. Parece até haver muita harmonia entre técnicos e empregados. Qual o segredo dessa boa relação?
JSS - Sei que o ideal para um produtor de leite é morar na fazenda, ser casado com uma mulher que goste de fazenda e que tenha toda a família envolvida com a atividade. No meu caso e de muitos outros produtores, que têm outra atividade externa à fazenda, é preciso reconhecer as limitações e compensá-las. Quero dizer com isso que só nos resta investir em pessoas, capacitando-as, a fim de diminuir o turnover ao máximo. São vários os empregados da fazenda que têm vínculo de quase 20 anos conosco. Eles demonstram dedicação e satisfação com o que fazem, e eu sempre me mostrei presente quando precisaram de mim, nos momentos de eventuais dificuldades. Há um reconhecimento disso pela maioria deles. Complementando, é preciso dar oportunidade de aprender, de fazer treinamentos, para que haja cada vez maior profissionalização. Tudo isso ajuda, de alguma maneira, a compensar minha ausência na fazenda.
BB - Em sua opinião, por que a média de nossos indicadores de produtividade fica tão abaixo da obtida em países especializados?
JSS - Essa questão está diretamente ligada à baixa rentabilidade do setor. Se a margem obtida pelos produtores não é boa, como é que ele vai poder investir, crescer, aperfeiçoar, melhorar qualidade... Tudo isso tem um custo. Com o atual valor pago pelo litro de leite aos produtores fica difícil ter um crescimento sustentável na atividade, sem depender de outras receitas
O consumo de leite pelas crianças exige atenção, pois as mulheres de hoje não amamentam mais como antes |
BB - O leite, pela importância social que tem como alimento, mereceria uma atenção melhor do Estado?
JSS - Sem dúvida. Por outro lado, considero o que se paga pelo litro do leite muito barato. Prova disso está na comparação que se pode fazer com o preço de uma garrafa de água de mineral em qualquer ponto de venda. O leite, com toda a sua complexidade de obtenção, tem um valor igual ou inferior a um produto fornecido por uma fonte explorada no solo, produzida pela natureza. Isso não é justo. Por outro lado há um problema social, pois as questões da alimentação, da saúde e da educação estão diretamente ligadas à questão econômica, ou seja, à renda da população. Quando isso for solucionado, boa parte dessas carências será resolvida. O País precisa apresentar um índice de crescimento razoável e permanente. E para que isso aconteça o governo precisa estar preocupado em reduzir gastos, pois se forem muito altos não vai sobrar para investir em atividades como saúde e educação. É preciso pensar grande e não ser imediatista. Pessoalmente, acho que tanto o mundo e nosso país têm melhorado. Para notar esse desenvolvimento é preciso entender que o coração da história bate a intervalos maiores do que o coração humano. Em 1950, a média de idade no Brasil era de 53 anos; hoje, já está em quase 80 anos e é cada vez mais frequente encontrar pessoas com mais de 100 anos.
BB - Como o sr. avalia os programas sociais de distribuição de leite no País?
JSS - Acho que são muito oportunos e salutares, principalmente por se proporem a fornecer proteína à criança numa etapa da vida em que ela está precisando. Quando a criança tem um déficit de proteína no seu processo de desenvolvimento, isso vai fazer falta para o cérebro dela mais tarde. Não existe raça humana mais inteligente que a outra, mas o que existe de real é que a proteína dada no momento certo ajuda a fazer as diferenças entre as pessoas. É nesse sentido que se deve ver com atenção o fornecimento do leite de vaca para as crianças, pois as mulheres de hoje não amamentam mais como antes, suas lactações não passam de quatro, cinco meses... Então, é preciso compensar a alimentação na infância quando falta o leite materno.
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