Em 90 dias

  • 2 de abril de 2019

Entre janeiro e março, a vida fica mais lenta. Nos trópicos, é tempo de férias e Carnaval e, no mundo temperado, os dias frios e curtos parecem inibir grandes feitos. Então, todos os anos restam aos jornalistas gerar notícias sobre estragos de chuvas ou secas, onde faz calor. A Califórnia americana, o Norte da Austrália e Argentina, sul da China e Brasil sempre apresentam cenas fortes de queimadas e alagamentos. Mas também temos os estragos feitos pela neve, onde se vive o inverno. Europa, Estados Unidos, Canadá, Rússia e China nos brindam com imagens exóticas de campos e cidades com paisagens gélidas, voos atrasados e estradas com engavetamentos monumentais.

Mas este primeiro trimestre foi diferente, rico em fatos. Os Estados Unidos ficaram com o Governo paralisado por muitos dias. A oposição não aceitou votar o orçamento de Trump, que previa a construção do muro na fronteira com o México. Repartições públicas não abriram e até aposentadorias e salários ficaram suspensos temporariamente. Na Inglaterra, o Parlamento reproduz a divisão da sociedade em torno do Brexit, e fica evidente que não há como sair da União Europeia sem fortes traumas. Na França, os “coletes amarelos” voltaram às ruas e a polícia teve de usar da força para dispersá-los. Na Alemanha, a então toda poderosa Primeira Ministra viu enfraquecida a sua política de controle fiscal, uma das suas marcas de gestão. Na Itália, o Governo teve de enfrentar pressão para flexibilizar sua política contra migrantes africanos e, no Vaticano, ficou ainda mais acirrada a disputa ideológica entre os defensores das ideias de Bento XVI e de Francisco.

Na Venezuela, a oposição criou um Governo paralelo. Trump ameaçou invadi-la para derrubar o podre Governo de Maduro e Putin reagiu, enviando dois primeiros aviões com armas e soldados. E sem nenhuma reação americana! Kennedy deve estar se revirando no túmulo com o silêncio americano. Há 57 anos, os navios russos estavam levando mísseis para Cuba, quando os obrigou a voltarem para casa.

No Brasil, a lama da Vale soterrou vidas, sonhos e silenciou o discurso do Estado Mínimo, sem regras. O massacre de Suzano deixou dúvida quanto a se devemos liberar ou restringir o acesso a armas, como fez a Nova Zelândia, após experiência semelhante vivida na mesma semana. Não sabemos como e quando teremos a necessária Reforma da Previdência e ficou claro que a capacidade financeira de estados e municípios de fazer políticas públicas não mais existe. Resta, agora, o Governo Federal. Mas é preciso que os políticos se entendam para que a excelente equipe do também excelente ministro Paulo Guedes tenha condições de colocar a casa em ordem.

Sou de Juiz de Fora-MG, e também contribuímos para que este trimestre fosse movimentado. Comemoramos o Dia Internacional da Mulher com a escolha da nova Miss Brasil, a conterrânea Júlia Horta, uma miss fora do perfil tradicional! Inteligência e simpatia são as principais marcas dela. Além disso, por Juiz de Fora começou a badalada e talvez última turnê nacional do Milton Nascimento, que mora entre nós.Ele abriu a comemoração dos 90 anos de um dos mais belos templos da cultura brasileira, o nosso lendário Cine Theatro Central.

Já o ministro da Educação, que é um ex-professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), transformou os cargos dirigentes do MEC nos mais arriscados do Brasil. Em treze semanas ele promoveu quinze demissões! Como escrevo esta crônica em 31 de março, pode ser que este número cresça até que a revista chegue até você. Cine Theatro Central e Ministério da Educação me fizeram lembrar de dois dignos juiz-foranos por adoção: o ex-presidente Itamar Franco, que o estatizou para não perdê-lo, e o também ex-professor da UFJF e ex-ministro do MEC, Murílio Hingel. Como se diz em Minas, eles são cabeceiras!

Tudo isso, em apenas 90 dias.Já no mundo do leite, quem diria, motivamos a primeira crise no Governo, com o fim das medidas antidumping. E descobrimos uma ministra da Agricultura que está comprometida com o setor. Ela e equipe receberam sugestões feitas por cinco entidades (CNA, OCB, Abraleite, Vivalácteos e Embrapa) e sua equipe elaborou a proposta de atuação, que foi apresentada na Câmara Setorial e ratificada por 32 entidades. É importante saber que temos caminhos delineados quanto às políticas públicas para o setor. No mercado internacional os preços estão crescendo desde novembro, e isso reduz a propensão a importar. A tonelada da manteiga ultrapassou a barreira de US$ 5 mil; o queijo cheddar, a de US$ 4 mil, e o leite pó está em mais de US$ 3,3 mil. Além disso, o Dólar está valorizado frente ao Real, encarecendo as importações. O resultado é que, em março, importamos menos leite e derivados que em março de 2018 e 2017. Já os preços ao produtor estão mais elevados que nos últimos cinco anos e os custos estão estáveis, de acordo com o ICPLeite Embrapa. Nestes primeiros 90 dias de 2019, o mundo do leite esteve mais favorável que no restante do mundo. Que seja assim por mais 275 dias…

Sobre o autor

Paulo do Carmo Martins é chefe geral da Embrapa Gado de Leite

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