Já passou o tempo em que as coisas da roça eram diferentes das da cidade. No passado, era possível identificar os habitantes do meio rural pela sua forma de vestir, de calçar, de conversar e de levar a vida num ritmo mais calmo. O linguajar tinha sotaque característico, as palavras eram peculiares e as músicas caipiras apresentavam letras, timbres e ritmos diferentes de todas aquelas cantadas pelos habitantes das cidades.
Os alimentos eram obtidos no local e poucos produtos industrializados participavam da cozinha rural, onde a banha substituía o óleo vegetal e o fogão à lenha reinava absoluto. Carne de caças, peixes, frangos caipira, porcos engordados nos chiqueiros, patos e perus faziam parte das dietas, que eram enriquecidas com feijão produzido em consorciação com milho ou café, arroz branco ou vermelho colhido nas várzeas, batata doce, inhame, taioba e cambuquira.
A mandioca era consumida frita, utilizada na forma de farinha, no preparo de bolos e doces característicos. O milho propiciava a obtenção de fubá produzido em moinhos ou monjolos, canjica e farinha de beiju. O leite e seus subprodutos propiciavam o preparo de pratos doces ou salgados e as frutas eram consumidas in natura ou utilizadas para confecção de doces variados.
O homem do campo vivia isolado do mundo por falta de televisão, telefone e estradas boas. O contato com o meio urbano era somente por meio do rádio, onde existia eletricidade, e por visitas periódicas aos agrupamentos urbanos mais próximos para aquisição de alguns produtos essenciais para a sobrevivência como sal, açúcar, querosene, tecidos etc.
Vivia-se em função da fazenda, onde a vida era tranquila porque não ocorriam assaltos e a pressão do consumismo não existia, tornando a vida mais simples e despojada. Nas moradias nem sempre existia eletricidade, água encanada ou assoalho, fatos que tornavam o dia a dia mais difícil para as donas de casa. As crianças viviam soltas, brincavam com a natureza, aprendiam a nadar nos córregos e frequentavam as escolas rurais que atendiam aos moradores das fazendas e pequenas vilas.
Mesmo com um estilo de vida aparentemente tranquilo e agradável, muitos desses habitantes aspiravam mudar para a cidade, onde esperavam encontrar salários melhores, facilidades inexistentes na roça. E também novas perspectivas. Entretanto, a adaptação nem sempre era fácil, pois as diferenças culturais eram muito acentuadas. Além disso, o baixo nível de escolaridade e a falta de conhecimento para execução de trabalhos mais especializados na indústria ou prestação de serviços, geralmente, levavam a empregos mal remunerados.
Pagar aluguel, condução e atender às imposições crescentes de consumo da família criava uma situação estressante para o trabalhador rural que almejava se tornar urbano. Apesar das dificuldades de adaptação e do choque cultural acentuado, o êxodo rural se alastrou por todo o País, contribuindo para o inchaço e favelização das cidades brasileiras.
Nos dias atuais, o habitante do meio rural tem um estilo de vida que o aproxima mais do morador dos centros urbanos, seja nos hábitos alimentares ou no conhecimento do que está acontecendo no mundo, pois mantém um contato mais íntimo com tudo o que acontece na cidade. Facilidade de movimentação em estradas melhores, transporte coletivo sempre disponível, eletrificação rural e antena parabólica propiciaram aos moradores da roça adquirir hábitos, costumes, linguajar e gostos dos urbanos; e a violência, antes, restrita aos conglomerados urbanos, também chegou ao meio rural.
O modo de vida das fazendas do passado deixou de existir e, com o surgimento do agronegócio, o salário foi atualizado, as moradias melhoraram e a legislação trabalhista colocou o trabalhador do campo no mesmo patamar do operário urbano, apesar das características peculiares da roça como moradia, trabalho diferenciado como duas ordenhas, cuidado com animais fora de hora e trabalho nos fins de semana.
Mesmo com grandes modificações ocorridas, viver na roça nem sempre oferece atualmente estímulos para que trabalhadores rurais e proprietários de fazendas permaneçam no campo, pois a cidade exerce um poder de atração muito grande pelo estilo de vida e as facilidades aparentes que oferece e, sobretudo, pela possibilidade de diversão permanente, que nem sempre existe nas fazendas mais distantes dos centros urbanos.
O êxodo rural é uma tendência irreversível e seus efeitos podem ser amenizados pela mecanização cada vez mais sofisticada, mesmo na atividade leiteira. Sistemas de ordenha eficientes, pastejo em áreas restritas e mecanização da alimentação possibilitam sistemas de produção com mão de obra reduzida. Assim, a manutenção de pessoas no campo vai depender de qualificação profissional e identificação de indivíduos que, por sua formação cultural, não consideram o trabalho rural degradante, que apreciam a atividade leiteira e a vida mais tranquila e agradável, que ainda pode ser encontrada na roça.
Vidal Pedroso de Faria é professor da Esalq-Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz e membro do conselho editorial de Balde Branco.