O ano que se inicia

Vidal Pedroso de Faria

O início do ano não é época de programação de atividades ou trabalho concentrado na fazenda porque as principais decisões e ações devem ser tomadas na primavera, quando começa o ano agrícola. No Brasil Central, o final do ano velho e o começo do novo coincidem com o auge da estação das chuvas, época em que os campos estão semeados; os pastos, vigorosos, e a fazenda, funcionando a pleno vapor.
Entretanto, quase sempre é o período em que existe certo pessimismo porque os preços pagos pelo leite estão deprimidos; as chuvas, quando excessivas, podem criar problemas complicados; as mastites aparecem com frequência, e o calor se torna insuportável. Para acentuar o clima desfavorável, os feriados prolongados do Natal, passagem do ano e carnaval criam, às vezes, dificuldades operacionais sérias em atividades que não podem ser interrompidas, suprimidas nem postergadas numa fazenda produtora de leite.
Na passagem de ano, geralmente se faz um balanço do ano que passou, tanto para a vida particular como para os negócios. A euforia está presente em todos os lugares, pois é época de férias, de praia, de compras, de alegria e de esperança. Entretanto, o período não é muito adequado para a avaliação da produção de leite porque a série de eventos desfavoráveis, que foram mencionados, não permite um julgamento isento nem sentimento de satisfação com a atividade nem, muito menos, proposições otimistas.
Existe a tendência de se considerar o momento como representativo da atividade leiteira e, assim, fica no esquecimento o que aconteceu no restante do ano. O sentimento de desânimo e revolta leva à certeza de que a atividade é ruim ou mesmo inviável, geralmente por quem não mantém controle contábil e não sabe, portanto, com certeza, o que realmente aconteceu ou está acontecendo. O julgamento se baseia na dificuldade de, naquele momento, pagar contas e honrar compromissos eventualmente assumidos no início do ano agrícola.
O clima de insatisfação ocorre também entre os produtores que anotam dados sobre produção, gastos, receitas e ocorrências zootécnicas, com possibilidade de controlar a atividade por meio de planilhas, porque o foco também é dirigido para o período pouco favorável. Não é incomum desconsiderar o resultado anual em detrimento do fluxo de caixa da atualidade e, assim, o descontentamento toma conta e se sobrepõe a evidencias razoáveis reveladas pela consolidação do ano físico.
Uma análise da evolução dos preços do leite revela que, historicamente, os menores preços pagos são para o final e início de cada ano e, então, o fato que perturba os produtores deveria ser esperado, porque, sendo o preço regulado pelo mercado, está sujeito a variações sazonais. Preço oscilante é uma realidade desagradável que faz parte da atividade leiteira, pois geralmente se observa reversão na tendência de alta no meio do ano, nas curvas que representam o comportamento histórico dos preços pagos ao produtor.
O planejamento da fazenda leiteira deve ser realizado considerando a possibilidade de redução de receita no período crítico, pois o fato pode ser agravado pela concentração de parições para maior produção no período de preços bons. Se essa prática for adotada, o planejamento financeiro deve ser cuidadoso visando à disponibilidade de recursos suficientes para pagamentos do final e início do ano. Mas esta proposição fica na dependência de sobras suficientes nas épocas favoráveis.
Assim sendo, é necessário conduzir a atividade sempre com eficiência e procurar maximizar a produção, aproveitando o potencial instalado no sistema para geração de renda. Este é o conceito de intensificação do processo produtivo que vem sendo aplicado com sucesso, possibilitando obtenção de resultados muito bons com a atividade leiteira. Análises de planilhas de fazendas familiares de destaque do projeto Balde Cheio, que conseguiram utilizar adequadamente os fundamentos para obtenção de resultados, revelaram renda/ha entre R$ 11.500 e R$ 12.000, e margem bruta/há, entre R$ 6.400 e R$ 8.000 para o ano encerrado.
A sustentabilidade da produção de leite depende de uma relação adequada entre custo e renda para que seja possível ter margem positiva mesmo no período em que o preço despenca. Uma fazenda real que despendeu em média 52% da renda para pagar o custeio nos cinco meses de preço mais elevado do ano (R$ 0,64/litro) passou a empregar 68% em um período equivalente de preços menores (R$ 0,46/litro).
Em contraste, a propriedade que empregava uma média de 76% da renda para gastos com custeio no período de preços altos (R$ 0,73/litro) teve prejuízo operacional quando o valor pago despencou (R$ 0,53/litro), porque seriam necessários 103% da renda para manter a fazenda. Somente com aplicação de conceitos tecnológicos corretos a produção de leite será uma atividade sempre viável sob o ponto de vista econômico.

Vidal Pedroso de Faria, professor aposentado da Esalq - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz-USP e membro do Conselho Editorial de Balde Branco.