Mudança de rumo

 

Após alguns anos de tentativas frustradas na obtenção de resultados satisfatórios, o produtor sente, algumas vezes, vontade de promover mudanças radicais na fazenda. Mudar um sistema de produção de leite não é tarefa fácil, porque o ciclo produtivo dos bovinos é longo e, conseqüentemente, as respostas só aparecem dentro de prazos relativamente amplos.
E quando existem recursos financeiros, algumas mudanças podem ser bruscas. Como, por exemplo, a troca de todo o rebanho, construção de instalações e introdução de equipamentos para mecanização, mas a verificação dos resultados deverá esperar o tempo suficiente para que as novas tendências se manifestem.
Se o planejamento não for criterioso ou estiver baseado em premissas falsas, o resultado desfavorável só aparecerá após meses ou anos de espera. Nesses casos, os prejuízos podem ser consideráveis. Por esses motivos, qualquer proposta de alteração de rumo deve ser cuidadosamente planejada.
A troca de vacas que apresentam baixa capacidade produtiva em decorrência de períodos curtos de lactação por matrizes com potencial mais elevado não pode ser realizada pela simples substituição. Os resultados serão decepcionantes se o manejo não for também alterado, por meio da adoção dos princípios básicos para produção. Esta medida exigirá tempo e também adaptação de conceitos a uma nova realidade. Nutrição adequada, sanidade e conforto são fatores que obrigatoriamente devem estar presentes para que se explore eficientemente a vaca leiteira e, assim, as condições operacionais da propriedade devem ser adaptadas e, muitas vezes, existe a necessidade de implantação lenta e cautelosa, além de treinamento da mão-de-obra.
A colocação de touros de corte para a cobrição de vacas leiteiras, objetivando a obtenção de animais com aptidão para produção de carne é uma proposta de mudança bastante usual. Várias ondas de uso de cruzamentos já ocorreram, sempre, estimuladas por preços baixos para o leite. Os resultados não são satisfatórios porque é preciso esperar dois ou três anos, se o objetivo for produzir gado para abate, e no período, podem ocorrer mudanças na conjuntura e reversão das expectativas. A comercialização de bezerros pode ser realizada em prazo mais curto, mas o preço poderá sofrer variações bruscas, e a maioria das fêmeas nascidas não será boa. O que se observa como conseqüência da proposta é a desestruturação do rebanho e a dificuldade de aproveitamento de fases favoráveis para o leite que, inevitavelmente, surgem ao longo do tempo.
Transformar sistemas que utilizam pastagens como base de alimentação do rebanho em confinamento, onde o gado passará a ser alimentado somente no cocho, é uma mudança de rumo muito grande, que exige critérios técnicos bem definidos. A produção de alimento conservado pode ser solucionada em curto prazo, porque culturas anuais apresentam ciclos curtos, mas mudanças de atitude e controle efetivo do processo produtivo exigem treinamento e ajustes ao longo do tempo.
O rebanho usado no pasto pode não ser adequado para o novo modelo, no caso em que as vacas não apresentam persistência de produção, porque a melhoria da eficiência da operação fica prejudicada. O controle efetivo do processo produtivo deve ser estabelecido sempre que os custos forem elevados. A simples alteração do sistema não possibilita alcançar a meta estabelecida, quando os fundamentos da exploração de gado leiteiro deixam de ser atendidos.
Qualquer mudança de rumo em fazendas leiteiras requer aplicação de conhecimento técnico para nortear ações e atitudes compatíveis com a realidade de produzir leite com eficiência. A procura por modismos, resultados espetaculares, propostas sem fundamento e a falta de conhecimento são fatores estimulantes para tentativas de alterar bruscamente um sistema, sem a expectativa de resultado satisfatório.

Vidal Pedroso de Faria, do Conselho Editorial de Balde Branco.