Especial
 

Fim das cotas preocupa
produtores na França

 

 

A sobrevivência das pequenas propriedades está em jogo e o setor busca alternativas, dentre elas, a garantia de uma maior ajuda, principalmente aos produtores de leite

Luiz H. Pitombo
 

Instituído na década de 80 para conter o excesso de produção de leite na União Européia, o sistema de cotas está com os dias contados e deverá ser encerrado em 2015. Há os que gostam da medida, mas não os produtores franceses, que são os segundos maiores fornecedores dentro do bloco, com 17% do total entregue no ano passado, em torno de 22 bilhões de litros. Cerca da metade das 93 mil fazendas leiteiras existentes no país têm até 49 vacas, e no período 2006/2007, 44% do total geral tinham cotas de produção abaixo de 200 mil litros/ano, ou menos de 550 litros/dia.
Com o esperado aumento da produção a partir da liberação do mercado e a conseqüente tendência de queda nos preços, se afirma que muitos desses produtores não vão suportar e abandonarão a atividade na França e também em outros países da Europa. Mesmo hoje, com os preços elevados que garantiram uma melhora na rentabilidade, a situação não está fácil dentro do contexto francês. Um reflexo claro do descontentamento foi uma manifestação de produtores que ocorreu na cidade de Clermont-Ferrand em meados de setembro, pouco antes da realização de uma das mais importantes feiras pecuárias da França que acontece nessa região, a Cúpula da Pecuária, ou Sommet de L'Elevage em francês (veja o box).


Chantal: preços apertados

Entre 16 mil a 20 mil integrantes de todos os segmentos da produção animal, incluindo produtores de leite, foram às ruas reclamar. "Fizemos isso, pois não estamos conseguindo viver do que produzimos e dos valores que recebemos", afirma Chantal Cor, delegada da região francesa de Cantal da Federação Nacional dos Produtores de Leite (FNPL). Aumentar os preços ao consumidor é uma alternativa que ela descarta, pois considera que já estão elevados, e isso não seria bom para o país. Também diz que não se deseja parar de produzir e tornar a França dependente de importações. Uma saída reivindicada é que o governo dê mais subsídios e que se faça um melhor trabalho dentro da política agrícola da UE.
Ela aponta que a produção animal não tem recebido tanto apoio como a agricultura, nos últimos tempos. É preciso lembrar que existe hoje na Europa uma competição entre a produção de leite e carne com a de cereais, que possuem um custo menor de produção e uma demanda maior. Chantal cita outro ponto em que a pecuária está com um tratamento diferenciado e mais rigoroso do que a agricultura, que é o relacionado às restrições ambientais. Tal qual seus colegas do Reino Unido, reclama, por exemplo, da exigência da construção de instalações para estocar dejetos animais por 4 a 6 meses, além de limitar sua aplicação como fertilizante no pasto.
Produtora com 45 vacas em lactação, Chantal afirma que este ano deverá fechar recebendo uma média em torno de R$ 0,9937/litro ( 1 = R$ 2,84), contra R$ 0,7098/litro do ano passado, o que na sua avaliação fará de 2008 o melhor dos últimos cinco anos. Entretanto, tem receio de que os preços caiam em 2009. Em relação ao ano passado, diz que o custo de produção subiu 40% puxado pela elevação em 60% na alimentação dos animais, energia, combustíveis e fertilizantes, fazendo com que, na média de sua região, esteja 10% acima do preço recebido.
Mas além do valor pago pela indústria, Chantal diz que conta com um subsídio de R$ 0,1135/litro, o que a deixa praticamente empatada. Antes, ficava 'no vermelho' mesmo com este suporte que, mais ou menos dia, pode acabar, reconhece. Dentro do atual cenário da pecuária francesa, outros aspectos importantes também trazem dificuldade, como a questão sanitária envolvendo especialmente a febre catarral ovina (FCO), que igualmente afeta os bovinos.


Marguet: leite nas montanhas

Setor exige suporte e algum controle - A representante da região do Cantal admite que os pecuaristas franceses não concordam, mas acatam o fim das cotas. Os alemães, maiores produtores de leite do bloco, também são contra. Para evitar uma enxurrada do produto, Chantal diz que a Europa vai precisar organizar seu mercado e estabelecer algum tipo de regulação. Além disso, volta a defender a existência de subsídios, citando um especifico aos produtores de leite das regiões montanhosas da França, que se encontram numa situação mais difícil de produção e que baseiam sua atividade no pasto.
Ela acredita que este suporte deva existir também em outros países da Europa, como na Suíça, sem o que as economias locais vão despencar. Posição similar tem o também produtor de leite Martial Marguet, que acumula a vice-presidência da FNPL e a presidência do Instituto da Pecuária (Institut de l'Elevage), entidade oficial de pesquisa aplicada e desenvolvimento, que inclusive teve e tem projeto em andamento no Brasil.
Com o fim das cotas diz que existem duas preocupações básicas: qual será a real demanda mundial por alimentos e lácteos no futuro e qual o destino das pequenas propriedades familiares européias e seus produtos específicos, como os queijos. Para ele, o leite é a principal atividade capaz de ocupar e preservar as regiões de montanhas, onde, na França, se produz muito queijo. Assim, diz que estes para sobreviver precisam de produtos de qualidade com certificado de origem e de uma ajuda complementar que os permitam cumprir seu papel, incluindo o de manter as tradições.
Numa resposta à manifestação de Clermont-Ferrand, o ministro francês da Agricultura e Pesca, Michel Bernier, visitou e discursou durante a exposição pecuária da região. Ele afirmou que entendeu a mensagem e se mostrou solidário em vários momentos à problemática vivida pelo setor. Bernier anunciou recursos e medidas para auxílio aos fazendeiros e para o combate à FCO, em especial,para o abalado setor ovino.


Sobre as discussões referentes à reforma da Política Agrícola Comum da UE, disse que sua determinação é valorizar e dar suporte aos sistemas de produção a pasto sem o envolvimento de medidas agro-ambientais. Para ancorar a produção em território francês, diz que é preciso adotar políticas que assegurem produtos de qualidade e com valor agregado.


Cerca de 70% da produção de queijo é exportada

Queijos valorizados e rebanho leiteiro dividido - A França tem em seus famosos queijos a maior fonte de recursos de suas exportações de produtos lácteos. No ano passado, rendeu ao país R$ 6,816 bilhões, ou seja, 72% do total dos lácteos embarcados ao consumidor final. Certamente, o ministro Bernier pensa em valorizar cada vez mais este filão. Isso já acontece com os programas de certificação de origem destes produtos, muitos dos quais já carregando o respectivo selo francês e o da UE. Também possuem raças bovinas locais cujos criadores destacam a qualidade do seu leite para a produção de queijos.
O rebanho francês ao início deste ano totalizava 3,7 milhões de vacas leiteiras, mais de 60% registradas. Este contingente já foi de 5,1 milhões em 1991, mas diminuiu, influenciado pela política de cotas de produção. Com a menor possibilidade de produzir leite, muitas fazendas buscaram a diversificação com agricultura e a pecuária de corte. Este é um dado que ajuda a explicar porque nesse país a taxa de redução do número de propriedades leiteiras foi menor do que a média da UE, como também o incremento da produção por fazenda. Considerando o período de 1995/2005, a média de produção evolui 83% atingindo 232.000 kg/ano, enquanto no Reino Unido, por exemplo, saltou quase 390%, chegando a 738.000 kg/ano.


A raça predominante na França é a Holandesa de seleção local, chamada de Prim'Holstein, com 2,5 milhões de vacas, vindo em seguida as nativas Normanda e Montbeliard, que no início deste ano somavam 521 mil e 487 mil cabeças, respectivamente. Existem outras raças de menor presença como Pardo-Suíço, Tarentaise e Abondance. Dados do controle leiteiro de 2007, referentes à produção de 2,6 milhões de vacas, apontam um rendimento médio por lactação de 8.085 kg, ou 27% a mais que em 1992.
A principal zona produtora de leite está situada ao noroeste do país, englobando as regiões da Bretagne, Pays de La Loire e Basse-Normandie, que responderam em 2007 por 47% da produção nacional. Segundo informa o engenheiro agrônomo Jean-Luc Reuillon, do Instituto da Pecuária, a maior delas é a Bretagne, que tem boas chuvas e não apresenta neve no inverno. A alimentação destes animais é baseada no pasto, silagens de milho e capim mais concentrado.


Reuillon: manutenção dos subsídios

Em relação aos subsídios, que o agrônomo também defende para as áreas consideradas frágeis dentro da EU, conta que a discussão não passa por sua necessidade, mas, sim, sobre como dividir os recursos. Isso porque o orçamento do bloco econômico deve ficar estável e os produtores de grãos querem manter sua parcela de suporte. Para este ano, Reuillon estima que a produção francesa deva se situar abaixo da cota prevista de 25 bilhões de litros, para não ser penalizada com o pagamento de taxas.
Para este ano, Reuillon estima que a entrega de leite na França deva se situar abaixo da atual cota estipulada em 25 bilhões de litros, como de costume, para evitar ser penalizada com o pagamento de taxas. Mesmo assim, a previsão é de um crescimento de 2% sobre o ano passado, acompanhando de perto o aumento paulatino das cotas que ocorre dentro da UE. Reuillon explica que a França sempre produz abaixo de sua cota para evitar ser penalizada com o pagamento de taxas, sendo que para 2008/2009 ela é de 25 bilhões de litros. Mesmo assim, a previsão é de um crescimento de 2% sobre o ano passado, acompanhando de perto o aumento paulatino das cotas, que ocorre dentro da UE.


Raça Holandesa, com seleção francesa, tem 60% dos animais registrados

Genética em sistema cooperativado - Todo o programa de melhoramento genético francês é realizado por cooperativas, com cálculos e orientação do Instituto Nacional de Pesquisas Agronômicas e entidades coligadas. Desde 2002, utilizam 45 marcadores moleculares para características de produção, fertilidade, resistência à mastite, morfologia funcional e anomalias. Dentro da raça Prim'Holstein, as cooperativas mais expressivas são a Creavia e a GDO; na Montbeliard a Umotest e Jura Betail, e na Normanda, Amélis e Urcecof.
A Sersia France, braço exportador da Creavia, que atua também com todas as demais raças, tem remetido ao Exterior 1 milhão de doses/ano. Do volume adquirido pelo Brasil, 85% é de Prim'Holstein; 10%, entre Normando e Montbeliard, e 5%, de outras raças. Frédéric Nedelec, gerente para a América Latina, conta que estão em processo de mudança no Brasil, devendo anunciar em breve uma nova empresa distribuidora. Seus planos são o de recuperar e ampliar a participação.
Só a Creavia testa 300 touros/ano da raça Prim'Holstein. Dentro do padrão de seleção francês, é dado um peso de 50% para a produção (leite, proteína e gordura) e 50% para funcionalidade, com participações iguais entre fertilidade, longevidade e morfologia. A média de produção das vacas em 349 dias é de 8.823 kg, com 3,98% de gordura e 3,36% de proteína. Em termos de células somáticas, 50% das fazendas têm mais de 80% dos animais abaixo de 300 mil/ml. Na idade adulta as vacas pesam entre 600 a 700 kg.


Vacas Normando: rebanho estimado em 521 mil animais

O analista de touros Jean Paul Brun, que atua na Coopex, setor exportador da Umotest, destaca que "a raça Montbeliard é a número um nas regiões montanhosas da França, onde se produz queijos". Além disso, diz que possuem baixa contagem de células somáticas, com média em 180 mil/ml, e seus bezerros são valorizados para a engorda, pois é raça originalmente de dupla aptidão. A média de produção do ano passado em 324 dias foi de 7.874 kg com 3,89 % de gordura e 3,44% de proteína, sendo que mais de 80% dos reprodutores são favoráveis à capa-caseína (BB ou AB), o que tem boa influência no processamento de queijos.
Brun diz que a raça também é utilizada em cruzamentos com a Holstein na França e nos Estados Unidos, trazendo nas cruzas em relação à outra raça ganhos em fertilidade, longevidade e redução de mastite. As vacas adultas pesam entre 600 a 650 kg, com a primeira inseminação ocorrendo entre 16 a 22 meses de idade, se valendo de 1,6 dose por prenhez. A outra raça nativa que tem seu leite cobiçado para a produção de queijos é a Normanda, pelo teor de proteína do seu leite e reprodutores selecionados para caseína. Em 2006, os controles apontaram uma média de produção de 7.202 kg de leite com 4,33% de gordura e 3,45 de proteína, ajustado para 332 dias.
O zootecnista Jean-Louis Lemone, que atua numa cooperativa especializada na venda de animais da raça, especialmente novilhas prenhas, explica que na seleção da Normanda não se procura manter os níveis de gordura, mas melhorar a proteína, produção de leite e a morfologia do úbere. Como os machos são engordados para o abate, também buscam animais um pouco mais pesados, sendo que as vacas adultas dão na balança 800 kg. A idade média ao primeiro parto é de 32 meses, mas existem animais parindo com 24-25 meses. Os preços das novilhas que comercializa caíram um pouco este ano frente a 2007, sendo cotadas agora a R$ 4.260. Ele informa que na França a raça não entra em cruzamentos, mas que isso ocorre nos Estados Unidos e outros países.

Balde Branco viajou para a França a convite da Embaixada da França - Missão Econômica de São Paulo e da comissão organizadora da 17ª Sommet de L'Elevage, exposição agropecuária realizada em Clermont-Ferrand.

Exposição com 1.800 animais

Nos arredores da cidade de Clermont-Ferrand, localizada no Maciço Central francês, a 436 km ao sul de Paris, foi realizada a 17ª Sommet de L'Elevage, ou Cúpula da Pecuária. A exposição, que ocorreu de 2 a 4 de outubro, é uma das mais importantes do gênero no país e congrega diferentes espécies num total de 1.800 animais entre aves, ovinos, eqüinos e bovinos que predominam.
São 800 argolas para os animais de corte e 400 para os de leite, com as maiores representações deste último grupo ficando para as raças Prim'Holstein, Montbeliard e Normanda. Mas também participaram dos julgamentos as raças Tarentaise, Abondance, La Pie Rouge, Pardo-Suíço, Jersey e Simental. A França valoriza as raças locais e já houve, no passado, um trabalho oficial de resgate e estímulo deste material genético.
Perto de 1.120 empresas francesas e estrangeiras fornecedoras de insumos e equipamentos para o setor também movimentam a feira, que neste ano recebeu 76.500 visitantes, sendo 2.000 de outros países. A maioria dos presentes é de produtores em busca de novidades, informação e bons negócios. Apesar da situação financeira mundial e das dificuldades enfrentadas pela atividade, seus organizadores comemoraram os bons resultados.


Mais de 1100 empresas participaram do evento de Clermont-Ferrand

Numa avaliação ampla, Berthon Fabrice, diretor geral da feira, considera que o setor leiteiro apresentou melhores negócios que o de corte, em comparação com o ano passado. Os estandes mais movimentados da pecuária de leite foram os que apresentaram equipamentos de ordenha robotizada. Uma nova ala foi inaugurada na feira, que trata de energias alternativas como a solar, biogás e eólica.
Também existe a organização de grupos de visitas à fazendas, apresentações técnicas e debates. Neste ano, reunindo lideranças dos produtores, deputados franceses e da União Européia, se discutiu o futuro da Política Agrícola da Comum da UE (PAC). O próprio ministro da Agricultura e Pesca da França, Michel Bernier, visitou e apresentou medidas ao setor. O país homenageado deste ano foi a Romênia, e o Brasil já teve seu momento de destaque numa exposição anterior.
Como acontece todos os anos, os organizadores premiaram dentre os expositores as 10 melhores novidades tecnológicas para a pecuária da região. Alguns dos premiados de 2008 foram: um distribuidor de esterco que proporciona aplicação mais homogenia no solo; dois compostos de plantas medicinais de uso externo para o combate a germes patogênicos do úbere; um sistema para divisão de baias de free-stall, que utiliza um mínimo de partes fixas, se ajustando muito bem aos animais; um programa de computador que auxilia na elaboração de rações na propriedade considerando o preço dos componentes, gerência de estoque e rastreabilidade, e um sistema de revestimento de células fotovoltaicas para telhados de galpões visando à produção de energia elétrica.