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Investimentos neozelandeses na produção de leite começam a ganhar corpo e se mostrar. No Brasil, dois projetos, cuja fase de desenvolvimento levou em torno de sete anos na mais absoluta discrição, hoje, já são objeto de exposição tanto na mídia quanto no mercado produtor e consumidor. No Uruguai, a mesma estratégia não funcionou, já que em país pequeno é muito difícil que ações que alterem a ordem de qualquer setor passem desapercebidas. Lá, como aqui, os neozelandeses também estão presentes e não escondem a razão a que vieram: produzir leite, muito leite!
“Podemos produzir, na Bahia, três vezes mais leite por hectare do que na Nova Zelândia, com um perfil regular de produção durante o ano, sem a necessidade de fazer silagem ou usar outros suplementos durante o inverno. O custo de produção é similar, mas essas vantagens fazem a diferença”, cita o neozelandês Craig Bell, diretor da Fazenda Leite Verde, localizada em Jaborandi, no sudoeste baiano. Em entrevista ao site Milkpoint, ele destacou que a água abundante e o clima podem fazer da região uma nova bacia leiteira no País.
Em outubro último ele fez questão de inaugurar não só fazenda, como também a indústria de leite UHT instalada dentro da propriedade, no que contou com a presença do governador Jaques Wagner. Segundo Bell, foram sete anos de trabalho visando dar condições para o rebanho atual – 3 mil vacas, das quais 1.300, em lactação – estar distribuído e se alimentando em regime de pastejo rotacionado, com critérios muito semelhantes aos que um dia adotou em seu país. A gramínea escolhida é a tifton, irrigada por pivô central. Para o plantel de que dispõe está reservando hoje uma área de 224 ha.
Mas o projeto abrange uma área muito maior, cerca de 15 mil ha. O que está se vendo hoje é apenas a primeira fase. Antecipando-se alguns meses, Balde Branco apresentou em agosto último um perfil do que pode representar tal investimento para a pecuária leiteira baiana e do País. A base de informações foi a revista neozelandesa Dairy Exporter, que deu um título sugestivo à reportagem: “Brasil ganha Eldorado do leite”. Segundo a publicação, trata-se de uma ação de um grupo de investidores que têm à frente, como um dos diretores, Craig Bell, um ex-funcionário da Fonterra, maior cooperativa de leite daquele país.
São 55 ha de área por pivô central, com lotação média de 600 vacas/ano, ou seja, 10,9 vacas/ha/ano. Cada pivô – são três em operação e um em desenvolvimento – abriga no ponto central uma unidade de ordenha duplo 36 e 40, permitindo a ordenha de 450 a 550 vacas/hora. As vacas recebem suplementação com 2,5 kg de concentrado energético, como milho ou outro produto como caroço de algodão, sorgo e milheto, para balancear a relação da proteína, abundante no pasto irrigado, com a energia da dieta. A estratégia do empreendimento é gerar baixo custo de produção por vaca, e, consequentemente, baixo custo de produção por litro de leite.
Vacas kiwi: a referência do rebanho - O rebanho foi desenvolvido na própria fazenda, desde o início de sua formação. “O crescimento do rebanho e produção de leite continuarão se desenvolvendo exclusivamente com gado nascido e criado na própria fazenda”, cita Bell. Como perfil genético, se pode dizer que é um mix de cruzamentos de raças selecionadas, com ênfase no desenvolvimento do chamado kiwicross, tendo como objetivo a máxima adaptação ao pasto. “Todo o sêmen utilizado para reprodução provém de touros da Nova Zelândia”, observa. Os partos são concentrados na primavera e no verão, mantendo a produção de leite constante o ano inteiro, diferentemente da Nova Zelândia.
“Os recursos naturais do clima, o relevo plano e levemente ondulado, a combinação de solos profundos e disponibilidade abundante de água, com modernas técnicas de adubação e irrigação, proporcionaram os elementos necessários para uma alta produtividade, produzindo resultados ainda melhores do que na Nova Zelândia”, descreve o produtor. Está certo disso ao citar que o projeto é capaz de produzir mais de 50 t de matéria seca de tifton por ha/ano. Tais índices, segundo nossos técnicos, causam espanto e inveja aos neozelandeses, já que não conseguem mais do que 3,3 vacas por ha/ano, produzindo até 17 t/ano de matéria seca de capim-azevém e trevo.
Inicialmente, a fazenda deverá produzir cerca de 20 mil litros por dia, mas poderá chegar até 150 mil litros, já que dispõe de área e de potencial para tal expansão. Tudo vai depender da demanda interna. Craig Bell afirma que a exportação não faz parte dos seus planos para o projeto e tampouco do seu principal sócio, Simon Wallace, cuja família é uma das maiores produtoras de leite da Nova Zelândia. Ambos são os principais diretores da empresa, com um total de 10 sócios investidores, o que inclui também alguns brasileiros.
O foco exclusivo no mercado brasileiro tem uma razão para Bell: “Quando começamos o projeto, notamos que a região do Nordeste é uma região deficitária de leite. Então, acreditamos que é melhor ter uma fazenda perto da demanda do que em uma região excedente de leite”, explica. À pergunta sobre se espera, a partir de seu sucesso, a chegada de patrícios para também produzirem leite por aqui, responde que sim, pois sabe de vários deles que já estiveram por aqui avaliando as vantagens das condições brasileiras para produzir leite.

Tifton irrigado com pivô central: são três unidades funcionando, com até 550 vacas cada
Para o site Milkpoint, ele admitiu que o maior desafio para o setor leiteiro brasileiro, pensando em sistema de produção a pasto, é a qualidade genética das vacas. “Encontramos uma grande diferença de conversão de pasto em leite entre a genética da Nova Zelândia e as vacas brasileiras, mas acho que com um enfoque nessa área é possível desenvolver uma vaca com bom potencial para as condições locais”, explicou.

Bell (primeiro à esq.) e o grupo de sócios do projeto baiano
Investidores neozelandeses em Goiás - Outro investidor neozelandês no leite brasileiro se chama Owen Williams. Ele dedicou vários anos de trabalho à pecuária leiteira em uma região montanhosa do Equador, antes de se mudar para o Brasil para estabelecer uma nova fazenda. Em primeiro lugar, ele procurou uma região brasileira que fosse adequada à produção de leite e, então, reuniu um grupo de investidores da Nova Zelândia para que financiassem o projeto, que ocupa cerca de 242 ha, a 180 km a sudoeste de Brasília, próxima a Anápolis-GO.
Segundo reportagem da revista Green to Gold, da Nova Zelândia, as primeiras intervenções na propriedade ocorreram há pouco mais de dois anos, com melhorias gerais na propriedade e o plantio de uma área experimental de tifton, de milho e sorgo para silagem. Hoje, junto à plataforma de ordenha, está uma grande área de pastagem de tifton, que é irrigada e está disponível o ano todo. “A taxa de crescimento da pastagem é considerada alta quando comparada à das pastagens na Nova Zelândia, mas a qualidade da planta é inferior. Por isso, é necessária a suplementação com silagem de milho”, afirma Owen.
Atualmente, a taxa de lotação está em torno de 6 vacas por hectare, mas ele quer chegar bem próximo de dez. Para dar início ao rebanho, Owen comprou novilhas leiteiras da raça Holandesa, com idade de seis a 18 meses, que foram cobertas com sêmen de touros Jersey da Nova Zelândia. “Nossa previsão é de que a produção por vaca seja similar à de uma fazenda de pecuária leiteira bem administrada, na Nova Zelândia. Para garantir que as taxas de crescimento das novilhas e o desempenho reprodutivo sejam adequados, foram adotadas práticas envolvendo a sanidade do rebanho, prevenindo-se contra a ocorrência de parasitas e doenças endêmicas.

Vacas kiwi: o modelo a ser seguido na Fazenda leite Verde
Diante da oferta local de animais de qualidade genética questionável, o produtor contou com os serviços especializados de Ross Wrenn, um neozelandês especialista em fazendas de leite, para dar melhor configuração ao projeto. Durante o primeiro semestre do ano passado foram realizados experimentos sobre o efeito de fertilizantes aplicados à pastagem de braquiária e ao sorgo, constatando-se, após a aplicação de nitrogênio, crescimento bastante expressivo. Wrenn promoveu também uma grande redução na presença de carrapatos, com a integração de pesticidas e a rotação de pastagem.
Para Owen, os preços de insumos agrícolas no Brasil são equivalentes ou menores que os da Nova Zelândia, mas os preços das terras são muito menores. “Por isso, as vacas representam uma proporção relativamente maior do orçamento de capital”, cita, ao falar dos valores investidos no rebanho à revista Green to Gold. A primeira tacada representou 900 novilhas, que começam agora a entrar em parição. Tão logo comece a produção de leite, ele pretende se dedicar ao projeto de desenvolvimento de uma segunda fazenda leiteira, uma atividade que deverá se integrar ao cultivo de soja e milho.
Aposta no potencial uruguaio - De olho na oportunidade de expandir a produção voltada para uma demanda mundial crescente, em um país onde a terra era barata e havia uma forte tradição leiteira, os neozelandeses desembarcaram também no Uruguai para implementar seu modelo de alta produtividade por hectare. Especializada em produção de leite por meio do uso de pastagens especiais, a PGG Wrightson foi responsável pela redução da distância entre os dois países.
Com grande tradição no setor de sementes de forragem, a PGG deu início ao projeto em 2006, quando instituiu a subsidiária New Zealand Farm Systems Uruguay (NZFSU) – um fundo de investimentos com o objetivo de adquirir terras e desenvolver a produção de leite à base de pasto, aos moldes da Nova Zelândia, em outros países. Com custos operacionais mais baixos e os valores do leite semelhantes aos pagos no outro lado do mundo, o Uruguai sempre foi visto como uma possibilidade de crescimento rápido.
Outro fator que transmitiu tranquilidade foram as políticas econômicas do governo uruguaio, altamente favorável ao investimento estrangeiro nos setores produtivos e com um alto respeito aos direitos de propriedade. “As terras no Uruguai são muito semelhantes às da Nova Zelândia, no que se refere ao manejo do pastejo intensivo. Acreditamos que há potencial para triplicar a produtividade das explorações agrícolas do Uruguai e alcançar uma taxa de retorno atraente para os acionistas”, explica o diretor da PGG Wrightson, Keith Smith.
Vale destacar que os investidores entraram no negócio em uma fase de preços baixos, mas a partir de 2007, o valor da terra aumentou abruptamente e foi necessário buscar investidores fora do Uruguai para fixar a base do projeto. A NZFSU atraiu cerca de U$S 200 milhões na Bolsa de Nova Zelândia e, em seguida, fez um road show (excursão com foco comercial) por Singapura, Japão, Alemanha e Estados Unidos, onde conquistou mais adesões ao programa.
Mas a crise global trouxe dificuldades e a estratégia precisou de ajustes. O capital recuou, os novos investidores não se confirmaram e os acionistas começaram a exigir o autofinanciamento do projeto, algo complicado com a queda dos preços do leite. No segundo semestre de 2008, a NZFSU teve uma perda líquida de US$ 9 milhões e um déficit operacional maior ainda: US$ 15 milhões. Nesse cenário, a empresa conseguiu um empréstimo de US$ 16 milhões, mas não foi o suficiente para colocar em atividade as fazendas, sobretudo, para instalar os onerosos sistemas irrigação, a chave para o projeto.
Para piorar a situação, no início da primavera, quando os campos estão em sua fase mais produtiva, ocorreu uma seca. Apesar do momento complicado, a empresa lançou outro fundo de US$ 30 milhões para continuar expandindo seu estilo de produção. Segundo o gerente regional da PGG Wrightson para a Argentina, Brasil e Uruguai, Carlos Miguel de León, trata-se de um modelo que exige uma aposta de alto investimento, cerca de US$ 2,5 mil por ha, mas que provou sua eficiência no ano passado, durante a estiagem. A proposta inicial é de 24 mil ha irrigados, mas a área deverá ser expandida.

Sangue Jersey é referência genética no rebanho que segue linhagem neozelandesa
Alta produtividade do pasto - Desenvolver uma fazenda leiteira no Uruguai custa US$ 10 mil/ha, em comparação com mais de US$ 40 mil/ha, na Nova Zelândia, maior exportadora mundial de leite em pó. “O Uruguai tem mais terra adequada para a produção leiteira do que a Nova Zelândia. Usando as sementes em cima da pastagem nativa, é possível obter uma alta produtividade no crescimento do pasto. Escolhemos o Uruguai, e não a Argentina, porque os uruguaios têm menos restrições às exportações”, salienta o gerente geral da NZFSU, Michael Thomas.
Conforme León, o valor do litro de leite voltou ao patamar em que estava quando o programa foi iniciado, em 2005. Hoje, a NZFSU vende cerca de 90 mil litros por dia para a Conaprole-Cooperativa Nacional de Produtores de Leite do Uruguai, 4% do total recebido pela cooperativa. “Fizemos o modelo com base em um preço de US$ 0,175 para um litro de leite e, hoje, recebemos, em média, US$ 0,18, dependendo da qualidade do leite”, revela.

Smith quer triplicar produtividade uruguaia
A aposta da companhia no Uruguai é em um modelo de produção no qual as condições de cultivo favorecem um tipo de sistema pastoral muito além do que pode ser feito em outras partes do mundo. “Se eu tivesse de repetir o modelo base da Nova Zelândia teria de falar em azevém perene e trevo branco. No entanto, consideramos algo mais parecido com o da Austrália, utilizando diferentes tipos de festuca”, pondera Carlos Miguel de León.
De acordo com Thomas, a plantação de azevém e sorgo nas terras do Uruguai fornece cerca de 14,5 t por ha de matéria seca para o gado, em comparação com 4 t de pasto nativo. Entre as recomendações do programa estão: adubação de manutenção das pastagens com ureia, aumento da taxa de lotação por hectare para melhorar a utilização da terra e fontes de água em distâncias pequenas. Para minimizar as perdas por transferências, o ideal é grandes fazendas leiteiras para reduzir o tempo em que os animais estão longe do pasto e irrigação para diminuir o pico improdutivo.

Projeto de produção de leite na Bahia abrange 15 mil ha e um rebanho inicial de 3 mil vacas
Outra premissa é promover um modelo de manejo em que a pastagem é consumida em determinada altura, com alta digestibilidade, elevadas cargas de animais e rotações mais frequentes quando o crescimento é alto, mantendo a altura de corte, e piquetes pequenos com dois bebedouros, para garantir que os bovinos comam de forma equilibrada. “Existe muita experiência por trás do que fazemos. Desde 1995 trabalhamos com forrageiras e, a partir de 2000, começamos a desenvolver pesquisas em colaboração com a Conaprole. Estamos constantemente procurando áreas leiteiras, o que nos deu experiência no manejo de pastagens e de variedades que se adaptam melhor do que outras”, afirma León.
Segundo ele, até que tenha sido completada a instalação dos sistemas de irrigação previstos no projeto, ter oferta de suplementação para o rebanho é fundamental. O programa ainda está numa fase inicial para determinar se o processo será completamente pastoral. Esta é a meta, porém isso dependerá de que as pastagens, com altas taxas de fertilização, cubram todas as necessidades dos animais. Nesse contexto, é uma virtude estar perto de dois grandes mercados de grãos, principalmente, a Argentina, o que dá uma estabilidade ao sistema, que não poderia funcionar sem irrigação e com as exigências nutricionais de que necessita.
Previsão ousada até 2012 - Em 2007, a companhia neozelandesa adquiriu cinco fazendas no Uruguai. A expansão aconteceu rapidamente e, hoje, a NZFSU gerencia uma área de 36,3 mil ha no país, com cerca de 60 mil bovinos e 19 fazendas leiteiras nas províncias de Rocha, Florida e Rio Negro. A média produzida mensalmente é de 5 milhões de litros de leite. A empresa pretende ser responsável por um quarto da produção de leite do Uruguai até 2012.

Em Goiás, Owen (dir.) investiu em 900 novilhas Holandesas e em terras de preço reduzido
O maior desafio atualmente é completar os sistemas de irrigação (barragens e pivôs) e provar que o projeto pode funcionar bem. A crise atrasou investimentos como em máquinas e fertilizantes, e a seca impediu a conclusão das barragens, de modo que o programa ainda não consegue funcionar plenamente. A escassez de chuvas também trouxe despesas mensais da ordem de US$ 300 mil com rações extras. A iniciativa prevê 6 mil ha sob irrigação, mas hoje existem menos de mil. Estima-se que sejam necessários US$ 90 milhões para completar o plano de investimento.
“O que é encorajador é que os resultados na área irrigada estão acima das expectativas. Implementar a irrigação não é simples porque, entre outras coisas, é preciso dispor de redes de maior capacidade de energia, para o que estamos trabalhando, em conjunto com a Administração Nacional de Usinas e Transmissões Elétricas (UTE)”, ressalta o gerente regional.
A companhia emprega diretamente 345 trabalhadores no Uruguai. Eles vivem quase que permanentemente nas propriedades. Além de aplicar recursos em infraestrutura – como uma ampla rede de estradas internas e sistema de água encanada em cada pastagem –, foram construídos alojamentos e uma escola, onde os filhos dos funcionários podem ter uma educação adequada, com formação em informática e inglês.

No Uruguai, produtores neozelandeses possuem 19 fazendas e um rebanho de 60 mil vacas
“Quando começamos este modelo, pensei que teríamos de trazer um grande número de trabalhadores qualificados para lidar com o investimento. No entanto, isso não aconteceu porque aproveitamos a mão de obra dos uruguaios. Aqui, o potencial de crescimento é enorme, pois cada funcionário recebe de acordo com sua capacidade e os familiares também estão envolvidos na atividade. Na Nova Zelândia, um produtor de 200 ha é rico e pode enviar seus filhos para estudar na Inglaterra, porque o modelo de produção intensiva permite que você receba uma ótima remuneração”, compara León.
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