CAPTAÇÃO DE LEITE RECUA!
SINAL VERDE PARA OS PREÇOS

Maurício P. Nogueira
 

Depois de seis meses de aumento na captação de leite, o Cepea-Centro de Estudos e Pesquisas em Economia Aplicada registrou o primeiro recuo no volume captado ainda para a produção de dezembro de 2009. Segundo o instituto de pesquisas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em dezembro, houve queda de 1,57% no volume captado.
Com isso, o índice de captação voltou a um patamar pouco abaixo do observado em novembro. Segundo o Cepea, a tendência é de que a captação recue ou se mantenha estável nos próximos meses.
Vale ressaltar que, mesmo com o recorde do indicador de captação de leite, registrado em dezembro de 2009, o total captado no ano ainda ficou 1,3% abaixo do registrado em 2008. Até setembro, última atualização de captação do IBGE-Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, os números confirmam o indicador acompanhado pelo Cepea. A captação de leite de 2009 provavelmente foi menor que a de 2008.
E esta redução na captação, principalmente nos primeiros seis meses do ano, foi um dos principais fatores que impediu que os preços recuassem ainda mais em relação ao ano anterior. Segundo a Scot Consultoria, os preços médios nominais de 2009 foram 0,96% inferiores aos preços de 2008. Em valores reais, corrigindo a inflação pelo IGP-DI (Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna), os valores médios nacionais de 2009 ficaram 2,92% abaixo da média de 2008.
No pagamento da produção de dezembro, realizado em janeiro, a Scot Consultoria registrou um recuo de 1,03% em relação ao mês anterior. O valor médio nacional ficou na faixa de R$ 0,618/litro, preços brutos na plataforma. O Cepea registrou praticamente o mesmo recuo, em torno de 0,96% com a média nacional da produção de dezembro de R$ 0,597. Ambas as pesquisas concluíram que o recuo nos valores pagos perdeu força, abrindo perspectivas de estabilidade e recuperação logo no início do ano.
Se assim acontecer, vale o cenário mais otimista dentre aqueles desenhados na última edição. Havia duas possibilidades: uma, de que os preços começassem a se recuperar mais ao final do período chuvoso, e outra, de que o comportamento seria semelhante ao de anos anteriores, com recuperação logo no início das chuvas.
E parece que o cenário mais otimista acaba se confirmando. Segundo a Scot Consultoria, 65,6% dos entrevistados acreditam em estabilidade nos preços para o pagamento de fevereiro, enquanto 24,2% já falam em aumento. Já o levantamento do Cepea identificou que 48% dos entrevistados, que respondem pela aquisição de 41,4% do volume de leite da amostra pesquisada, acreditam em alta. E 47% dos agentes, que compram 52% do produto da amostra, acreditam em estabilidade.



Diferentes metodologias chegam a números semelhantes para fevereiro. Os preços devem parar de cair. Por isso, mesmo com o aumento significativo da captação de leite no segundo semestre, o volume não foi suficiente para superar o déficit do primeiro semestre, conforme já abordado anteriormente.
No mercado atacado de leite, a grande surpresa foi a alta dos preços do longa vida. Em janeiro, os preços médios do mercado de leite UHT (longa vida) aumentaram 8,8%, ou R$ 0,12/litro. Este comportamento abre boas perspectivas para o início do ano, lembrando que este mercado se recupera tradicionalmente entre os meses de março e abril. Em 2010, com o carnaval uma semana mais cedo e com os preços se recuperando logo em janeiro, fica um clima de otimismo.
Mesmo assim, é bom não contar muito com otimismo. Pelo quarto mês seguido a Scot Consultoria registrou queda nas margens de negociação do varejo. Em janeiro, a diferença entre preço pago pelo consumidor e recebido pela indústria, no mercado do longa vida, é de 8,1%. Em outubro, chegou a 23,9%.
Por isso, é de se esperar que venha ainda uma pressão por parte do setor varejista, ou apertando as negociações com a indústria ou aumentando preços ao consumidor. Em ambos os casos, não deixa de consistir em um obstáculo à escalada de preços da indústria e, consequentemente, aos produtores. Vale ficar atento. Sábio é aquele que se prepara para adversidades e aproveita as oportunidades.
O mercado spot – leite comercializado entre as indústrias – registrou o segundo mês de aumento consecutivo. No acumulado, os preços médios dos Estados de Goiás, Minas Gerais e São Paulo já subiram 5,2%, ou R$ 0,03/litro, segundo a Scot. Com o comportamento atual do mercado de leite longa vida, é provável que em fevereiro os preços spot aumentem em proporções mais significativas. Se assim ocorrer, estará aberta a “porteira” para o aumento de preços aos produtores já em fevereiro.
Observe, na Figura 1, a evolução comparativa entre preços e captação ao longo dos últimos 25 meses. Os dados estão em base 100 para janeiro de 2008.
Por ora, as pesquisas e análises de mercado do mês de janeiro indicam um ano mais favorável à produção de leite, tanto para indústria como para o produtor. Oferta menor, em comparação a anos anteriores, e demanda crescente são uma ótima dobradinha nos fundamentos econômicos. Por isso, aparentemente, o decorrer de 2010 deverá trilhar os cenários mais otimistas dentre os que foram estimados ao final de 2009.
Mas para não perder o costume, vale lembrar que preços bons não implicam em bons resultados. É só uma dentre as inúmeras variáveis que deverão ser administradas dentro das propriedades.
Recomendação para 2010?! Muito entusiasmo e cautela com o otimismo.

Maurício Palma Nogueira, engenheiro agrônomo, diretor da Bigma Consultoria – e-mail: bigma@bigma.com.br.